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Por Hélio Bernardo Lopes


Segunda-feira | 07 JAN 08

“O Discurso Presidencial de Ano Novo”

Acompanhei com a maior atenção e com enorme expectativa o discurso de Ano Novo do Presidente Cavaco Silva, embora tenha de conceder que o mesmo ficou muito aquém do que seria de esperar.

Acontece que o Presidente Cavaco Silva, por razões diversas, tem realizado uma presidência que se tem de considerar de equilíbrio colaborante e atento.

E, de um modo muito geral, os portugueses têm-no acompanhado nesse seu modo
de intervenção política. Por ser assim, escuso-me a comentar aqui aquelas partes deste seu discurso que terão sempre de merecer o consenso geral, apenas abordando a que penso ter concitado o maior caudal de comentários, por razões diversas, de um modo
geral contrários ao modo como o Presidente da República a abordou. Refiro-me à interrogação que se colocou sobre se não existirá excesso nos vencimentos de alguns gestores das nossas empresas.

Ora, um tema desta natureza nunca poderia concitar o apoio daqueles que hoje ganham verdadeiras fortunas, por vezes, através de mil e um afazeres, muitos dos quais de mais que duvidosa utilidade, para a generalidade dos portugueses e para o País.

Em contrapartida, tais palavras só poderiam ter real utilidade política se pudessem, ao menos, suscitar o apoio expectante e esperançoso da grande maioria dos portugueses, o que também não poderá ter lugar, porque por rápido se entendeu que as palavras do Presidente Cavaco Silva, para mais até expressas sob a forma de uma dúvida pessoal, não passariam disso mesmo: palavras de um desabafo, destinado a ficar por ali mesmo.

A prova de que tudo foi assim pôde já hoje ver-se neste recente programa, Quadratura do Círculo, onde José Pacheco Pereira e António Lobo Xavier, como seria de esperar, criticaram aquelas palavras do Presidente da República, e onde Jorge Coelho terá conseguido, porventura, um lugar no Guiness, ao salientar que pouco lhe interessavam os grandes ordenados dos gestores, porque o que importa é que a grande maioria dos portugueses possa viver melhor e ganhar mais!!! É caso para dizer: eu quer’áplaudirr!!!!

Bom, meu caro leitor, nem mesmo eu consegui evitar o espanto de ouvir tamanha barbaridade política! Como se essa subida possa algum dia vir a ter lugar!! Como se os portugueses, na sua esmagadora maioria, de há muito não condenem o despudor moral dos vencimentos singulares hoje auferidos pelos nossos gestores!!!

Ao Presidente Cavaco Silva faltou o que hoje falta à maioria dos políticos do nosso tempo: consistência ideológica. E isto porque ele nem mesmo chegou a marcar a sua posição sobre o tema, nem as causas que lhe estão subjacentes, simplesmente se ficando por colocar uma questão cuja resposta só pode retirar-se da moral e da ética. E basta ter estado atento às palavras do Papa Bento XVI e do Cardeal D. José Policarpo, para de imediato se perceber que o problema, sempre citado, é certo, da vergonhosa
desigualdade na distribuição dos rendimentos, pelo tom e pela rara frequência com que é referido, se ficou, precisamente, em nada. Como sempre e de há muito.

A grande diferença está em que, mesmo em decrescimento, nas missas de fim de semana os católicos estão lá. Mas com a graça presidencial a situação não é de fé, mas de coerência política e de eficácia objectiva. E se nos recordarmos daquele discurso sobre a corrupção, facilmente se percebe que, em matérias verdadeiramente essenciais para a situação econômica e social dos políticos, a palavra presidencial parece ser pouco seguida.

Um dado é certo: os tais vencimentos chorudos dos gestores são um atentado à pobreza e à ética política, mas o que interessa é escalpelizar o que está por detrás de uma tal realidade e pôr em andamento uma intervenção política que seja consequente. Até porque seria um tema em que o Presidente Cavaco Silva teria do seu lado a enormíssima maioria dos portugueses, embora eu duvide que a direita de hoje - CDS/PP, PSD e PS - o apoiassem. E de facto, do PSD nem palavrinha... Reparou...?

Mas poderá o Presidente Cavaco Silva operar uma tal intervenção política? Muito sinceramente, não creio. Falta-lhe coerência ideológica.

Hélio Bernardo Lopes

De Portugal


 

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