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Por Douglas Cavallari de Santana


Terça-feira | 01 ABR 08

“Por Ares Nunca Dantes Navegados”

“Heróis do mar, nobre Povo,
Nação valente, imortal,
Levantai hoje de novo
O esplendor de Portugal!"

Parte da primeira estrofe de “A Portuguesa”, o Hino Nacional de Portugal

Sempre que comento sobre o meu orgulho em ter origens portuguesas, volta e meia recebo em troca uma cara de desprezo. Por incrível que pareça, já passei por isso até em Portugal e com portugueses! Mas, quando acontece, respondo com uma pergunta muito simples: já parou para pensar em quantas pessoas de destaque mundial esse pequeno país foi capaz de gerar? Se os navegadores são coisa de um passado distante, o que dizer de Egas Moniz ou Saramago, por exemplo?

No meu trabalho como jornalista, muito ligado à história da mobilidade, conheci um momento ímpar, protagonizado por dois desses portugueses exemplares.

Vou aproveitar a data para relembrar o dia 30 de março de 1922, quando os aviadores Arthur de Sacadura Freire Cabral e Carlos Viegas Gago Coutinho partiram de Lisboa para realizar um feito inédito: a primeira travessia aérea do Atlântico Sul, voando num hidroavião até o Rio de Janeiro.

Geógrafos da Marinha, Sacadura Cabral e Gago Coutinho se conheceram numa missão em Moçambique, no ano de 1907. Homens de “mar e ar”, tinham contato próximo com todos os povos lusófonos. Inclusive, creditavam a essa experiência grande parte do seu caráter e sucesso na missão pioneira que empreenderam.

A idéia de cruzar o Atlântico evoluiu junto com a amizade entre eles. Sacadura era um dos melhores aviadores portugueses e Coutinho era reconhecido pela competência como geógrafo e matemático. O plano ganhou força em 1919, quando aviões da Marinha dos Estados Unidos cruzaram o Atlântico Norte pela primeira vez. Mas, como a navegação aérea não era confiável, os aviadores usaram como guia uma série de navios, posicionados a cada 60 milhas.

Essa limitação tornava quase impossível um vôo entre Portugal e o Brasil. Mas foi exatamente nesse ponto que os portugueses se superaram. A partir de instrumentos marítimos, Gago Coutinho e Sacadura Cabral criaram um “sextante aéreo” e o corretor de rumos, tornando possível a navegação aérea.

Há exatos 86 anos, o hidroavião “Lusitânia” decolava ao lado da Torre de Belém. A dupla contava apenas com o apoio de navios da Marinha, que os aguardavam a cada parada para reabastecimento. Em seu vôo solitário, chegaram às Ilhas Canárias, Cabo Verde e conseguiram pousar, com extrema precisão, ao lado dos Penedos de São Pedro e São Paulo. Nesse último trecho, voaram mais de 11 horas, percorreram quase 1.000 milhas náuticas e acertaram na mosca!

Mas foi a hora que a sorte virou. O pouso no mar agitado danificou o avião, que afundou. Os aviadores foram salvos pelo navio de apoio. Um segundo aparelho foi enviado. Também quebrou e deixou a dupla a deriva, ao longo de uma noite, próximo a Fernando de Noronha. Acabaram resgatados por um cargueiro inglês. Apenas com um terceiro, o “Santa Cruz”, concluíram a viagem, em 17 de junho.

A perseverança de Sacadura Cabral e Gago Coutinho foi recompensada. Além de provarem a viabilidade dos vôos de longa distância com uso de instrumentos, se tornaram as grandes personalidades das comemorações do primeiro centenário da Independência do Brasil. Ganharam o reconhecimento e amizade de Santos-Dumont e foram aclamados como heróis em diversas cidades.

Com o passar dos anos, e diante das crises enfrentadas por Portugal e Brasil na década de 20, o feito da dupla foi rapidamente esquecido. Sacadura morreu em 1924, quando seu avião caiu no Mar do Norte. Com ele, desapareceu o sonho de uma pioneira volta ao mundo, que seria realizada por aviadores portugueses e brasileiros. Coutinho, que viveu plenamente seus 90 anos, teve tempo de ser “resgatado” pela história. Tornou-se um exemplo nos dois lados do Atlântico.

Mas, até hoje, eu acho que essa história é muito pouco conhecida. A maioria dos livros sobre a travessia foi publicada há anos e um único filme foi feito, em 1940.

Como “sonhar não custa nada”, encerro partilhando uma idéia. Imagine uma produção cinematográfica luso-brasileira, inspirada nos sucessos “Titanic” e “O Aviador”, onde a descoberta e resgate do “Lusitânia”, no fundo do Atlântico, seria o ponto de partida para se relembrar a fantástica viagem de Sacadura Cabral e Gago Coutinho... Que tal? Se alguém se habilitar, pode contar comigo!

“Seu Gago Coutinho.
Seu Sacadura Cabral
Que vindos de Portugal
Nas asas de um passarinho
Passaram o morro Corcovado
Todo mundo está espantado
Com o heroísmo português
Se acabou o nativismo
Sou irmão de vocês”

Cantiga popular criada no Rio de Janeiro em homenagem à chegada dos aviadores

Douglas Cavallari de Santana

Publicado na seção Iscas Intelectuais - Lusófonas da página de Internet do comunicador Luciano Pires - www.lucianopires.com.br.

 

Para saber mais:
• Wikipédia (http://pt.wikipedia.org): traz várias informações sobre os portugueses e a primeira travessia aérea do Atlântico Sul.
• Estante Virtual (www.estandevirtual.com.br): um ótimo lugar para adquirir, no Brasil, livros sobre os aviadores e a travessia. Em Portugal, podem ser encontrados em bibliotecas públicas e alguns alfarrabistas.
• Museu da Marinha de Portugal (http://museu.marinha.pt): é o guardião do “Santa Cruz”, o hidroavião que chegou ao Rio de Janeiro.


 

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