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Artigo » Hélio Bernardo Lopes

13/DEZ/2007

Natalidade

A Minguância de Portugueses

 

Encontrava-me em Almeida quando o Presidente da República se deslocou à Guarda e se referiu ao problema da nossa escassez de natalidade. É um tema candente, mas de difícil reversibilidade, e por razões que me parecem evidentes.


Notei, porém, que Cavaco Silva, em essência, apresentou problemas e colocou perguntas, mas nunca deu resposta para nenhuma delas. O que é natural, porque o problema é complexo e pode mesmo não ter solução num contexto como o actual.


Havia um histórico anúncio, ainda presente na memória dos mais velhos, que nos dizia que não se pode ter tudo por dois escudos. Acaso o leitor ainda se recorda de um tal anúncio? Porque o mesmo traduz a mais pura realidade da vida, seja de pessoas ou de instituições.


Acontece que, como se sabe, o Presidente Cavaco Silva é um neoliberal, no extremo completamente oposto ao do pensamento socialista. De um modo menos claro, aponta as grandes vantagens do mercado, da moeda única, de uma Europa forte, o que, como foi já possível perceber, só nos tem trazido problemas sociais de toda a natureza e incerteza face ao futuro. Ou seja: não se pode ter tudo por dois escudos.


É claro que se se dá pobreza às pessoas e às famílias, se se lhes impõe limitações de todo o tipo em matéria de apoio social, como pode esperar-se que as famílias possam formar-se e ser numerosas? Só para quem consiga ganhar o Euromilhões!


As perguntas do Presidente Cavaco Silva foram mero exercício funcional, ainda que sinceras, porque o seu efeito, como qualquer um pode perceber facilmente, é completamente nulo.


O modo como a sociedade portuguesa está hoje organizada, onde é possível assistir, por exemplo, à inenarrável crise do maior banco privado português, com as mil e uma peripécias que têm vindo a lume, e sem que nada aconteça de realmente lógico, mostra que nunca os portugueses poderão encontrar, a curto ou médio prazo, as condições subjectivas para se lançarem na dificílima aventura de constituir família, possuir casa e terem muitos filhos.


Os portugueses pouco ou nada ligam à democracia, mas não são parvos nem nutrem um gosto particular pelo sacrifício sem fim e inútil. Sabem hoje bem que o futuro, sempre tão badalado, simplesmente não chegará nas próximas décadas. É que esse futuro é incompatível com o neoliberalismo, com a globalização e com a quase extinção do Estado, de parceria com o poder generalizadamente disseminado pelos interesses privados e egoístas.


Hélio Bernardo Lopes

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