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A deslocação do chefe de
Estado português a este país, a convite do seu homólogo
brasileiro, por ocasião das comemorações sobre a estada da Família
Real portuguesa no século XIX, tem um significado que pode passar
menos percebido: esse acto consagra a naturalidade com que ambos
os países olham hoje para a sua História em comum.
Ao escolher o Brasil
como ponto de refúgio para a corte portuguesa, após o avanço da
barbárie napoleónica por toda a Europa, dom João acabava por
realizar aquilo que havia sido o sonho de alguns visionários do
império.
Contudo, dom João terá
vindo para o Brasil por razões bem mais prática e comezinhas:
escapar à prisão e evitar, a si e aos seus próximos, a humilhação
que a França haviam imposto a algumas outras coroas europeias. A
pressa com que o empreendimento se organizou não combina bem com a
naturalidade da escolha de um destino há muito previsto.
Como se sabe – e essa
discussão só tem sentido para os polemistas – os portugueses
dividiram-se a partir de então sobre a bondade da atitude do
príncipe regente.
Uma maioria, a julgar
pelo juízo da História, pareceu condenar a saída, tida como um
acto de cobardia que afastava o chefe da monarquia da luta que os
seus súbditos travavam contra as tropas napoleónicas.
Um outro grupo, que nos
últimos anos parece estar a ter mais adeptos, privilegia a leitura
de um recuo táctico, com vista a salvaguardar e preservar a
soberania portuguesa.
Não interessa muito
entrar nesta competição valorativa de juízos, mas essencialmente
ver os factos, tal como eles são e com os efeitos que produziram.
A deslocação da corte
para o Brasil preservou-lhe a legitimidade sobre todo o império
português – a começar pelo espaço europeu. Verdade seja que
subordinou, ainda mais, a corte portuguesa aos interesses
britânicos, exacerbando a tutela de Londres sobre os negócios do
país. Nada que não tivesse continuado, sob outras formas, por bem
mais do que um século adiante.
Ao colocar-se no Brasil,
a corte portuguesa reforçou muito a sua autoridade política no
próprio território e, muito provavelmente, evitou o retalhamento
do mesmo, que se teria sucedido se o príncipe regente tivesse sido
preso pelas forças de Napoleão. Assim, a unidade do Brasil poderá
ter-se ficado a dever à presença da corte.
Mais simples é a questão
da abertura dos portos.
O Brasil, que era a
única verdadeira colónia portuguesa, mantinha-se, à época, no
regime tradicional de exploração, isto é, condenado a enviar todos
os seus produtos para a metrópole, que depois os comerciava. A
manutenção deste regime era incompatível com o facto de Lisboa
estar tomada pelas tropas francesas e com o bloqueio imposto aos
seus portos. Dom João só tinha uma solução: viabilizar o Brasil
como nova centralidade do império, garantindo a funcionalidade do
sistema nas novas e difíceis condições em que Portugal operava.
Ao abrir os portos do
Brasil, inaugurando a modernidade económica do território, dom
João estava longe de pensar que ele se iria tornar independente 14
anos depois. Ele procurava, com esse gesto, para além de agradar
aos ingleses e à classe mercantil da Bahia, assegurar que o
império retomava a sua actividade, tão normal quanto possível.
Há, porém, dois
elementos interessantes que a História não explica bem e sobre os
quais é legítimo especular.
O primeiro tem a ver com
a manutenção da família real e da corte no Rio, por mais um
década, já depois das tropas napoleónicas terem sido afastadas do
Portugal europeu. O que levou dom João a ficar pelo Brasil? Porque
não regressou à sede do reino, como era o desejo veemente dos seus
súbditos e a lógica aconselharia?
A segunda questão
prende-se com o esforço, verdadeiramente excepcional, que dom João
e a sua expatriada gente fizeram para garantir um rápido
equipamento do Rio e de Salvador com estruturas modernas –
institucionais, culturais e outras –, de um nível tanto mais
surpreendente quanto o regime português havia persistido, desde a
Descoberta e até então, em manter o Brasil num estado muito
primário de organização. Porquê esse afã, aliás bem sucedido, de
dar ao Brasil o que lhe fora negado até então?
A resposta a estas duas
perguntas não existe, mas podemos especular que dom João, ao longo
dos seus tempos em terras brasileiras, talvez tenha acalentado a
ideia de aqui estabelecer a sede definitiva do império, se isso
fosse compatível com o andamento político das coisas em Lisboa.
Esta é uma teoria, como tantas outras, que este tempo de reanálise
desses tempos nos autoriza a elaborar.
Os tempos viriam a
provar que Lisboa, não ia por esse caminho. Dom João teve de
regressar, a contra-gosto. Para trás deixou um território que,
muito por virtude do que por aqui realizou, rapidamente se
tornaria num país. Tentou ainda o impossível, deixando o filho ao
leme do Brasil. Ao fazê-lo, evitou talvez que a inevitável
independência se fizesse já através da República.
Dom João é uma
personalidade bastante mais complexa do que a imagem caricatural
que muitos dele alimentam, uma boa parte para compensar, pela
ironia, a necessidade de terem de reconhecer a importância daquilo
que o Brasil lhe deve.
Hoje, Portugal e o
Brasil, sem complexos e sem acrimónias, podem apreciar este
período da sua História em comum com olhares que serão talvez
diferentes, porque assentes na importância relativa dos factos
para cada um. Mas há talvez alguma justiça histórica quando tais
olhares são obrigados a convergir nessa dramática figura da
aventura colonial portuguesa que foi dom João VI.
Francisco Seixas da
Costa
Embaixador de Portugal no Brasil,
especialmente para o Jornal Mundo Lusíada
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