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Artigo » José Verdasca

11/DEZ/2007

 

Época Natalina

O Natal e o Ideal


Ano após ano, celebram os cristãos o nascimento do Cristo com as festas natalinas, conjunto de vasta, rica e simbólica liturgia, espelho e reflexo do inigualável ideal de vida em família, alicerce e pilar de qualquer comunidade, estrutura sobre a qual se construíram as Nações e fonte de onde emanam os princípios que vêm guiando a Humanidade através dos séculos. Na exaltação do recém nascido podemos sentir o valor maior da renovação e do respeito à Vida, que sob a forma humana se inicia com o Natal ou nascimento da criança, obra da Creação, que aos pais cumpre criar e acompanhar, alimentar e educar, formar e preparar para uma vida em sociedade útil e profícua, quando cada um de nós tem por dever a ela retribuir tudo quanto dela recebe, produzindo para poder consumir, respeitando para ser respeitado, ajudando para ser ajudado, ou, como muito bem dizia São Francisco de Assis, "dar para receber". Aqui está implícita uma distribuição mais eqüitativa e justa da riqueza mundial.


Mas a tradição natalina vai muito além da comemoração, celebração e ou enaltecimento do nascimento, por estar frontalmente interessada e voltada para o ideal de felicidade e união do todo familiar, pois a todos os seus membros contempla, a todos presenteia, a todos acarinha, a todos envolve, a todos dignifica, exata e precisamente porque todos - sem qualquer excepção - são iguais perante o seu Deus e perante os homens, em direitos e deveres, frente às leis dos Estados e face às Leis da Vida - de vez que todos nascem e morrem, são felizes e sofrem, têm corpo e Espírito, são simultaneamente passageiros e eternos. Talvez em consideração a esses valores e princípios, reúnem-se as famílias dispersas, reconciliam-se os seus membros desavindos, pratica-se a solidariedade humana, visitam-se creches, prisões e asilos, indultam-se os presos, e, de um modo geral, têm os seres humanos vontade e preocupação em manter um comportamento cordial e pacífico, atencioso e fraterno, respeitoso e jovial, enfim, humanista.

Comportando uma existência normal muitos natais, natural seria que o humanismo natalino se prolongasse por todo o ano, a construir um clima da paz permanente e entendimento constante, de honestidade na vida privada e dignidade na vida pública, de honra pessoal e respeito público, quando cada um de nós cumprisse seus deveres e usofruisse de seus direitos, respeitasse seus semelhantes e fosse por eles respeitado, vivesse do fruto do trabalho próprio e não à custa dos suor e por vezes do sangue alheios, enfim, e por fim, quando todas(os) cidadãs(os) exercessem o dever e usofruissem o direito à plena e perfeita cidadania, altura em que o grande exemplo viria da cúpula do Estado, de todos quantos o servem ou deveriam servir, sem negociatas e ou escândalos, sem corruptos e ou corruptores, sem violências ou rancores, sem abusos ou favores, o que vale dizer, quando os eleitos pelo povo fossem probos, sérios, corretos, honestos e justos. Só assim seriam seus dignos representantes.

Vive o Mundo um dos mais conturbados períodos de sua multimilenar existência, pois, dos trinta a quarenta milênios da existência do Homo Sapiens à superfície da Terra, talvez jamais, em tempo algum, os humanos tenham recorrido tanto à tecnologia para a destruição indiscriminada de vidas e seres, tanto se tenham deixado dominar pelo fanatismo ideológico e ou pelo fundamentalismo religioso para perseguir os seus irmãos, a tal ponto de barbárie e indignidade tenham chegado na tentativa de se apoderar e manter o Poder, aqui englobados o poder político, o poder econômico, o poder das armas, mas especialmente o exacerbado e ilimitado poder pessoal que leva ao descontrole, à injustiça, à destemperança, à irracionalidade, à violência e à brutalidade, destruindo bens e dilacerando vidas, sem motivo, sem critério, sem "dó nem piedade". É o que diariamente ocorre no Iraque, no Afeganistão, na Palestina, no Darfur, e um pouco por toda a superfície terrestre, quer se trate das favelas do Rio de Janeiro ou na Colômbia, nos arrabaldes de Paris ou nas ruas de todas as grandes cidades, no Haiti ou na África.

A continuarem os abusos de toda a espécie, as injustiças generalizadas, as violências de toda a ordem, as agressões indiscriminadas ao Homem e à Natureza e os cada vez mais descontrolados vícios que degradam a espécie humana, decerto não poderemos esperar um futuro promissor para nossos filhos e ou netos, futuro esse que temos o sagrado dever de lhes legar. Só nos resta a união em defesa do Humanismo, na tentativa de salvar a Humanidade.

BOAS FESTAS
São Paulo, Natal de 2007

JOSÉ VERDASCA

Escritor

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