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Reprodução

Foto
do escritor. |
Corre, no presente ano,
as comemorações centenárias da morte de D. João da Câmara,
escritor que nasceu no Palácio da Junqueira, em Lisboa, a 27 de
Dezembro de 1852, filho dos nobilíssimos Marqueses da Ribeira
Grande.
Descende o notável
dramaturgo do navegador João Gonçalves Zarco - descobridor da
Madeira, - e de ilustres figuras da nossa História, como D.
Francisco de Almeida, Marquês de Alorna, D. Nuno Álvares Pereira e
até do Santo Duque de Gandia, S. Francisco de Borja.
Mas, o que realmente
enobreceu o poeta, além da elevada inteligência e capacidade de
trabalho, foi a bondade, conhecida e reconhecida de todos.
A actriz Maria Matos
tinha-o em grande estima. Após a morte, acudia ao seu túmulo,
quando se encontrava perturbada. Quem o assevera é Dona Emília da
Câmara Almeida Garrett, numa missiva a Dona Eugénia de Mello
Breyner da Câmara, carta da posta de Castelo Branco e datada de
26-06-1910.
“(…) A Maria
Mattos destaca-se pelo seu apuro em tudo, faz gosto. E parece ser
uma rapariguinha muito séria. Falou imenso do Pai ( D. João da
Câmara) e entre várias coisas disse-me que sempre que tem qualquer
apoquentação ou precisa tomar resolução, vai ao cemitério. Faz
ternura; não faz?”
Mas, apesar da
Hemeroteca Municipal de Lisboa ter realizado uma série de
conferencias sobre o dramaturgo, o acontecimento passou quase
despercebido da mass-media, o que não é inédito no nosso Pais.
D. João da Câmara além
das actividades teatrais, era cronista assíduo da “ Gazeta de
Notícias” e “ Correio da Manhã” do Rio de Janeiro e articulista do
“Ocidente” - revista lisboeta, - que lhe deu reputação e
prestígio.
Mas, quiçá, a faceta
menos conhecida e merecedora de mais ser lembrada, foi a bondade.
Diz, sua neta, Dona
Maria Emília, que, certa vez, condoído da precisão de pedinte,
tirou “ dos seus ombros, o único capote que tinha, para o
pôr nas costas de um pobre”; e conta Júlio Dantas - in
“Ilustração Portuguesa”, de 6 de Janeiro de 1908, - que em
frigidíssima noite, quando aguardava o eléctrico, que o levaria a
casa, deparou com mulher mal enroupada; “ chamou a preta,
deu-lhe o tostão - toda a sua riqueza naquela noite, - e
resignadamente, docemente, num sorriso tranquilo, levantou a pala
do casaco, arregaçou as calças e meteu-se à chuva, a pé, a caminho
da Junqueira.”
Certa ocasião ficou
retido no quarto. Um dos filhos estranhou. Interrogado do motivo,
respondeu: que rapaz conhecido fora de manhã solicitar calçado
decente; não tendo como acudir, deu-lhe as suas botas.
E quando o filho
replicou porque não entregou as “novas” que não usava por serem
apertadas, atalhou, encolhido:
- “Pois sim, mas
ele tem meu pé!…”
Dois dias pós o
falecimento, o filho José, a seu pedido, escreveu para o Rio de
Janeiro, narrando a morte santa do pai:
“Foi no sábado
passado, dia seguinte aos dos seus anos, que ele teve a congestão
que cinco dias depois o havia de matar. Reconhecendo perfeitamente
a gravidade do seu estado e certo de que não mais se levantaria,
reuniu-nos em roda da cama, e depois de algumas palavras
carinhosas a cada um de nós, fez-nos as últimas recomendações.
Foram estas as suas
palavras:
- “Quero morrer
bem com Deus e com todos os meus amigos. Digam-lhes que a todos
muito quis e desejei felicidades. Sempre fui muito religioso e
espero que vocês o sejam e nunca tenham a cobardia de não o
confessar bem alto. O homem que não acredita em Deus não pode ser
um bom amigo. E quero que também mandem dizer para o Brasil que
morri com todos os sacramentos da Igreja e que sempre fui
religioso.”
Em 2002, a 9 de
Dezembro, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, homenageou-o
dedicando-lhe a lotaria clássica, dessa semana.
Cabe, agora, a vez do
CTT, no período em que se comemora os cem anos da sua morte,
homenagear um dos maiores intelectuais do séc. XlX/XX.
Aqui fica a lembrança à
Administração dos Correios de Portugal, na esperança que seja
aceite.
Humberto Pinho da
Silva
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