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O socialismo derrubou o Estado Novo e o
capitalismo vence sobre a democracia.
As revoluções liberais começam-se com a
oferta de liberdade, igualdade, fraternidade e justiça. O povo,
que não reflecte sobre as lições da história, vai na fita e
acomoda-se. Entretanto os libertadores ocupam os postos dos
depostos, dando continuidade à opressão e ao suborno,
registando-se naturalmente um progresso quantitativo que não
qualitativo.
No regime democrático iniciado com o 25
de Abril, tal como na primeira democracia portuguesa, faltam os
pressupostos democráticos aos iniciadores da revolução.Numa e
noutra não domina a razão nem tão-pouco a voz do cidadão adulto
mas sim a força e a corrupção cimentada por uma mentalidade
autoritária.
Assim, transformam a nação numa coutada
partidária, ainda antes do povo entender o que era democracia e o
que significa liberdade.
Sem uma consciência de povo nem de
nação, tratava-se de sanear pessoas de postos e ocupá-los por
outras. Pessoas espertas, depois de terem calcado a bandeira
portuguesa no estrangeiro, importam, também agora, daí ideias a
que se encostam. Não parece haver a consciência do que se é nem do
que se quer. Não são personalidades que fazem a história mas a
história que lhes atribui personalidade!
Mesmo hoje, depois de 30 anos de
exercício, até no parlamento, não há o mínimo de respeito pelos
colegas parlamentares. Causa náuseas, por vezes, observar o
sorriso sarcástico e as respostas de carácter pessoais que um PM
dá aos intervenientes de partidos concorrentes. Um povo simples
habituado às reacções dos chefes dos seus clubes de futebol não
exigem mais dos seus governantes e até pensam que a resposta ad
hominem dada pelo PM é bem dada. Portugal cada vez se degrada mais
para um país de adeptos e de adaptados. A realidade passa a ser
projecção e a inteligência esperteza. Enfim, um povo plateia, com
políticos que não estão, sequer, à altura do profissionalismo dos
seus jogadores de futebol. Apenas os superam na conversa; comungam
da corrupção. Consequentemente, um povo, de memória curta, já sem
força para levantar a voz nem o rabo, lá se vai arrastando para as
urnas do voto, na cumplicidade de jogo pelo jogo. Cada vez o faz
menos convicto. Talvez o desencanto do adro político!
Fazem leis que dizem legitimadas em nome
dum povo que desprezam e teimam continuar a desconhecer. Já não
conta o problema da legitimação. Naturalmente que a democracia não
soluciona o problema, por vezes contraditório, da decisão
legitimada democraticamente e da decisão legitimada pela razão. Na
ditadura a legitimação assenta no poder do ditador. Na democracia
no poder do grupo mais forte, mas também não na razão. Apesar de
tudo isto a democracia é um bem superior a defender-se. Os
políticos esbanjam-no e maltrata-no. Deslegitimam-no atendendo à
arbitrariedade da força normativa em que se baseiam. Do
autoritarismo duma economia de plano passou-se para o
autoritarismo da economia liberal. Antes decidia um sistema hoje o
outro; ontem um de carácter pessoal, hoje um, sem carácter,
anónimo.
Não se trata de colocar o problema da
ditadura ou da democracia mas de ver como o Estado trata os
cidadãos e como trata espacialmente os mais carenciados. Certos
investimento em campos de futebol e em objectos de prestígio à
custa do investimento na produção, desrespeita o povo. Investe-se
na capital o que se rouba à província. Estes são, muitas vezes,
investimentos para inglês ver!
Temos uma democracia que devemos
defender. O que nos falta na classe dirigente são homens
democratas da craveira dum Salazar dos bons tempos mas
naturalmente modernizado. Faltam-nos homens que sejam capazes de
cometer erros mas que se afirmem na defesa da nação e do povo. Não
se trata de exorcizar o presente nem de negá-lo, mas de se não
deixar ir na enxurrada.
Os políticos encostam-se à liberdade e a
economia à liberdade de consumo. Chegou-se porém a um ponto em que
o crescimento do consumo já não satisfaz nem é comprável por
grande parte da população. Passa-se a um consumo à custa da
liberdade e da dignidade. Isto porque a política se sujeitou à
economia.
Os vendilhões do templo da Democracia
A democracia não parece já interessar-se
pelos cidadãos que são tidos apenas como consumidores e como
contribuintes. Um estado que reduz a ética do capital ao imposto
sobre ele não é independente e torna-se supérfluo. Uma empresa
privada faria então melhor o seu papel do que o Estado.
Uma democracia que permite que um seu
cidadão ganhe tanto ou mais num mês como um trabalhador simples em
toda a sua vida não merece o nome de democracia. Essas diferenças
não se davam num tempo do capitalismo mais moderado. Hoje, um
super-capitalismo inteligente sabe influenciar com as suas lobies
a política e comprar os políticos com ofertas às suas fundações e
organizações (que se podem tornar em instrumentos de lavagem de
dinheiros e da compra de consciências que se dizem ao serviço do
povo). É preciso expulsar os vendilhões do templo da democracia. A
democracia está em perigo. A gravidade da crise é ser colocada em
perigo pelos que a representam e se servem dela.
Robert Reich, no seu livro
Superkapitalismus, dá pistas muito úteis para uma coexistência
respeitosa entre cultura política e cultura económica no sentido
de se dominar o super-capitalismo que já domina sobre a
democracia.
António da Cunha
Duarte Justo
Da Alemanha
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