|
O ser da vida e do mundo é vibração é
ressonância. Estas são comuns ao corpo e à alma de cada um dos
nossos seres e ao existente. Na pauta de notas da vida trata-se de
descobrir a nota de que se é eco para se poder entrar na
solfejação geral e assim dar voz à sinfonia da vida universal. Uma
vez entrados na onda trata-se de seguir o ritmo que nos conduz ao
inefável, ao indelével. A música é, no seu verdadeiro sentido da
palavra, bálsamo da alma. Ela conduz-nos ao limiar do espírito.
O ouvido é o primeiro sentido já em
acção no ventre materno e o último a deixar-nos no fenecer.
Através dele o mundo exterior chega ao mais profundo de nós
mesmos.
A música cria grande ressonância nos
vários areais cerebrais activando uns e desligando o centro do
medo e activando o da lembrança.
A música não pode ser reduzida a caixote
do lixo de sentimentos negativos e de frustrações nem tão-pouco a
estímulo de sexo (Pop), nem a alienação de intelectuais (música
clássica). Naturalmente que também tudo isto tem o seu sentido,
não se esgotando aqui. Música é expressão do divino e meio de
cura. Ela é a voz de Deus a vibrar quando nós entramos na
ressonância do sentir, tornando-nos eco a agir.
Ao ouvirmos música sentimos coisas
maravilhosas quer quando estamos sãos quer quando doentes e
abertos ao milagre. A música, se não cura, melhora o nosso estado
de saúde. Nos conventos, para entrarmos num estado de harmonia
corporal e espiritual começa-se logo de manha por cantar o
gregoriano. O canto chão, um poço monocórdico acompanha momentos
importantes do dia.
A música consegue desatar, em nós, nós
psico-fisiológicos e desenvolver forças curativas, como nos revela
a harpa de David quando tocava para o seu rei depressivo. Muitos
dos curandeiros da antiguidade e modernos utilizam os seus
instrumentos musicais e o seu canto para curar. Também em muitas
clínicas ou hospitais se usa a música como elemento sedativo e
curativo.
Não só as vacas dão mais leite ao som de
música clássica mas também as hormonas de stress diminuem no
sangue dos pacientes e “surgem menos complicações depois das
operações” como testemunham cirurgiões de clínicas em que se usa a
música também como calmante. A música estimula o cérebro a
predispor-nos para a mudança. A música encontra a sua ressonância
no cérebro tornando-o flexível para o experimentável.
Daí a importância da promoção da música
na escola e por todo o lado. Todo o educador, pai e mãe, se
deveria preocupar por iniciar o educando, o mais cedo possível, na
música. Esta aumenta a empatia e a inteligência.
Investigações feitas na clínica
neuropsicológica da Universidade de Heidelberg na Alemanha
chegaram à conclusão de que, com música, a massa cinzenta aumenta
e as células nervosas adquirem maiores conexões, melhorando o
intercâmbio entre os dois globos cerebrais. Além disso o sistema
imune é estimulado e os acessos à memória e ao inconsciente são
abertos pela música.
O mesmo se dá através da música
litúrgica e da dança no que respeita ao ingresso na mística e no
equilíbrio de corpo alma. O ritmo e a harmonia conduzem-nos à
vibração e à ressonância com o todo. A música consegue desfazer os
encrostações materiais conduzindo-nos ao limiar espiritual em que
tudo é relação, amor, como se constata na fórmula trinitária. Na
vibração forma-se a personalidade. A medicina chinesa opera muito
com os campos energéticos e com o seu fluir. A terapia consiste em
restabelecer a harmonia e o fluxo.
Toda a mãe canta instintivamente para a
criança que sofre ou que se encontra em desequilíbrio. Segundo
investigações feitas pela psicóloga Sandra Trehub, o canto provoca
a diminuição das hormonas de stress por bastante mais tempo do que
a fala.
A música abre as janelas do corpo e da
alma: desbloqueia areais cerebrais e ajuda a recordação,
aumentando em 30 % a capacidade de armazenagem do cérebro.
No mundo tudo vibra também as células
cantam conseguindo a ciência distinguir já entre o cantar das
células sãs e o barulho das cancerígenas. Oliver Sacks observou em
todas as experiências que fez com pacientes Parkinson e pacientes
com problemas de fala, que “a música actua como um precursor
exterior”. Ela deixa no nosso cérebro como que pautas indeléveis
que possibilitam o reatar de relações, orgânica ou
psicologicamente, interrompidas.
A música ajuda a introspecção e
auxilia-nos a chegar ao lugar do silêncio e da quietude em nós, ao
lugar da criatividade, do amor divino. Daí surge a onda da
gratidão, do milagre. Aí se ouve a voz que segreda no sossego e se
repete nas ondas do oceano… Ela pode ajudar-nos a chegar ao nosso
meio, ao meio do mundo, a Deus. Então, ouviremos em nós o vibrar
do universo e a ressonância do diálogo trinitário baixinho do tudo
em todos.
António da Cunha
Duarte Justo
Da Alemanha
|