|
Além da mesma língua e afinidades
culturais, penso que os países lusófonos têm outra riqueza em
comum de igual importância: o patrimônio histórico. Ao longo dos
vários séculos onde a nossa história esteve cruzada, seja nos
tempos coloniais ou mesmo na saga dos imigrantes, foi construído
um acervo que diz muito sobre o nosso passado e como chegamos até
aqui.
Apenas para me limitar aos imóveis, quem
já visitou (ou viu pela televisão ou no cinema) uma cidade
histórica do Brasil, uma aldeia de Portugal ou uma roça de São
Tomé e Príncipe, por exemplo, sabe como é fantástica essa sensação
de "sentir-se em casa" mesmo num lugar tão distante.
Mas, sendo um "apaixonado" por prédios
históricos, também vejo com tristeza que temos outro traço em
comum: a falta de cuidado com esse patrimônio. Um fato curioso é
que até as explicações para o descaso são parecidas entre os
lusófonos, com a falta de recursos e de leis adequadas liderando o
"ranking". Difícil é entender porque se gasta tanto dinheiro em
milhares de outras coisas de menor importância ou o que impede que
as leis sejam mudadas...
Reconheço que muita coisa mudou, e para
melhor, nas últimas décadas. Fui criado na "progressista" cidade
de São Paulo dos anos 70 e 80 e lembro bem a destruição causada
pelas obras do metrô, dos grandes edifícios e largas avenidas.
Duvido que, com a consciência atual do povo, deixariam fazer um
estrago semelhante nos dias de hoje. Penso que a criação de leis
como a Rouanet também ajudou, ao conceder incentivos fiscais às
empresas que investem em projetos de restauro.
Por falar em conscientização, vi
recentemente um exemplo admirável, dado pelo presidente de
Portugal. Cavaco Silva criou o "Roteiro para o Património". Numa
série de visitas pelo país, ele confere as melhores práticas, os
problemas e ajuda na busca de soluções. Posso até estar sendo
injusto, mas não lembro de ter visto nada parecido em outras
nações lusófonas. Fica o exemplo.
Da mesma forma que a postura do
presidente português merece ser seguida, penso que alguns
programas brasileiros poderiam trazer ótimos resultados se fossem
implantados em outras nações lusófonas. Se a falta de dinheiro é
um problema comum a todos, imagino o potencial de soluções como o
"Projeto Oficina Escola de Artes e Ofícios", uma ação que
transforma jovens de baixa renda ou em situação de risco em
restauradores e já recuperou centenas de construções em São Paulo,
Minas Gerais, Rio de Janeiro e Ceará.
Outra iniciativa que considero exemplar
é a gestão de museus por universidades públicas. Como "bom
paulistano", desde pequeno visito o Museu do Ipiranga,
administrado pela Universidade de São Paulo. Acho louvável o
trabalho feito, da conservação do prédio à montagem das
exposições. Por essa razão, eu nunca compreendi, quando morei em
Portugal, como monumentos de importância nacional, como a Igreja
de São Francisco ou o Mosteiro da Batalha, apenas para citar dois
casos, "caiam aos pedaços" sendo quase vizinhos das universidades
de Aveiro e Coimbra.
Em resumo, penso que, a exemplo de
outras possibilidades de intercâmbio que apresentei anteriormente,
a preservação do patrimônio histórico terá muito a ganhar se nós,
lusófonos, nos unirmos. Inclusive, importantes passos já foram
dados. Brasil e Portugal têm um acordo de cooperação assinado, a
Comunidade dos Países de Língua Portuguesa avança com algo
parecido, a Universidade de Coimbra promoveu um encontro
internacional em 2006 e a Fundação Calouste Gulbenkian é
tradicional patrocinadora de iniciativas conjuntas na área.
Da minha parte, vou seguir "fazendo
propaganda" mundo afora sobre as vantagens dessa cooperação e
deixo uma sugestão: se você tem alguma ligação com museus ou
patrimônio histórico de origem portuguesa, tente descobrir colegas
lusófonos envolvidos em atividades semelhantes e inicie uma troca
de experiências. Tenho certeza de que todos terão muito a ganhar.
E os "apaixonados" por história e
monumentos, como eu, ficarão eternamente agradecidos!
Douglas Cavallari de
Santana
Artigo escrito por Douglas Cavallari
de Santana. Publicado na seção Iscas Intelectuais - Lusófonas da
página de Internet do comunicador Luciano Pires - www.lucianopires.com.br.
Para saber mais:
• CPLP (www.cplp.org): página oficial da Comunidade dos Países de
Língua Portuguesa.
Ministério da Cultura do Brasil (www.cultura.gov.br): para
conhecer em detalhes a Lei Rouanet e o IPHAN - Instituto do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
• Santana de Parnaíba (www.santanadeparnaiba.sp.gov.br): a cidade
histórica paulista foi a pioneira na implantação do "Projeto
Oficina Escola de Artes e Ofícios".
• Museu Paulista (www.mp.usp.br): também conhecido como Museu do
Ipiranga ou Museu da Independência, é administrados pela USP desde
1963.
• Presidência da República de Portugal (www.presidencia.pt): reúne
todas as informações sobre os "Roteiros para o Património".
• Instituto Português do Património Arquitectónico (www.ippar.pt):
conheça como são as políticas de preservação em Portugal.
• Fundação Calouste Gulbenkian (www.gulbenkian.pt): veja os
projetos realizados pela entidade portuguesa nos países lusófonos.
|