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Por Laurentino Gomes


Quinta-feira | 20 MAR 08

 

Artigo Especial 200 Anos para o Mundo Lusíada

“O legado de D. João VI”

No filme Carlota Joaquina – Princesa do Brasil, de Carla Camurati, o rei D. João VI interpretado pelo ator Marco Nanini é um monarca gordo, abobalhado, preguiçoso e glutão, que passa seus dias a comer franguinhos assados. Alguns historiadores contribuíram para reforçar a caricatura, como o mineiro Pandiá Calógeras, que o definiu como um rei “querido, mas também carinhosamente e tolerantemente desprezado por sua fraqueza e sua covardia”.

Afinal, quem foi esse homem que governou Portugal e o Brasil em meio às pressões colossais de um dos períodos mais conturbados da História desses dois países?
D. João era, sim, um homem solitário, tímido, supersticioso e indeciso. Espremido entre grupos rivais, relutava até o último momento a fazer escolhas. Detestava atividades esportivas, festas e celebrações em geral. Sofria crises periódicas de depressão. No primeiro grande surto, relatado em 1805, afastou-se totalmente da vida pública e do convívio da Corte. Achando que o marido ficara demente, como a mãe D. Maria I, a princesa Carlota Joaquina tentou afastá-lo do poder e assumir ela própria a regência de Portugal. Alertado pelo seu médico particular, Domingos Vandelli, D. João retornou a Lisboa a tempo de abortar o golpe. A partir daí, marido e mulher viveram separados.

No Brasil, até mesmo as trovoadas tropicais do Rio de Janeiro o angustiavam. O viajante prussiano Theodor von Leithold, que chegou ao Rio de Janeiro em 1819, confirma em seus relatos que D. João tinha medo de trovões. “Se o rei não se sente bem, se adormece ou se sobrevém uma tempestade, o que produz sobre ele forte impressão, encerra-se em seus aposentos e não recebe ninguém”, escreveu ao explicar o cancelamento de uma das cerimônias do beijão-mão no Palácio de São Cristóvão.
Por trás dessa aparente fragilidade, no entanto, havia um grande virtude até hoje pouca explorada nos livros de História. Ao escolher seus auxiliares, D. João era sensível aos conselhos e pressão do grupo que o cercava. Mais importante do que isso, sabia delegar aos escolhidos as decisões cruciais do governo que era incapaz de enfrentar sozinho. Observado duzentos anos depois, esse traço na personalidade do rei, que o permitiu sobreviver com relativo sucesso às temíveis pressões exercidas sobre ele e a corte portuguesa, pode também servir de lição para muitos executivos e homens públicos de hoje.

Com seu caráter indeciso e medroso, D. João não pode ser confundido com um rei covarde. Em situações de desvantagem, perante um inimigo muito mais poderoso, a fuga pode ser uma decisão sábia. E foi o que D. João fez em novembro de 1807 diante da invasão de Portugal pelas tropas do imperador Napoleão Bonaparte. Apesar de ter fugido para o Brasil, governou com relativo sucesso em meio a um dos períodos mais turbulentos na história das monarquias européias. Preservou a coroa e a independência de Portugal, transformou o Brasil, de uma colega atrasada e proibida num país independente, e morreu de velho, em 1826.

Decisões importantes como a mudança para o Brasil se devem menos à coragem pessoal do príncipe regente do que à sabedoria dos seus auxiliares. Três ministros exerceram um papel fundamental na história de D. João VI. Foram eles D. Rodrigo de Souza Coutinho, o Conde de Linhares; Antonio de Araújo e Azevedo, o Conde da Barca; e Thomaz Antônio Vilanova Portugal. Foram esses três homens que, em diferentes momentos de sua vida, o ajudaram a superar o medo, a timidez, a insegurança e as crises de depressão e orientaram-no na tomada de decisões que haveriam de marcar profundamente seu reinado. Foram eles que contribuíram para salvar a biografia de D. João VI, aparentemente condenada ao fracasso caso dependesse apenas dos traços de sua própria personalidade.

Graças a capacidade de escolher seus auxiliares e delegar a eles as tarefas do governo, D. João passou para a história como soberano relativamente bem sucedido, especialmente quando comparado aos seus pares da época, todos destronados, exilados, presos ou mesmo executados pela onda revolucionária francesa. O historiador Oliveira Lima diz que, embora não tenha sido um grande soberano, desses que são reconhecidos pelas proezas militares e pelos golpes audaciosos de administração, D. João soube combinar bondade, inteligência e senso prático para se tornar um rei eficiente. “Foi brando e sagaz, insinuante e precavido, afável e pertinaz”. Na sua opinião, graças a esses atributos “D. João VI foi sem dúvida alguma no Brasil, e ainda é, um rei popular”.

Laurentino Gomes

Jornalista e escritor, autor do livro “1808” (São Paulo: Planeta do Brasil, 2007), especial para o Jornal Mundo Lusíada


 

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