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12/OUT/2007
Cooperação
Lusofonia, Energia e o Planeta
“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.”
Fernando Pessoa em “Mar Portuguez - O Infante”
Nos últimos
dias, acompanhei em jornais brasileiros e portugueses a grande
euforia causada pela descoberta de uma imensa reserva de petróleo
na costa de Santos. Agora, além de auto-suficientes, seremos
exportadores do “ouro negro”. Para Portugal, sócio em 10% no
empreendimento, apenas a sua parte é uma riqueza inimaginável,
capaz atender ao consumo total do país por cinco anos.
A notícia me fez lembrar de conversas que tinha com professores e
colegas de classe quando estudei em Portugal. Ao conhecer a
realidade nos “dois lados do Atlântico”, fiquei impressionado com
a desconexão existente entre os governos, empresas e universidades
dos países nos setores de energia e ambiente. A duplicação de
esforços era constante e o povo, como sempre, pagava a conta.
Da minha parte, tentei colaborar com alguns “grãozinhos de areia”.
Em 2004 e 2005, apresentei em congressos no Brasil algumas
soluções em transporte coletivo não-poluente que estavam sendo
testadas em Portugal. Para minha surpresa, muitos pesquisadores
renomados não faziam idéia dos avanços lusos na área. Seguiam
congelados no tempo do “atrasado país das padarias”...
Enquanto pensarem assim, perderão grandes oportunidades de
pesquisar e aprender sobre a operação de ônibus a hidrogênio,
veículos elétricos, usinas solares (uma das maiores do mundo está
no Alentejo), centrais eólicas, aproveitamento geotérmico e das
marés na geração de eletricidade. Em todas essas áreas, os
portugueses estão muito à frente dos demais países lusófonos.
Por outro lado, em Portugal, quase fui ridicularizado na
universidade ao propor que o país devia voltar seus olhos aos
biocombustíveis e incentivar o cultivo de oleaginosas e
cana-de-açúcar. Não sou um especialista no assunto, mas acho que
faz todo o sentido para uma nação que depende 100% do petróleo
importado, tem parte do interior praticamente abandonado (além de
algumas ilhas) e clima favorável. Passados alguns anos, vejo que
algumas cabeças começam a mudar...
Se extrapolarmos o tema para a África lusófona e o Timor, as
possibilidades de cooperação ganham ainda mais força. O Brasil é
uma referência mundial na exploração de petróleo em águas
profundas e produção de álcool, tecnologias que podem mudar o
futuro dessas nações. Se os diversos acordos assinados
recentemente prosperarem e outros vierem, tenho a certeza de que
brasileiros, africanos e timorenses terão muito a comemorar.
Eu espero que, além da fundamental aproximação cultural, os
lusófonos de todo o mundo descubram, nos próximos anos, a força
que um passado conjunto e uma língua comum também podem ter na
construção conjunta de um amanhã melhor. E, em dias de “verdades
inconvenientes”, quem sabe não será um caminho até na busca de
soluções capazes de ajudar a salvar o nosso planeta?
Douglas Cavallari de Santana
Jornalista
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