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Por Humberto Pinho da Silva


Quinta-feira | 21 FEV 08

“No Centenário da Morte de D. João da Câmara”

Reprodução

Foto do escritor.

Corre, no presente ano, as comemorações centenárias da morte de D. João da Câmara, escritor que nasceu no Palácio da Junqueira, em Lisboa, a 27 de Dezembro de 1852, filho dos nobilíssimos Marqueses da Ribeira Grande.

Descende o notável dramaturgo do navegador João Gonçalves Zarco - descobridor da Madeira, - e de ilustres figuras da nossa História, como D. Francisco de Almeida, Marquês de Alorna, D. Nuno Álvares Pereira e até do Santo Duque de Gandia, S. Francisco de Borja.

Mas, o que realmente enobreceu o poeta, além da elevada inteligência e capacidade de trabalho, foi a bondade, conhecida e reconhecida de todos.

A actriz Maria Matos tinha-o em grande estima. Após a morte, acudia ao seu túmulo, quando se encontrava perturbada. Quem o assevera é Dona Emília da Câmara Almeida Garrett, numa missiva a Dona Eugénia de Mello  Breyner da Câmara, carta da posta de Castelo Branco e datada de 26-06-1910.

“(…) A Maria Mattos destaca-se pelo seu apuro em tudo, faz gosto. E parece ser uma rapariguinha muito séria. Falou imenso do Pai ( D. João da Câmara) e entre várias coisas disse-me que sempre que tem qualquer apoquentação ou precisa tomar resolução, vai ao cemitério. Faz ternura; não faz?”

Mas, apesar da Hemeroteca Municipal de Lisboa ter realizado uma série de conferencias sobre o dramaturgo, o acontecimento passou quase despercebido da mass-media, o que não é inédito no nosso Pais.

D. João da Câmara além das actividades teatrais, era cronista assíduo da “ Gazeta de Notícias” e “ Correio da Manhã” do Rio de Janeiro e articulista do “Ocidente” - revista lisboeta, - que lhe deu reputação e prestígio.

Mas, quiçá, a faceta menos conhecida e merecedora de mais ser lembrada, foi a bondade.

Diz, sua neta, Dona Maria Emília, que, certa vez, condoído da precisão de pedinte, tirou “ dos seus ombros, o único capote que tinha, para o pôr nas costas de um pobre”; e conta Júlio Dantas - in “Ilustração Portuguesa”, de 6 de Janeiro de 1908, -  que em frigidíssima noite, quando aguardava o eléctrico, que o levaria a casa, deparou com mulher mal enroupada; “ chamou a preta, deu-lhe o tostão - toda a sua riqueza naquela noite, - e resignadamente, docemente, num sorriso tranquilo, levantou a pala do casaco, arregaçou as calças e meteu-se à chuva, a pé, a caminho da Junqueira.”

Certa ocasião ficou retido no quarto. Um dos filhos estranhou. Interrogado do motivo, respondeu: que rapaz conhecido fora de manhã solicitar calçado decente; não tendo como acudir, deu-lhe as suas botas.

E quando o filho replicou porque não entregou as “novas” que não usava por serem apertadas, atalhou, encolhido:

- “Pois sim, mas ele tem  meu pé!…”

Dois dias pós o falecimento, o filho José, a seu pedido, escreveu para o Rio de Janeiro, narrando a morte santa do pai:

Foi no sábado passado, dia seguinte aos dos seus anos, que ele teve a congestão que cinco dias depois o havia de matar. Reconhecendo perfeitamente a gravidade do seu estado e certo de que não mais se levantaria, reuniu-nos em roda da cama, e depois de algumas palavras carinhosas a cada um de nós, fez-nos as últimas recomendações.

Foram estas as suas palavras:

- “Quero morrer bem com Deus e com todos os meus amigos. Digam-lhes que a todos muito quis e desejei felicidades. Sempre fui muito religioso e espero que vocês o sejam e nunca tenham a cobardia de não o confessar bem alto. O homem que não acredita em Deus não pode ser um bom amigo. E quero que também mandem dizer para o Brasil que morri com todos os sacramentos da Igreja e que sempre fui religioso.”

Em 2002, a 9 de Dezembro, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, homenageou-o dedicando-lhe a lotaria clássica, dessa semana.

Cabe, agora, a vez do CTT, no período em que se comemora os cem anos da sua morte, homenagear um dos maiores intelectuais do séc. XlX/XX.

Aqui fica a lembrança à Administração dos Correios de Portugal, na esperança que seja aceite.

Humberto Pinho da Silva


 

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