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Camões em os Lusíadas foi traduzido para
todas as línguas, sem exceção, inclusive para a própria Língua
Portuguesa; compôs sob a égide do Latim, com a sintaxe da Língua
Latina, com um léxico extremamente erudito e, evidentemente, sem
as notas de rodapé explicativas, seja da sintaxe, da estilística
ou das citações mitológicas, como nas edições mais modernas.
Portanto, dado o estágio do contexto sociocultural português no
século XVI, ninguém na sua época o deve ter entendido e sequer,
lido: os níveis de linguagem, os repertórios de autor e leitor
eram, continuam a ser e sempre serão muito diferentes.
Tenho certeza de que nós professores,
especialmente os universitários, muitas vezes, vemo-nos tomados
pela Síndrome de Camões, ou seja: sentimos necessidade de
tradutores, temos a nítida sensação de que nossos alunos não nos
conseguem entender.
Nas Faculdades Integradas Rio Branco
tenho a possibilidade de trabalhar com deficientes auditivos que
me “escutam” por meio do intérprete de Libras (Língua de Sinais
Brasileira) e penso: como seria bom ser interpretada/ traduzida/
legendada para que todos pudessem, não apenas escutar, mas ouvir e
daí entender, relacionar, comparar, analisar, julgar, criticar,
conceituar, deduzir, generalizar, discutir, explicar ... enfim,
fazer parte desse processo dialógico que é o verdadeiro
aprendizado.
Nós passamos pelas transformações
tecnológicas, eles estão totalmente engajados nelas. São homólogos
ao computador, alimentados pela informação, não vêem necessidade
de entender os mecanismos mais profundos das linguagens, sua
articulação sintática; conseguem da informação tirar algum sentido
e o nível semântico reduz-se às primeiras camadas de qualquer tipo
de texto. Dominam a instantaneidade, a simultaneidade de mensagens
e esbarram na linearidade da palavra, do código verbal oral ou
escrito, na fala humana a que Hjelmslev denominou “o título de
nobreza da humanidade”.
Nobres e plebeus temos que nos entender.
O verdadeiro professor, aquele que professa, que põe fé em sua
função e em seus alunos, tem que recuperar o velho construtivismo
socrático de fustigar e conduzir o aluno pela construção de seu
próprio conhecimento. Certo é que Sócrates, além de professar,
tinha um método e a habilidade de fazer as pessoas se expressarem,
mesmo quando as idéias não estavam ainda bem claras e formuladas.
A clareza, a claridade, a luz vinham do diálogo.
Como, então, dialogar com nossos alunos
sem necessidade de sermos legendados? Acredito que iniciando a
“conversa” com as ferramentas que eles dominam e que lhes desperta
interesse. Por que não os podemos conduzir do hipertexto à magia
de textos escritos que sedimentam e garantem a integralidade da
comunicação? Por que não os podemos fazer mergulhar nas camadas de
uma escrita bem articulado e no prazer de dominar o tempo da
leitura e, assim, se poder conceder o espaço necessário para
assimilar a informação no simples ato de ler e reler? É um
procedimento encantatório, sem dúvida nenhuma, um jogo de sedução,
que uma vez vencido não se consegue abandonar.
Tenho experimentado de tudo, ensinado
metodologia partindo de textos como Citizen X (filme de Jeffrey
DeMunn - Cidadão X), Matrix ou Beleza Americana, análise sintática
tendo como referente quadros de Picasso ou o Bolero de Ravel e
dialogando, sempre procurando dialogar não só com os alunos como
também com colegas das mais diversas áreas. Resultado: troca de
experiência, atividades conjuntas, material abundante e rico e, o
mais desejado, a atenção do aluno
É mais demorado? Sem dúvida. É mais
trabalhoso? Evidente. Mas todos sabemos que vale a pena.
Professores: conheçamos nossos
alunos, descubramos seus interesses, transmitamo-lhes segurança,
liberdade e capacidade de expressão. Tenhamos a certeza de
dialogar. E...continuemos a professar!
Virgínia Maria
Antunes de Jesus
Mestre em Literatura Portuguesa e
professora das Faculdades Integradas Rio Branco
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