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Por Antonio de Almeida e Silva


Terça-feira | 25 MAR 08

“O adeus de um herói”

A Comunidade Luso-Brasileira de São Paulo perdeu neste dia 16 de março uma das suas figuras mais expressivas, e que melhor representava a saga e o sucesso de uma emigração vencedora, que sempre honrou e orgulhou Portugal bem como o país de acolhimento. Valentim dos Santos Diniz partiu depois de 94 anos de uma vida de feitos extraordinários, de características invulgares, própria dos homens com perfil de eternidade.

Ficamos desfalcados. Muito desfalcados por não podermos mais tê-lo em nossas trincheiras, em nossa frente de preservação e defesa dos valores inerentes a uma Comunidade pela qual ele sempre lutou e ajudou, em silêncio, com discrição, como era seu feitio.

Na sua despedida final, debaixo da chuva que insistia em cair, como se fossem lágrimas incontidas de todos nós, muitas eram as homenagens, as referências emocionadas por tudo que ele realizou, por tudo o que significou e significa na definição mais correta do Homem português.

Todas as homenagens serão poucas, mas serão sempre necessárias, para que fique a marca visível da importância que o querido Comendador tem na história da nossa emigração e na construção do verdadeiro conceito e imagem do povo português espalhado pelo mundo afora. Valentim Diniz preservou até o último dia o notável espírito de solidariedade, fraternidade e vocação de servir tanto a pátria de onde emigrou, como ao país que o acolheu.

Sua trajetória representa ao longo dos anos uma verdadeira e admirável lição de vida, sempre atual e exemplar para as gerações de todos os tempos. Desde quando aqui chegou, naquele distante ano de 1.929, vindo de Pinhel, no Concelho da Guarda, sua terra natal, até os dias mais recentes, o “Senhor Santos” como era conhecido, foi sempre o grande empreendedor que fez surgir a partir daquela singela doceira na Rua Brigadeiro Luiz Antonio, em 1.948, um dos maiores grupos empresariais do Brasil: o Pão de Açúcar, símbolo de orgulho para todos nós portugueses e luso-brasileiros, e exemplo sempre presente da capacidade de fazer e disposição de trabalho que sempre caracterizaram nossos compatriotas emigrados.

Valentim Diniz foi sempre esse lusitano de notável inteligência e acuidade, que teve uma brilhante visão no mundo dos negócios, um dos maiores empresários portugueses de todos os tempos, um criador de valores que se inserem no processo tangível do engrandecimento nacional através do comércio varejista e outras atividades correlatas. Tudo isso sem descuidar-se, nunca, da sua participação ativa e pujante na vida associativa da Comunidade Luso-Brasileira de São Paulo, na qual, por onze anos, presidiu com brilho invulgar o Conselho da Comunidade, ensejando um período de crescimento e união da nossa ação organizada.

O nosso querido Comendador Diniz será sempre a prova exata de que há homens que vieram ao mundo para servir, com dignidade e inteireza, aos ideais de fraternidade, de civismo, de bondade cristã, a tudo aquilo, enfim, que destaca na paisagem humana os sentimentos de confiança, de compreensão, de amor e de sentimentos altruísticos. Certo já estava Rodrigo Leal Rodrigues, quando afirmou a respeito de Valentim: “Há homens que nascem para deixar as suas impressões digitais vincadas no mundo à sua volta. São homens predestinados a fazer coisas grandes por onde passam”.

Valentim, com essa estatura de permanente grandeza, nunca se deixou vergar pela idade e jamais permitiu que esta lhe enrugasse o espírito. Aprendeu e ensinou a considerar cada estalagem ao longo da estrada não como um ponto de chegada, mas como um ponto sempre da partida para um novo e melhor esforço. A grandeza sempre fez parte do seu perfil!

E, a grandeza de um homem, as suas virtudes, têm um sentido de plenitude. Não podem sofrer hiatos, nem intervalos; esses valores assentam-se na permanência e na constância. As alternativas, as mutações da imagem e da conduta, são incompatíveis com o esplendor que ilumina o espírito dos homens superiores.

Mas, o nosso Comendador teve na vida inteira essa postura exemplar, serena, equilibrada e justa. Sem intervalos, sem hiatos.

Simboliza, como poucos, no mundo, o Homem português de todos os tempos!

Antonio de Almeida e Silva

Presidente do Conselho da Comunidade Luso-Brasileira do Estado de São Paulo


 

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