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Por Douglas Cavallari de Santana


Terça-feira | 29 ABR 08

“Sonhos de Abril”

“Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade”

Zeca Afonso, o cantor da Revolução dos Cravos, em “Grândola, Vila Morena”

No último dia 25 de abril, tive a oportunidade de participar de uma cerimônia na Assembléia Legislativa de São Paulo onde a comunidade luso-brasileira foi uma das homenageadas. Penso que a data não poderia ser mais apropriada. Pela abrangência, complexidade, sonhos, tragédias e marcas que deixou, acredito que a Revolução dos Cravos é um dos maiores acontecimentos da história lusófona.

O movimento sempre me despertou certa curiosidade. A começar, também sou de 1974. Ainda lembro a primeira vez que me explicaram o 25 de Abril, durante um almoço de família, no antigo restaurante “Abril em Portugal”. Tudo começou quando fiz uma típica pergunta de criança: se o lugar “abriu em Portugal”, por que estava em São Paulo? Nunca imaginaria que, duas décadas depois, iria assistir às comemorações dos 30 anos da Revolução do outro lado do Atlântico.

Sonhado, teorizado e planejado durante anos, aquele “Abril em Portugal” foi um dos poucos movimentos capazes de influenciar todo o mundo lusófono. Para as antigas colônias, teve o doce sabor da liberdade e o gosto amargo do abandono, da miséria e intensas lutas pelo poder. Para milhões de colonos, representou um trágico adeus e a oportunidade de colocar-se à prova e construir uma nova vida. Para o Brasil, em plena ditadura, foi um exemplo a seguir e trouxe um conceito quase inimaginável: os militares democráticos de esquerda.

Atualmente, apesar de ignorada pelas novas gerações, a Revolução dos Cravos segue alimentando muitos dos ideais e dilemas lusófonos. Como não notar a influência do pensamento de líderes portugueses e africanos daquela época, como António Spínola e Amílcar Cabral, na criação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa? Ou não relacionar o processo de descolonização adotado com a instabilidade política que ainda resiste no Timor-Leste e Guiné-Bissau?

Ao relembrar esses e muitos outros exemplos, acredito que o ideal de liberdade, paz e esperança que mobilizou os portugueses naquele dia 25 de Abril de 1974 ainda pode ser uma fonte inspiradora para a construção de um futuro melhor e sinceramente fraterno entre os povos lusófonos. O sonho que muitos pagaram com própria vida, não cabe a nós esquecê-lo ou desperdiçá-lo.

“Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim”

Chico Buarque em “Tanto Mar”, composta - e censurada - em 1975
 

Douglas Cavallari de Santana

Publicado na seção Iscas Intelectuais - Lusófonas da página de Internet do comunicador Luciano Pires - www.lucianopires.com.br.

 

Para saber mais:
• A25A (www.25abril.org): página de internet da Associação 25 de Abril.

• Universidade de Coimbra (www.uc.pt/cd25a): página oficial do Centro de Documentação 25 de Abril.

• PCP (www.pcp.pt/actpol/temas/25abril/30anos): o Partido Comunista Português mantém uma página com muitas informações sobre o movimento.

• Livraria Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Fnac Portugal (www.fnac.pt) e Estante Virtual (www.estandevirtual.com.br): algumas livrarias que possuem livros novos e usados sobre a Revolução e os seus grandes líderes.


 

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