|
Lá teve lugar, finalmente, a assembleia
geral dos acionistas do BCP. E a primeira medida de grande acerto
que ali se tomou foi a substituição de Germano Marques da Silva
por António Menezes Cordeiro, tendo em conta aquele inesquecível
episódio do falhanço do sistema informático, aquando da sessão em
que Jardim Gonçalves questionou a continuação de Paulo Teixeira
Pinto à frente do BCP.
Mas é aqui pouco importante o que se
passou ao nível do banco, nesta recente sessão, e se a solução
agora encontrada é boa ou má. O que pretendo aqui abordar é a
completa baralhada política que se tentou operar em torno de Vítor
Constâncio, enquanto Presidente do Banco de Portugal, e até da
CMVM e de Fernando Teixeira dos Santos, que à mesma presidiu em
tempos.
É claro que não sei, no momento em que
escrevo este texto, quem possa ter feito o quê de mal à frente do
BCP. Ou, sequer, se houve algo de mal por ali praticado. Tenho,
claro está, uma opinião quantificada, em termos probabilísticos,
mas que não passa disso mesmo. O que significa que nenhum
interesse tem para este texto.
Mas admitamos um cenário pessimista, ou
seja, de que algo de muito grave foi praticado por alguém da
administração do BCP. Bom, se tal hipótese fosse uma realidade, o
mais certo seria que tais irregularidades se viessem agora a
apurar. Mas há, num tal cenário, uma questão que tem de ser
colocada: tais irregularidades teriam consequências criminais, ou
meramente uma multa, maior ou menor?
A questão é pertinente, bastando que o
leitor responda a esta pergunta: imagina como possível, em
Portugal, a condenação de um banqueiro em tribunal, no plano
penal? Claro que não! Nem o meu leitor nem a esmagadora maioria
dos portugueses!!
A razão é simples: nem detentores de soberania, nem procuradores,
nem oficiais-generais, nem catedráticos, nem banqueiros, nem
directores nacionais de polícias, alguma vez foram condenados num
tribunal do nosso País. Um caso verdadeiramente (quase) único no
Mundo!!
Mas tomemos, agora, um cenário optimista,
isto é, de que nada de realmente grave foi praticado por quem quer
que tenha sido da administração do BCP. Ora bem, se tal hipótese
tiver materializado a realidade, talvez nem chegue a ocorrer
qualquer problema de maior. A ser assim a solução do problema,
tudo poderá ficar-se por uma multa, talvez até contestada pelas
vias adequadas.
Ou seja, o papel de Vítor Constâncio e
da CMVM neste tema é deveras pouco importante, tudo não passando
de uma agitação com fins políticos. E a prova de que assim é está
no facto de, como até aqui, nenhum dos partidos da actual oposição
exigir um estudo atento do que também possa passar-se na restante
área da banca. Ou seja, se fosse alguém do PSD, ou do CDS/PP, que
estivesse no lugar de Vítor Constância, o filme seria visto ao
contrário. É, no fundo, uma demonstração clara de que o Estado de
Direito Democrático não é para todos os povos.
Um dado é (quase) certo: não terão lugar
condenações em tribunal. E se o que quer que tenha tido lugar
tivesse decorrido em Londres, Paris, Nova Iorque, Tóquio, Toronto,
etc.? Ah, bom... Ainda assim, como no-lo diz Alan Greenspan, é
fundamental ocorrer uma denúncia vinda de dentro. De outro modo, é
difícil perceber a vida de uma instituição financeira. Imaginemos
o que seria o fim do sigilo bancário, ou a análise do
enriquecimento ilícito...
Hélio Bernardo Lopes
De Portugal
|