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Com a morte de Valentim
dos Santos Diniz como que se atenua um pouco a imagem daquilo que
Portugal representou para a formação do Brasil, de tudo quanto a
matriz lusa contribuiu para marcar a identidade deste país.
Nestes tempos em que dom
João e a sua corte por aqui são revisitados com curiosidade, o
desaparecimento de um dos últimos grandes patriarcas portugueses
no Brasil é talvez um momento adequado para reflectirmos um pouco
sobre o que Portugal aqui ainda representa, para além da retórica
das caravelas que pontua os discursos nas solenidades.
Passou já algum tempo
desde o período áureo em que a comunidade portuguesa tinha uma
forte expressão no Brasil – económica, social e até política.
Em particular no Rio de
Janeiro e em S. Paulo, personalidades e instituições cuidaram
sempre em manter bem alto o orgulho de terem feito parte de
gerações que aqui construíram o seu futuro e que, simultaneamente,
aqui construíram o seu próprio país.
Com a mudança dos fluxos
migratórios portugueses para o espaço europeu, no final dos anos
60, o Brasil deixou de ser o destino prioritário de quantos, em
Portugal, recusavam a modorra de uma sociedade fechada e partiam à
busca de melhor sorte.
A teimosa ilusão
colonial do Estado Novo fez mesmo com que fosse estimulada a
migração para a África, que viria a provar-se muitas vezes sem
futuro. Foi um erro que alguns pagariam em meados da década
seguinte, tendo de sair à pressa de sociedades em convulsão
política e social. O Brasil voltou então a ser, para muitos, o
porto de abrigo seguro, como o foi para quantos então se sentiram
ameaçados pela Revolução dos Cravos.
Essa era já, porém, uma
imigração algo diferente da que, durante décadas, ajudara a
construir a sociedade brasileira, lado a lado com outras
nacionalidades que geraram o “melting pot” da brasilidade
contemporânea.
Durante muitas décadas,
das aldeias do Portugal profundo, partiram muitos jovens simples à
procura do direito à esperança. Os “Brasis”, como a memória
portuguesa celebra as Pasárgas de muitas dessas gerações, eram a
terra prometida onde tudo era possível, para quem quisesse, com
trabalho árduo, deitar a mão ao destino.
Para além da caricatura
que o marcou, que sempre por aqui foi uma espécie de humor amargo
que o descendente do colonizador originário teve de suportar com
esforçada bonomia, creio patente que o imigrante português criou
no Brasil uma imagem geral de labor e seriedade, de uma forma de
estar na vida que caracteriza aquilo que se viria a decantar como
o conceito de pessoa de bem.
Valentim dos Santos
Diniz é um bom expoente dessa métrica pela qual se medem os homens
de carácter. Empenhado, trabalhador e com uma seriedade à prova de
bala, construiu um império de negócio, empregou milhares, ganhou e
deu a ganhar dinheiro, foi um notável exemplo de sucesso com
seriedade. Foi brasileiro na obra que erigiu, sendo sempre
português na alma que estava por detrás desse empreendimento, na
saudade da sua Beira natal e na sua crença num certo Portugal.
Encontrei-o algumas
vezes, desde que cheguei ao Brasil. Pude expressar-lhe a minha
admiração por tudo quanto ele representava para a memória da
presença portuguesa neste país. Recordo-me de lhe ter dito que,
como embaixador de Portugal, só esperava que os nossos
compatriotas que agora iam aportando ao Brasil, com outras
motivações e expectativas de vida, pudessem continuar a ser dignos
da imagem de seriedade e respeito que os anteriores imigrantes
portugueses haviam sabido construir e fixar por aqui.
Valentim dos Santos
Diniz foi a prova mais concreta de que a melhor maneira de ser um
bom português no Brasil é assumir este país em pleno, é ser e
afirmar-se como um leal cidadão brasileiro.
Francisco Seixas da
Costa
Embaixador de Portugal no Brasil,
especialmente para o Jornal Mundo Lusíada
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