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11/DEZ/2007
Época Natalina
O Natal e o Ideal
Ano após ano, celebram os cristãos o nascimento do Cristo com as
festas natalinas, conjunto de vasta, rica e simbólica liturgia,
espelho e reflexo do inigualável ideal de vida em família,
alicerce e pilar de qualquer comunidade, estrutura sobre a qual se
construíram as Nações e fonte de onde emanam os princípios que vêm
guiando a Humanidade através dos séculos. Na exaltação do recém
nascido podemos sentir o valor maior da renovação e do respeito à
Vida, que sob a forma humana se inicia com o Natal ou nascimento
da criança, obra da Creação, que aos pais cumpre criar e
acompanhar, alimentar e educar, formar e preparar para uma vida em
sociedade útil e profícua, quando cada um de nós tem por dever a
ela retribuir tudo quanto dela recebe, produzindo para poder
consumir, respeitando para ser respeitado, ajudando para ser
ajudado, ou, como muito bem dizia São Francisco de Assis, "dar
para receber". Aqui está implícita uma distribuição mais
eqüitativa e justa da riqueza mundial.
Mas a tradição natalina vai muito além da comemoração, celebração
e ou enaltecimento do nascimento, por estar frontalmente
interessada e voltada para o ideal de felicidade e união do todo
familiar, pois a todos os seus membros contempla, a todos
presenteia, a todos acarinha, a todos envolve, a todos dignifica,
exata e precisamente porque todos - sem qualquer excepção - são
iguais perante o seu Deus e perante os homens, em direitos e
deveres, frente às leis dos Estados e face às Leis da Vida - de
vez que todos nascem e morrem, são felizes e sofrem, têm corpo e
Espírito, são simultaneamente passageiros e eternos. Talvez em
consideração a esses valores e princípios, reúnem-se as famílias
dispersas, reconciliam-se os seus membros desavindos, pratica-se a
solidariedade humana, visitam-se creches, prisões e asilos,
indultam-se os presos, e, de um modo geral, têm os seres humanos
vontade e preocupação em manter um comportamento cordial e
pacífico, atencioso e fraterno, respeitoso e jovial, enfim,
humanista.
Comportando uma existência normal muitos natais, natural seria que
o humanismo natalino se prolongasse por todo o ano, a construir um
clima da paz permanente e entendimento constante, de honestidade
na vida privada e dignidade na vida pública, de honra pessoal e
respeito público, quando cada um de nós cumprisse seus deveres e
usofruisse de seus direitos, respeitasse seus semelhantes e fosse
por eles respeitado, vivesse do fruto do trabalho próprio e não à
custa dos suor e por vezes do sangue alheios, enfim, e por fim,
quando todas(os) cidadãs(os) exercessem o dever e usofruissem o
direito à plena e perfeita cidadania, altura em que o grande
exemplo viria da cúpula do Estado, de todos quantos o servem ou
deveriam servir, sem negociatas e ou escândalos, sem corruptos e
ou corruptores, sem violências ou rancores, sem abusos ou favores,
o que vale dizer, quando os eleitos pelo povo fossem probos,
sérios, corretos, honestos e justos. Só assim seriam seus dignos
representantes.
Vive o Mundo um dos mais conturbados períodos de sua multimilenar
existência, pois, dos trinta a quarenta milênios da existência do
Homo Sapiens à superfície da Terra, talvez jamais, em tempo algum,
os humanos tenham recorrido tanto à tecnologia para a destruição
indiscriminada de vidas e seres, tanto se tenham deixado dominar
pelo fanatismo ideológico e ou pelo fundamentalismo religioso para
perseguir os seus irmãos, a tal ponto de barbárie e indignidade
tenham chegado na tentativa de se apoderar e manter o Poder, aqui
englobados o poder político, o poder econômico, o poder das armas,
mas especialmente o exacerbado e ilimitado poder pessoal que leva
ao descontrole, à injustiça, à destemperança, à irracionalidade, à
violência e à brutalidade, destruindo bens e dilacerando vidas,
sem motivo, sem critério, sem "dó nem piedade". É o que
diariamente ocorre no Iraque, no Afeganistão, na Palestina, no
Darfur, e um pouco por toda a superfície terrestre, quer se trate
das favelas do Rio de Janeiro ou na Colômbia, nos arrabaldes de
Paris ou nas ruas de todas as grandes cidades, no Haiti ou na
África.
A continuarem os abusos de toda a espécie, as injustiças
generalizadas, as violências de toda a ordem, as agressões
indiscriminadas ao Homem e à Natureza e os cada vez mais
descontrolados vícios que degradam a espécie humana, decerto não
poderemos esperar um futuro promissor para nossos filhos e ou
netos, futuro esse que temos o sagrado dever de lhes legar. Só nos
resta a união em defesa do Humanismo, na tentativa de salvar a
Humanidade.
BOAS FESTAS
São Paulo, Natal de 2007
JOSÉ VERDASCA
Escritor
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