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Imagine que em tépida manhã de domingo,
ao descerrar a janela do quarto, deslumbra, por estranha magia da
máquina do tempo, “nova” cidade; o velho e boêmio Porto; o burgo
do inicio do séc. XX. Com assombro depara pitorescas ruelas do
antiqüíssimo bairro da Sé, calçadas a pedra incerta, por onde
deambulou Alexandre Herculano, Camilo e por que não? Júlio Dinis,
que nascera um nadinha mais abaixo, em S. Nicolau, na Rua do
Reguinho?
Estamos em Outubro. É domingo. Um cálido
domingo de Outono.
Aconselho que se traje a rigor: chapéu de palha ou alto, colarinho
de goma e terno - como se diz no Brasil. Para não errar observe as
fotos dos bisavôs. Ah! Não esqueça o guarda chuva. Será útil
quando anoitecer.
Venha à baixa, passe pelo local onde se
erguia o convento de Avé Maria, agora desmantelado, e participe à
eucaristia, nos Congregados. Se gosta de missa de festa, recomendo
que vá a S. João Novo. O Padre José Rodrigues da Costa, abade de
Miragaia, vai pregar.
Para não perder tempo - o domingo passa
rapidamente, - prefira os Congregados. O templo transborda de
fieis.
Terminado o culto, desça as escadinhas
da igreja e entre na Praça de D. Pedro. São horas de almoçar e não
faltam restaurantes: “Rainha”, “Porto Club”, “Camanho”, “Antiga
Cascata”, o “Suíço, e o “Internacional “.
Aceita sugestão? Recomendo o “Rainha”.
Peça carne assada e vinho da casa. Estou certo que nunca comeu
melhor.
Mas…. Se a bolsa anda mal abonada,
procure casa de pasto.
Tem muitas; difícil é a escolha: “Bem
Arranjadinho”, “Caldo de Galinha”, ”Romão”, “Gaspar da
Trindade”….; se não exige luxo, mas quer saborear bons pitéus,
suba a Rua da Fábrica, entre em Santa Teresa e abanque no “ João
do Buraco”.
Finalizada a refeição, está como abade
dos antigos. Depois desça os Clérigos. Sugiro que passe no mercado
dos “Anjos”.Há quem assevere que tem vendedeiras de grande beleza…
Encontrará tudo e para tudo.
Desça até aos Lóios. Passará por
importantes armazéns. Se não fosse domingo, poderia comprar boas
fazendas. Facilmente encontrará: “ Machado, Lemos & Monteiro, “À
Noiva”,”João António de Carvalho & Cª” e “Augusto de
Vasconcellos”.
Nos Lóios compre o periódico ao ardina
de pés nus, mal enroupado, de sacola a tiracolo, que lhe oferece
“O Comércio do Porto”.
O pregão do gaiato mistura-se com o
grito do vendedor de sabão que vocifera: “Quem merca a
vintém!!!…“; e ambos se esbatem na voz esganiçada do rapazinho que
vende caramilo, para matar as bichas.
Já na Praça, espreite o rosto dos
jornais no quiosque do Sebastião, e como o tempo está quente,
descanse num dos bancos .
Se não tomou café, entre no “Suíço”; com
um pouco de sorte pode encontrar o Dr. Júlio de Matos ou dialogar
com membros da tertúlia que fundou os Finianos”.
Mas, se prefere conviver com jovens, vá ao Passeio das Cardosas,
ao “Internacional”
Desdobre o matutino e escolha o programa da tarde. Se prefere
teatro e ambientes requintados, compre entrada no Real Teatro de
S. João ou Teatro Príncipe; mas, se não tem preconceitos pode ir
ao: “Carlos Alberto”, “Chalet”, “Águia de Ouro”,ou “D. Afonso”.
Se não se decide, recomendo ver “ A Mãe dos Infelizes”, no Carlos
Alberto, como tem que passar pela “Confeitaria Oliveira “,
aproveite para merendar.
Pode também ir à Feira de S. Miguel, na
Rotunda da Boavista, ou à tourada, na Senhora da Hora. Se preferir
vá de comboio. Há preços especiais.
Ao sair da sala de espectáculo já é
noite e chove que Deus dá. Parece que o céu desaba. Abrigue-se; em
breve estia.
Não se apresse. O Porto de 1900 não é como o do século XXl, onde
se receia passear à noite.
Os cafés e restaurantes da baixa
animam-se depois da ceia. Famílias inteiras descem à rua para dar
umas voltas, que alguns chamam dos “ tristes”. Hábito que terminou
definitivamente nos meados dos anos setenta.
Ladrões?;assaltos?;crimes?; também há,
mas sem gravidade. Zaragatas e pequenos roubos. Conflitos entre
sapateiros, carroceiros e tecelões ou injurias de pedintes. O
portuense que se preze e pertença à alta e média sociedade, é
alegre, folgazão e um nadinha boémio.
Mas, onde cear? Jante no “Túnel”.Pode
também comer “Tripas” no “Luso Brasileiro” e carneiro assado no
“Manuel do Diabo”; mas no “Túnel”, por certo encontrará o Matias
Azevedo de “ O Primeiro de Janeiro”, Luís Gomes de “O Comércio do
Porto”, Vasconcelos da “Tarde” e ainda Arnaldo Leite, meu
informante.
Peça ao Sr. Francisco, bacalhau no
forno. É do melhor que há.
Noite cerrada e já com céu lavado,
regresse ao lar. Se passar pela Batalha não se pasme se ouvir o
empertigado porteiro do Teatro S. João, exclamar:
- O carro do Sr. Conselheiro Cardoso.
O carro da Sr.ª Viscondessa….do barão…ou
simplesmente, um cupé para o Sr. Caetano de Pinho.
Durma bem…sonhe com o Porto de 1900...
que era bem melhor que o de agora….apesar do progresso e avanço da
ciência. Seria?! Pelo menos pareciam mais felizes e sabiam
conviver.
Humberto Pinho da
Silva
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