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Acompanhei com a maior atenção e com
enorme expectativa o discurso de Ano Novo do Presidente Cavaco
Silva, embora tenha de conceder que o mesmo ficou muito aquém do
que seria de esperar.
Acontece que o Presidente Cavaco Silva,
por razões diversas, tem realizado uma presidência que se tem de
considerar de equilíbrio colaborante e atento.
E, de um modo muito geral, os
portugueses têm-no acompanhado nesse seu modo
de intervenção política. Por ser assim, escuso-me a comentar aqui
aquelas partes deste seu discurso que terão sempre de merecer o
consenso geral, apenas abordando a que penso ter concitado o maior
caudal de comentários, por razões diversas, de um modo
geral contrários ao modo como o Presidente da República a abordou.
Refiro-me à interrogação que se colocou sobre se não existirá
excesso nos vencimentos de alguns gestores das nossas empresas.
Ora, um tema desta natureza nunca
poderia concitar o apoio daqueles que hoje ganham verdadeiras
fortunas, por vezes, através de mil e um afazeres, muitos dos
quais de mais que duvidosa utilidade, para a generalidade dos
portugueses e para o País.
Em contrapartida, tais palavras só
poderiam ter real utilidade política se pudessem, ao menos,
suscitar o apoio expectante e esperançoso da grande maioria dos
portugueses, o que também não poderá ter lugar, porque por rápido
se entendeu que as palavras do Presidente Cavaco Silva, para mais
até expressas sob a forma de uma dúvida pessoal, não passariam
disso mesmo: palavras de um desabafo, destinado a ficar por ali
mesmo.
A prova de que tudo foi assim pôde já
hoje ver-se neste recente programa, Quadratura do Círculo, onde
José Pacheco Pereira e António Lobo Xavier, como seria de esperar,
criticaram aquelas palavras do Presidente da República, e onde
Jorge Coelho terá conseguido, porventura, um lugar no Guiness, ao
salientar que pouco lhe interessavam os grandes ordenados dos
gestores, porque o que importa é que a grande maioria dos
portugueses possa viver melhor e ganhar mais!!! É caso para dizer:
eu quer’áplaudirr!!!!
Bom, meu caro leitor, nem mesmo eu
consegui evitar o espanto de ouvir tamanha barbaridade política!
Como se essa subida possa algum dia vir a ter lugar!! Como se os
portugueses, na sua esmagadora maioria, de há muito não condenem o
despudor moral dos vencimentos singulares hoje auferidos pelos
nossos gestores!!!
Ao Presidente Cavaco Silva faltou o que
hoje falta à maioria dos políticos do nosso tempo: consistência
ideológica. E isto porque ele nem mesmo chegou a marcar a sua
posição sobre o tema, nem as causas que lhe estão subjacentes,
simplesmente se ficando por colocar uma questão cuja resposta só
pode retirar-se da moral e da ética. E basta ter estado atento às
palavras do Papa Bento XVI e do Cardeal D. José Policarpo, para de
imediato se perceber que o problema, sempre citado, é certo, da
vergonhosa
desigualdade na distribuição dos rendimentos, pelo tom e pela rara
frequência com que é referido, se ficou, precisamente, em nada.
Como sempre e de há muito.
A grande diferença está em que, mesmo em
decrescimento, nas missas de fim de semana os católicos estão lá.
Mas com a graça presidencial a situação não é de fé, mas de
coerência política e de eficácia objectiva. E se nos recordarmos
daquele discurso sobre a corrupção, facilmente se percebe que, em
matérias verdadeiramente essenciais para a situação econômica e
social dos políticos, a palavra presidencial parece ser pouco
seguida.
Um dado é certo: os tais vencimentos
chorudos dos gestores são um atentado à pobreza e à ética
política, mas o que interessa é escalpelizar o que está por detrás
de uma tal realidade e pôr em andamento uma intervenção política
que seja consequente. Até porque seria um tema em que o Presidente
Cavaco Silva teria do seu lado a enormíssima maioria dos
portugueses, embora eu duvide que a direita de hoje - CDS/PP, PSD
e PS - o apoiassem. E de facto, do PSD nem palavrinha...
Reparou...?
Mas poderá o Presidente Cavaco Silva
operar uma tal intervenção política? Muito sinceramente, não
creio. Falta-lhe coerência ideológica.
Hélio Bernardo Lopes
De Portugal
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