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Por Douglas Cavallari de Santana


Segunda-feira | 10 MAR 08

“Unidos pelo Patrimônio”

“Quem vem e atravessa o rio
Junto a Serra do Pilar
Vê um velho casario
Que se estende até ao mar"

Rui Veloso, cantor português, em "Porto Sentido"

Além da mesma língua e afinidades culturais, penso que os países lusófonos têm outra riqueza em comum de igual importância: o patrimônio histórico. Ao longo dos vários séculos onde a nossa história esteve cruzada, seja nos tempos coloniais ou mesmo na saga dos imigrantes, foi construído um acervo que diz muito sobre o nosso passado e como chegamos até aqui.

Apenas para me limitar aos imóveis, quem já visitou (ou viu pela televisão ou no cinema) uma cidade histórica do Brasil, uma aldeia de Portugal ou uma roça de São Tomé e Príncipe, por exemplo, sabe como é fantástica essa sensação de "sentir-se em casa" mesmo num lugar tão distante.

Mas, sendo um "apaixonado" por prédios históricos, também vejo com tristeza que temos outro traço em comum: a falta de cuidado com esse patrimônio. Um fato curioso é que até as explicações para o descaso são parecidas entre os lusófonos, com a falta de recursos e de leis adequadas liderando o "ranking". Difícil é entender porque se gasta tanto dinheiro em milhares de outras coisas de menor importância ou o que impede que as leis sejam mudadas...

Reconheço que muita coisa mudou, e para melhor, nas últimas décadas. Fui criado na "progressista" cidade de São Paulo dos anos 70 e 80 e lembro bem a destruição causada pelas obras do metrô, dos grandes edifícios e largas avenidas. Duvido que, com a consciência atual do povo, deixariam fazer um estrago semelhante nos dias de hoje. Penso que a criação de leis como a Rouanet também ajudou, ao conceder incentivos fiscais às empresas que investem em projetos de restauro.

Por falar em conscientização, vi recentemente um exemplo admirável, dado pelo presidente de Portugal. Cavaco Silva criou o "Roteiro para o Património". Numa série de visitas pelo país, ele confere as melhores práticas, os problemas e ajuda na busca de soluções. Posso até estar sendo injusto, mas não lembro de ter visto nada parecido em outras nações lusófonas. Fica o exemplo.

Da mesma forma que a postura do presidente português merece ser seguida, penso que alguns programas brasileiros poderiam trazer ótimos resultados se fossem implantados em outras nações lusófonas. Se a falta de dinheiro é um problema comum a todos, imagino o potencial de soluções como o "Projeto Oficina Escola de Artes e Ofícios", uma ação que transforma jovens de baixa renda ou em situação de risco em restauradores e já recuperou centenas de construções em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Ceará.

Outra iniciativa que considero exemplar é a gestão de museus por universidades públicas. Como "bom paulistano", desde pequeno visito o Museu do Ipiranga, administrado pela Universidade de São Paulo. Acho louvável o trabalho feito, da conservação do prédio à montagem das exposições. Por essa razão, eu nunca compreendi, quando morei em Portugal, como monumentos de importância nacional, como a Igreja de São Francisco ou o Mosteiro da Batalha, apenas para citar dois casos, "caiam aos pedaços" sendo quase vizinhos das universidades de Aveiro e Coimbra.

Em resumo, penso que, a exemplo de outras possibilidades de intercâmbio que apresentei anteriormente, a preservação do patrimônio histórico terá muito a ganhar se nós, lusófonos, nos unirmos. Inclusive, importantes passos já foram dados. Brasil e Portugal têm um acordo de cooperação assinado, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa avança com algo parecido, a Universidade de Coimbra promoveu um encontro internacional em 2006 e a Fundação Calouste Gulbenkian é tradicional patrocinadora de iniciativas conjuntas na área.

Da minha parte, vou seguir "fazendo propaganda" mundo afora sobre as vantagens dessa cooperação e deixo uma sugestão: se você tem alguma ligação com museus ou patrimônio histórico de origem portuguesa, tente descobrir colegas lusófonos envolvidos em atividades semelhantes e inicie uma troca de experiências. Tenho certeza de que todos terão muito a ganhar.

E os "apaixonados" por história e monumentos, como eu, ficarão eternamente agradecidos!

Douglas Cavallari de Santana

Artigo escrito por Douglas Cavallari de Santana. Publicado na seção Iscas Intelectuais - Lusófonas da página de Internet do comunicador Luciano Pires - www.lucianopires.com.br.

 

Para saber mais:
• CPLP (www.cplp.org): página oficial da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.
Ministério da Cultura do Brasil (www.cultura.gov.br): para conhecer em detalhes a Lei Rouanet e o IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
• Santana de Parnaíba (www.santanadeparnaiba.sp.gov.br): a cidade histórica paulista foi a pioneira na implantação do "Projeto Oficina Escola de Artes e Ofícios".
• Museu Paulista (www.mp.usp.br): também conhecido como Museu do Ipiranga ou Museu da Independência, é administrados pela USP desde 1963.
• Presidência da República de Portugal (www.presidencia.pt): reúne todas as informações sobre os "Roteiros para o Património".
• Instituto Português do Património Arquitectónico (www.ippar.pt): conheça como são as políticas de preservação em Portugal.
• Fundação Calouste Gulbenkian (www.gulbenkian.pt): veja os projetos realizados pela entidade portuguesa nos países lusófonos.


 

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