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Por João Alves das Neves


Sexta-feira | 28 MAR 08

“A visita do Presidente Cavaco Silva ao Brasil foi muitíssimo oportuna”

Não será possível avaliar desde já os resultados da recente visita do Presidente Aníbal Cavaco Silva ao Brasil, mas podemos afirmar que foi mais do que positiva, porque saiu do oficialismo dos acordos e promessas, quantas vezes sem continuidade.
E embora sendo afectiva, foi além do sentimentalismo tradicional, às vezes sem conseqüências práticas, pois se tem limitado quase sempre aos discursos mais ou menos formais.

O Presidente Luís Inácio Lula da Silva falou pouco, mas foi hospitaleiramente educado no diálogo público com o presidente Cavaco Silva – e este terá sido o primeiro sinal positivo do estadista português, cuja participação evidente foi a evocação da chegada do Príncipe-Regente (depois, Rei D, João VI) ao Brasil, há precisamente 200 anos. Guardar esta data como integrante da História dos dois principais países que falam português já seria um acontecimento relevante, mas a repercussão foi ainda mais além.

Neste capítulo, Cavaco Silva foi o protagonista a celebrar, pois soube conciliar o que há de decisivo na viagem da Família Real, sob a presidência de D. João, e a realidade dos laços indissolúveis do Brasil com Portugal. O destaque começa com o acto do soberano português de reavivar a união portuguesa e brasileira - e o facto que os historiadores correctos admitem como a derrota do ditador Napoleão Bonaparte ao tentar destruir a comunidade lusíada, graças à cumplicidade do hesitante rei espanhol que se entregou aos devaneios do "imperador" corso, na expectativa de controlar definitivamente Portugal.

Felizmente, os dois enganaram-se, porque a decisão do Príncipe Regente de continuar Portugal no Brasil foi o maior desaire do ambicioso "rei" da Europa, cujas vitórias foram mais da covardia de alguns políticos sem vergonha do que de triunfos reais, conforme ilustram as falaciosas inscrições do Arco do Triunfo em Paris. É claro que se trata de uma arrogância do século XIX que nada tem a ver com a Resistência da França de Charles de Gaulle, no século XX, contra o autoritarismo de Hitler e de Estaline.
Foi o alerta do Príncipe–Regente D. João que decretou a não-invencibilidade napoleónica, conforme proclamam os historiadores bem documentados, entre os quais precisamos distinguir José Acúrsio das Neves, quase sempre ignorado, embora muitas vezes copiado... O Presidente Cavaco Silva apadrinhou com a sua presença a obra de D. João VI, desde que trouxe a Corte Portuguesa para o Brasil até instituir as bases de uma Nação realmente continental e sem paralelo na História da Civilização, no século XIX.

Para lá da iniciativa histórica da viagem e Cavaco Silva ao Brasil, somente resta considerar o alcance do discurso que proferiu no Rio de Janeiro ao reconhecer o papel decisivo dos portugueses na construção do Brasil, isto é, dos emigrantes lusos, ontem e ainda hoje – embora todos nos consideremos partícipes - como diria Gilberto Freyre – da maior "aventura" de Portugal no Mundo, desde os descobridores do século XV até à Diáspora Lusíada do século XXI.

João Alves das Neves

Escritor português residente no Brasil


 

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