|
O nosso País, como o meu caríssimo
leitor certamente reconhece, é deveras engraçado. Poderia mesmo
ser, de resto, um dos mais aprazíveis lugares deste nosso Mundo
adoentado, não fosse o cancro da corrupção ter-se apossado deste
nosso Quintal.
A grande verdade, porém, é que nos
tornámos num aparente espaço de modernismo, muito marcado por um
modo tipicamente nosso de fazer de conta. Procurámos construir uma
democracia, à imagem e semelhança do que se via lá por fora, mas o
que criámos vale, tão só, pela sua parte formal, porque de real
representatividade, de facto, já nada tem.
Vêm estas palavras a propósito da
recente reunião informal do Conselho de Ministro, em que, ao
final, nos surgiu o Ministro das Finanças, tratando, entre temas
muito diversos, o caso do BCP e dos supostos ilícitos que aí
possam ter tido lugar.
Devo dizer que, por razões muito
diversas e todas muito ponderáveis, tenho por Teixeira dos Santos
uma consideração muito elevada. Até também por ser um histórico
melómano, que tantas vezes pude ver em récitas e recitais que
foram tendo lugar em temporadas sucessivas do Teatro Nacional de
São Carlos.
Mas não deixei de achar graça àquela
expressão que usou na referida conferência de imprensa, a
propósito de quanto possa vir a apurar-se sobre o caso BCP, de que
a realidade que possa ter tido lugar deverá ser apurada e com as
naturais consequências, doa a quem doer!
Bom, meu caro leitor, ainda hoje, tantos
dias já passados sobre aquelas palavras do Ministro da Finanças,
eu ainda consigo rir, ligeiramente, é certo, com o que as mesmas
realmente traduzem. E digo isto porque não é para mim pensável, de
quanto se conhece da História das Instituições da III República,
que um banqueiro possa ser condenável num tribunal português. No
fundo e como tenho já explicado por vezes diversas, a tradição e
os riscos da indução experimental. Mas a verdade é que a mesma
existe e é diariamente utilizada por todos nós.
A grande verdade, como os portugueses de
há muito se habituaram a aceitar, é que uma situação como a que
tem sido divulgada, mesmo que algo de muito grave pudesse ter tido
lugar, envolvendo banqueiros e em Portugal, nunca poderá ter um
desfecho que possa passar por uma condenação em tribunal. Nem
mesmo, à luz da minha sensibilidade histórico-política, um acto de
julgamento.
Mas pode ser que por aí venha,
finalmente, o dealbar de um tempo realmente novo. Quem sabe? Em
todo o caso, não creio estar enganado se predisser que, como
sempre até hoje teve lugar em Portugal, na área de um tribunal e
no domínio penal, nada sobrevirá neste caso. Mas vamos esperar, de
molde a poder comparar a realidade com uma previsão baseada na
indução experimental.
Hélio Bernardo Lopes
De Portugal
|