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Artigo » Hélio Bernardo Lopes

22/NOV/2007

Partido Socialista

Como um Solitão

 

É natural que o meu caríssimo leitor nunca tenha ouvido falar em solitão. Mas tudo se tornará mais simples se lhe disser que o solitão é, afinal, uma onda solitária, constituída apenas por crista, ou seja, sem cava, e que se propaga com essa forma, logo que criada.


Este fenómeno do solitão, como continuo aqui a designá-lo, foi estudado pelo holandês Korteweg, que conseguiu explicá-lo, há pouco mais de um século, através de uma equação diferencial às derivadas parciais complexa e que se não justifica abordar aqui.
Fui buscar este exemplo do solitão a propósito de um livro recente, onde se pode ler um diálogo entre Ricardo Costa e Medina Carreira. De fato, uma entrevista do primeiro ao segundo.


E ocorreu-me o solitão porque, em boa verdade, é um pouco essa a situação do antigo ministro de Mário Soares, ao que creio, também um dos fundados do Partido (designado de) Socialista. E se há afirmação de Medina Carreira repleta de razão, é a que fez a Mário Crespo, na sua última entrevista dada ao Jornal das Nove: o PS não é socialista, porque isso, hoje, acabou! Ou seja, o mesmo que João Cravinho referiu na sua entrevista à VISÃO: governa-se por uma via neoliberal há décadas.


Vejo em Medina Carreira, digamos assim, um solitão, mas porque a proposta que ele nos faz é simplesmente autoreprodutiva em matéria de empobrecimento geral da nossa população. Ele já aceita, nesta sua última entrevista dada a Mário Crespo, que não existam funcionários públicos a mais. Desta vez, o que ele nos traz é o peso percentual dos correspondentes gastos no PIB!


Há já um bom ano, numa sua outra entrevista dada a Gomes Ferreira, Medina Carreira chegou a ser lógico, ao admitir que aceita que se renuncie a procurar patamares elevados para o País, que é o que se impõe, porque nem mesmo o combate ao maior flagelo português desde 25 de Abril, a corrupção e o enriquecimento ilícito, se consegue pôr realmente em marcha.


O grande erro de Medina Carreira, como da generalidade dos nossos políticos, é não ser capaz de definir objetivos estratégicos para o País em função das reais características da nossa população, que nada tem que ver com um minúsculo grupo de concidadãos nossos que se determinam a querer ser como os melhores que vivem lá por fora!


É essencial perceber esta realidade simples e atuar segundo ela: os povos não são todos iguais e os seus governantes devem ter uma tal realidade em conta, ou passa-se a vida a planear para nunca realizar. O que não pode é seguir-se a exigência de Medina Carreira, porque todos ficaríamos mais pobres e nunca surgiria a desejada colaboração dos portugueses, porque seria sempre em troca de quase nada.


Hélio Bernardo Lopes

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