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No filme Carlota
Joaquina – Princesa do Brasil, de Carla Camurati, o rei D. João VI
interpretado pelo ator Marco Nanini é um monarca gordo,
abobalhado, preguiçoso e glutão, que passa seus dias a comer
franguinhos assados. Alguns historiadores contribuíram para
reforçar a caricatura, como o mineiro Pandiá Calógeras, que o
definiu como um rei “querido, mas também carinhosamente e
tolerantemente desprezado por sua fraqueza e sua covardia”.
Afinal, quem foi esse
homem que governou Portugal e o Brasil em meio às pressões
colossais de um dos períodos mais conturbados da História desses
dois países?
D. João era, sim, um homem solitário, tímido, supersticioso e
indeciso. Espremido entre grupos rivais, relutava até o último
momento a fazer escolhas. Detestava atividades esportivas, festas
e celebrações em geral. Sofria crises periódicas de depressão. No
primeiro grande surto, relatado em 1805, afastou-se totalmente da
vida pública e do convívio da Corte. Achando que o marido ficara
demente, como a mãe D. Maria I, a princesa Carlota Joaquina tentou
afastá-lo do poder e assumir ela própria a regência de Portugal.
Alertado pelo seu médico particular, Domingos Vandelli, D. João
retornou a Lisboa a tempo de abortar o golpe. A partir daí, marido
e mulher viveram separados.
No Brasil, até mesmo as
trovoadas tropicais do Rio de Janeiro o angustiavam. O viajante
prussiano Theodor von Leithold, que chegou ao Rio de Janeiro em
1819, confirma em seus relatos que D. João tinha medo de trovões.
“Se o rei não se sente bem, se adormece ou se sobrevém uma
tempestade, o que produz sobre ele forte impressão, encerra-se em
seus aposentos e não recebe ninguém”, escreveu ao explicar o
cancelamento de uma das cerimônias do beijão-mão no Palácio de São
Cristóvão.
Por trás dessa aparente fragilidade, no entanto, havia um grande
virtude até hoje pouca explorada nos livros de História. Ao
escolher seus auxiliares, D. João era sensível aos conselhos e
pressão do grupo que o cercava. Mais importante do que isso, sabia
delegar aos escolhidos as decisões cruciais do governo que era
incapaz de enfrentar sozinho. Observado duzentos anos depois, esse
traço na personalidade do rei, que o permitiu sobreviver com
relativo sucesso às temíveis pressões exercidas sobre ele e a
corte portuguesa, pode também servir de lição para muitos
executivos e homens públicos de hoje.
Com seu caráter indeciso
e medroso, D. João não pode ser confundido com um rei covarde. Em
situações de desvantagem, perante um inimigo muito mais poderoso,
a fuga pode ser uma decisão sábia. E foi o que D. João fez em
novembro de 1807 diante da invasão de Portugal pelas tropas do
imperador Napoleão Bonaparte. Apesar de ter fugido para o Brasil,
governou com relativo sucesso em meio a um dos períodos mais
turbulentos na história das monarquias européias. Preservou a
coroa e a independência de Portugal, transformou o Brasil, de uma
colega atrasada e proibida num país independente, e morreu de
velho, em 1826.
Decisões importantes
como a mudança para o Brasil se devem menos à coragem pessoal do
príncipe regente do que à sabedoria dos seus auxiliares. Três
ministros exerceram um papel fundamental na história de D. João
VI. Foram eles D. Rodrigo de Souza Coutinho, o Conde de Linhares;
Antonio de Araújo e Azevedo, o Conde da Barca; e Thomaz Antônio
Vilanova Portugal. Foram esses três homens que, em diferentes
momentos de sua vida, o ajudaram a superar o medo, a timidez, a
insegurança e as crises de depressão e orientaram-no na tomada de
decisões que haveriam de marcar profundamente seu reinado. Foram
eles que contribuíram para salvar a biografia de D. João VI,
aparentemente condenada ao fracasso caso dependesse apenas dos
traços de sua própria personalidade.
Graças a capacidade de
escolher seus auxiliares e delegar a eles as tarefas do governo,
D. João passou para a história como soberano relativamente bem
sucedido, especialmente quando comparado aos seus pares da época,
todos destronados, exilados, presos ou mesmo executados pela onda
revolucionária francesa. O historiador Oliveira Lima diz que,
embora não tenha sido um grande soberano, desses que são
reconhecidos pelas proezas militares e pelos golpes audaciosos de
administração, D. João soube combinar bondade, inteligência e
senso prático para se tornar um rei eficiente. “Foi brando e
sagaz, insinuante e precavido, afável e pertinaz”. Na sua opinião,
graças a esses atributos “D. João VI foi sem dúvida alguma no
Brasil, e ainda é, um rei popular”.
Laurentino Gomes
Jornalista e escritor, autor do livro
“1808” (São Paulo: Planeta do Brasil, 2007), especial para o
Jornal Mundo Lusíada
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