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Não será possível avaliar
desde já os resultados da recente visita do Presidente Aníbal
Cavaco Silva ao Brasil, mas podemos afirmar que foi mais do que
positiva, porque saiu do oficialismo dos acordos e promessas,
quantas vezes sem continuidade.
E embora sendo afectiva, foi além do sentimentalismo tradicional,
às vezes sem conseqüências práticas, pois se tem limitado quase
sempre aos discursos mais ou menos formais.
O Presidente Luís Inácio
Lula da Silva falou pouco, mas foi hospitaleiramente educado no
diálogo público com o presidente Cavaco Silva – e este terá sido o
primeiro sinal positivo do estadista português, cuja participação
evidente foi a evocação da chegada do Príncipe-Regente (depois,
Rei D, João VI) ao Brasil, há precisamente 200 anos. Guardar esta
data como integrante da História dos dois principais países que
falam português já seria um acontecimento relevante, mas a
repercussão foi ainda mais além.
Neste capítulo, Cavaco
Silva foi o protagonista a celebrar, pois soube conciliar o que há
de decisivo na viagem da Família Real, sob a presidência de D.
João, e a realidade dos laços indissolúveis do Brasil com
Portugal. O destaque começa com o acto do soberano português de
reavivar a união portuguesa e brasileira - e o facto que os
historiadores correctos admitem como a derrota do ditador Napoleão
Bonaparte ao tentar destruir a comunidade lusíada, graças à
cumplicidade do hesitante rei espanhol que se entregou aos
devaneios do "imperador" corso, na expectativa de controlar
definitivamente Portugal.
Felizmente, os dois
enganaram-se, porque a decisão do Príncipe Regente de continuar
Portugal no Brasil foi o maior desaire do ambicioso "rei" da
Europa, cujas vitórias foram mais da covardia de alguns políticos
sem vergonha do que de triunfos reais, conforme ilustram as
falaciosas inscrições do Arco do Triunfo em Paris. É claro que se
trata de uma arrogância do século XIX que nada tem a ver com a
Resistência da França de Charles de Gaulle, no século XX, contra o
autoritarismo de Hitler e de Estaline.
Foi o alerta do Príncipe–Regente D. João que decretou a
não-invencibilidade napoleónica, conforme proclamam os
historiadores bem documentados, entre os quais precisamos
distinguir José Acúrsio das Neves, quase sempre ignorado, embora
muitas vezes copiado... O Presidente Cavaco Silva apadrinhou com a
sua presença a obra de D. João VI, desde que trouxe a Corte
Portuguesa para o Brasil até instituir as bases de uma Nação
realmente continental e sem paralelo na História da Civilização,
no século XIX.
Para lá da iniciativa
histórica da viagem e Cavaco Silva ao Brasil, somente resta
considerar o alcance do discurso que proferiu no Rio de Janeiro ao
reconhecer o papel decisivo dos portugueses na construção do
Brasil, isto é, dos emigrantes lusos, ontem e ainda hoje – embora
todos nos consideremos partícipes - como diria Gilberto Freyre –
da maior "aventura" de Portugal no Mundo, desde os descobridores
do século XV até à Diáspora Lusíada do século XXI.
João Alves das Neves
Escritor português residente no
Brasil
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