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Sempre que comento sobre o meu orgulho
em ter origens portuguesas, volta e meia recebo em troca uma cara
de desprezo. Por incrível que pareça, já passei por isso até em
Portugal e com portugueses! Mas, quando acontece, respondo com uma
pergunta muito simples: já parou para pensar em quantas pessoas de
destaque mundial esse pequeno país foi capaz de gerar? Se os
navegadores são coisa de um passado distante, o que dizer de Egas
Moniz ou Saramago, por exemplo?
No meu trabalho como jornalista, muito
ligado à história da mobilidade, conheci um momento ímpar,
protagonizado por dois desses portugueses exemplares.
Vou aproveitar a data para relembrar o
dia 30 de março de 1922, quando os aviadores Arthur de Sacadura
Freire Cabral e Carlos Viegas Gago Coutinho partiram de Lisboa
para realizar um feito inédito: a primeira travessia aérea do
Atlântico Sul, voando num hidroavião até o Rio de Janeiro.
Geógrafos da Marinha, Sacadura Cabral e
Gago Coutinho se conheceram numa missão em Moçambique, no ano de
1907. Homens de “mar e ar”, tinham contato próximo com todos os
povos lusófonos. Inclusive, creditavam a essa experiência grande
parte do seu caráter e sucesso na missão pioneira que
empreenderam.
A idéia de cruzar o Atlântico evoluiu
junto com a amizade entre eles. Sacadura era um dos melhores
aviadores portugueses e Coutinho era reconhecido pela competência
como geógrafo e matemático. O plano ganhou força em 1919, quando
aviões da Marinha dos Estados Unidos cruzaram o Atlântico Norte
pela primeira vez. Mas, como a navegação aérea não era confiável,
os aviadores usaram como guia uma série de navios, posicionados a
cada 60 milhas.
Essa limitação tornava quase impossível
um vôo entre Portugal e o Brasil. Mas foi exatamente nesse ponto
que os portugueses se superaram. A partir de instrumentos
marítimos, Gago Coutinho e Sacadura Cabral criaram um “sextante
aéreo” e o corretor de rumos, tornando possível a navegação aérea.
Há exatos 86 anos, o hidroavião
“Lusitânia” decolava ao lado da Torre de Belém. A dupla contava
apenas com o apoio de navios da Marinha, que os aguardavam a cada
parada para reabastecimento. Em seu vôo solitário, chegaram às
Ilhas Canárias, Cabo Verde e conseguiram pousar, com extrema
precisão, ao lado dos Penedos de São Pedro e São Paulo. Nesse
último trecho, voaram mais de 11 horas, percorreram quase 1.000
milhas náuticas e acertaram na mosca!
Mas foi a hora que a sorte virou. O
pouso no mar agitado danificou o avião, que afundou. Os aviadores
foram salvos pelo navio de apoio. Um segundo aparelho foi enviado.
Também quebrou e deixou a dupla a deriva, ao longo de uma noite,
próximo a Fernando de Noronha. Acabaram resgatados por um
cargueiro inglês. Apenas com um terceiro, o “Santa Cruz”,
concluíram a viagem, em 17 de junho.
A perseverança de Sacadura Cabral e Gago
Coutinho foi recompensada. Além de provarem a viabilidade dos vôos
de longa distância com uso de instrumentos, se tornaram as grandes
personalidades das comemorações do primeiro centenário da
Independência do Brasil. Ganharam o reconhecimento e amizade de
Santos-Dumont e foram aclamados como heróis em diversas cidades.
Com o passar dos anos, e diante das
crises enfrentadas por Portugal e Brasil na década de 20, o feito
da dupla foi rapidamente esquecido. Sacadura morreu em 1924,
quando seu avião caiu no Mar do Norte. Com ele, desapareceu o
sonho de uma pioneira volta ao mundo, que seria realizada por
aviadores portugueses e brasileiros. Coutinho, que viveu
plenamente seus 90 anos, teve tempo de ser “resgatado” pela
história. Tornou-se um exemplo nos dois lados do Atlântico.
Mas, até hoje, eu acho que essa história
é muito pouco conhecida. A maioria dos livros sobre a travessia
foi publicada há anos e um único filme foi feito, em 1940.
Como “sonhar não custa nada”, encerro
partilhando uma idéia. Imagine uma produção cinematográfica
luso-brasileira, inspirada nos sucessos “Titanic” e “O Aviador”,
onde a descoberta e resgate do “Lusitânia”, no fundo do Atlântico,
seria o ponto de partida para se relembrar a fantástica viagem de
Sacadura Cabral e Gago Coutinho... Que tal? Se alguém se
habilitar, pode contar comigo!
“Seu Gago Coutinho.
Seu Sacadura Cabral
Que vindos de Portugal
Nas asas de um passarinho
Passaram o morro Corcovado
Todo mundo está espantado
Com o heroísmo português
Se acabou o nativismo
Sou irmão de vocês”
Cantiga popular criada no Rio de
Janeiro em homenagem à chegada dos aviadores
Douglas Cavallari de
Santana
Publicado
na seção Iscas Intelectuais - Lusófonas da página de Internet do
comunicador Luciano Pires - www.lucianopires.com.br.
Para saber mais:
• Wikipédia (http://pt.wikipedia.org): traz várias informações
sobre os portugueses e a primeira travessia aérea do Atlântico
Sul.
• Estante Virtual (www.estandevirtual.com.br): um ótimo lugar para
adquirir, no Brasil, livros sobre os aviadores e a travessia. Em
Portugal, podem ser encontrados em bibliotecas públicas e alguns
alfarrabistas.
• Museu da Marinha de Portugal (http://museu.marinha.pt): é o
guardião do “Santa Cruz”, o hidroavião que chegou ao Rio de
Janeiro.
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