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Por Humberto Pinho da Silva


Sexta-feira | 25 ABR 08

“O Porto do Início do Séc XX”

Quando o carro de Bois descia à Baixa

Imagine que em tépida manhã de domingo, ao descerrar a janela do quarto, deslumbra, por estranha magia da máquina do tempo, “nova” cidade; o velho e boêmio Porto; o burgo do inicio do séc. XX. Com assombro depara pitorescas ruelas do antiqüíssimo bairro da Sé, calçadas a pedra incerta, por onde deambulou Alexandre Herculano, Camilo e por que não? Júlio Dinis, que nascera um nadinha mais abaixo, em S. Nicolau, na Rua do Reguinho?

Estamos em Outubro. É domingo. Um cálido domingo de Outono.
Aconselho que se traje a rigor: chapéu de palha ou alto, colarinho de goma e terno - como se diz no Brasil. Para não errar observe as fotos dos bisavôs. Ah! Não esqueça o guarda chuva. Será útil quando anoitecer.

Venha à baixa, passe pelo local onde se erguia o convento de Avé Maria, agora desmantelado, e participe à eucaristia, nos Congregados. Se gosta de missa de festa, recomendo que vá a S. João Novo. O Padre José Rodrigues da Costa, abade de Miragaia, vai pregar.

Para não perder tempo - o domingo passa rapidamente, - prefira os Congregados. O templo transborda de fieis.

Terminado o culto, desça as escadinhas da igreja e entre na Praça de D. Pedro. São horas de almoçar e não faltam restaurantes: “Rainha”, “Porto Club”, “Camanho”, “Antiga Cascata”, o “Suíço, e o “Internacional “.

Aceita sugestão? Recomendo o “Rainha”. Peça carne assada e vinho da casa. Estou certo que nunca comeu melhor.

Mas…. Se a bolsa anda mal abonada, procure casa de pasto.

Tem muitas; difícil é a escolha: “Bem Arranjadinho”, “Caldo de Galinha”, ”Romão”, “Gaspar da Trindade”….; se não exige luxo, mas quer saborear bons pitéus, suba a Rua da Fábrica, entre em Santa Teresa e abanque no “ João do Buraco”.

Finalizada a refeição, está como abade dos antigos. Depois desça os Clérigos. Sugiro que passe no mercado dos “Anjos”.Há quem assevere que tem vendedeiras de grande beleza… Encontrará tudo e para tudo.

Desça até aos Lóios. Passará por importantes armazéns. Se não fosse domingo, poderia comprar boas fazendas. Facilmente encontrará: “ Machado, Lemos & Monteiro, “À Noiva”,”João António de Carvalho & Cª” e “Augusto de Vasconcellos”.

Nos Lóios compre o periódico ao ardina de pés nus, mal enroupado, de sacola a tiracolo, que lhe oferece “O Comércio do Porto”.

O pregão do gaiato mistura-se com o grito do vendedor de sabão que vocifera: “Quem merca a vintém!!!…“; e ambos se esbatem na voz esganiçada do rapazinho que vende caramilo, para matar as bichas.

Já na Praça, espreite o rosto dos jornais no quiosque do Sebastião, e como o tempo está quente, descanse num dos bancos .

Se não tomou café, entre no “Suíço”; com um pouco de sorte pode encontrar o Dr. Júlio de Matos ou dialogar com membros da tertúlia que fundou os Finianos”.
Mas, se prefere conviver com jovens, vá ao Passeio das Cardosas, ao “Internacional”
Desdobre o matutino e escolha o programa da tarde. Se prefere teatro e ambientes requintados, compre entrada no Real Teatro de S. João ou Teatro Príncipe; mas, se não tem preconceitos pode ir ao: “Carlos Alberto”, “Chalet”, “Águia de Ouro”,ou “D. Afonso”.
Se não se decide, recomendo ver “ A Mãe dos Infelizes”, no Carlos Alberto, como tem que passar pela “Confeitaria Oliveira “, aproveite para merendar.

Pode também ir à Feira de S. Miguel, na Rotunda da Boavista, ou à tourada, na Senhora da Hora. Se preferir vá de comboio. Há preços especiais.

Ao sair da sala de espectáculo já é noite e chove que Deus dá. Parece que o céu desaba. Abrigue-se; em breve estia.
Não se apresse. O Porto de 1900 não é como o do século XXl, onde se receia passear à noite.

Os cafés e restaurantes da baixa animam-se depois da ceia. Famílias inteiras descem à rua para dar umas voltas, que alguns chamam dos “ tristes”. Hábito que terminou definitivamente nos meados dos anos setenta.

Ladrões?;assaltos?;crimes?; também há, mas sem gravidade. Zaragatas e pequenos roubos. Conflitos entre sapateiros, carroceiros e tecelões ou injurias de pedintes. O portuense que se preze e pertença à alta e média sociedade, é alegre, folgazão e um nadinha boémio.

Mas, onde cear? Jante no “Túnel”.Pode também comer “Tripas” no “Luso Brasileiro” e carneiro assado no “Manuel do Diabo”; mas no “Túnel”, por certo encontrará o Matias Azevedo de “ O Primeiro de Janeiro”, Luís Gomes de “O Comércio do Porto”, Vasconcelos da “Tarde” e ainda Arnaldo Leite, meu informante.

Peça ao Sr. Francisco, bacalhau no forno. É do melhor que há.

Noite cerrada e já com céu lavado, regresse ao lar. Se passar pela Batalha não se pasme se ouvir o empertigado porteiro do Teatro S. João, exclamar:
- O carro do Sr. Conselheiro Cardoso.

O carro da Sr.ª Viscondessa….do barão…ou simplesmente, um cupé para o Sr. Caetano de Pinho.

Durma bem…sonhe com o Porto de 1900... que era bem melhor que o de agora….apesar do progresso e avanço da ciência. Seria?! Pelo menos pareciam mais felizes e sabiam conviver.

Humberto Pinho da Silva


 

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