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Por Hélio Bernardo Lopes


Domingo | 20 JAN 08

“Doa a Quem Doer!”

O nosso País, como o meu caríssimo leitor certamente reconhece, é deveras engraçado. Poderia mesmo ser, de resto, um dos mais aprazíveis lugares deste nosso Mundo adoentado, não fosse o cancro da corrupção ter-se apossado deste nosso Quintal.

A grande verdade, porém, é que nos tornámos num aparente espaço de modernismo, muito marcado por um modo tipicamente nosso de fazer de conta. Procurámos construir uma democracia, à imagem e semelhança do que se via lá por fora, mas o que criámos vale, tão só, pela sua parte formal, porque de real representatividade, de facto, já nada tem.

Vêm estas palavras a propósito da recente reunião informal do Conselho de Ministro, em que, ao final, nos surgiu o Ministro das Finanças, tratando, entre temas muito diversos, o caso do BCP e dos supostos ilícitos que aí possam ter tido lugar.

Devo dizer que, por razões muito diversas e todas muito ponderáveis, tenho por Teixeira dos Santos uma consideração muito elevada. Até também por ser um histórico melómano, que tantas vezes pude ver em récitas e recitais que foram tendo lugar em temporadas sucessivas do Teatro Nacional de São Carlos.

Mas não deixei de achar graça àquela expressão que usou na referida conferência de imprensa, a propósito de quanto possa vir a apurar-se sobre o caso BCP, de que a realidade que possa ter tido lugar deverá ser apurada e com as naturais consequências, doa a quem doer!

Bom, meu caro leitor, ainda hoje, tantos dias já passados sobre aquelas palavras do Ministro da Finanças, eu ainda consigo rir, ligeiramente, é certo, com o que as mesmas realmente traduzem. E digo isto porque não é para mim pensável, de quanto se conhece da História das Instituições da III República, que um banqueiro possa ser condenável num tribunal português. No fundo e como tenho já explicado por vezes diversas, a tradição e os riscos da indução experimental. Mas a verdade é que a mesma existe e é diariamente utilizada por todos nós.

A grande verdade, como os portugueses de há muito se habituaram a aceitar, é que uma situação como a que tem sido divulgada, mesmo que algo de muito grave pudesse ter tido lugar, envolvendo banqueiros e em Portugal, nunca poderá ter um desfecho que possa passar por uma condenação em tribunal. Nem mesmo, à luz da minha sensibilidade histórico-política, um acto de julgamento.

Mas pode ser que por aí venha, finalmente, o dealbar de um tempo realmente novo. Quem sabe? Em todo o caso, não creio estar enganado se predisser que, como sempre até hoje teve lugar em Portugal, na área de um tribunal e no domínio penal, nada sobrevirá neste caso. Mas vamos esperar, de molde a poder comparar a realidade com uma previsão baseada na indução experimental.

Hélio Bernardo Lopes

De Portugal


 

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