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23/OUT/2007
Corrupção/Portugal
Naturalmente Expectável
Do modo mais naturalmente expectável,
foi como recebi a notícia da Transparência Internacional, de que
Portugal piorou em dois lugares a sua anterior posição em matéria
de corrupção.
Também não constituiu para mim algo de inovador a dita impressão
daquela instituição, de que o crescimento da pobreza apresenta
correlação positiva com o da corrupção. Uma tal conclusão já
Guterres expusera logo ao início do seu Governo.
Sem o receio de errar, atendo-me apenas à natureza das coisas, eu
irei mais longe: para lá do crescimento da pobreza realmente
causar um correspondente da corrupção, esta é também determinada
pelos traços culturais e pela localização geográfica do País,
sendo que os próprios traços culturais também são historicamente
determinados por aquela localização.
Mas o relatório, ao menos nos termos em que foi divulgado, incorre
num erro de semântica, como se pode perceber pelo desenrolar do
caso da alegada corrupção ao nível da nossa Marinha, porque aponta
a sua análise à administração do Estado. Vai mesmo mais longe,
falando em subornos e pagamentos irregulares. De molde que eu
pergunto: mas a funcionários da administração do Estado?
A pergunta tem a sua lógica, porque se há funcionários da
administração do Estado que recebem subornos e pagamentos
irregulares, recebem tais prebendas de alguém... E de quem terá de
ser? Bom, dos que têm negócios privados!
O problema português é simples e conhecido muitíssimo bem por quem
por aqui nasceu e vive: quase ninguém vê com maus olhos a
corrupção. Para se perceber que a coisa é assim mesmo, basta
ponderar sobre esta questão: se o leitor souber que certo
funcionário da administração do Estado recebe luvas e tem uma boa
fortuna ilicitamente conseguida, acredita que vale a pena
queixar-se? Claro que não! Ninguém se mete numa tal, porque nada
mudaria e porque só concitaria sobre si chatices de todo o tipo.
Basta recordar, por exemplo, o que se passou com os arrependidos
das FP 25: ajudaram a desmantelar a quadrilha e foram, afinal, os
que acabaram condenados!
A corrupção em Portugal é altamente vantajosa, mas não só para os
servidores da administração do Estado, antes para quantos saibam
aproveitar bem os mil e um buracos do nosso ordenamento jurídico.
Pois se se quisesse combater a corrupção, na seqüência das
palavras do Presidente Cavaco Silva de 05 de Outubro do ano que
passou, tinha-se seguido o naturalíssimo caminho proposto por João
Cravinho, o único que naturalmente fornece uma solução adequada,
simples e rápida, para o grande cancro social do País!
O que este relatório mostra é o que todos sempre conhecemos: a
corrupção é um ingrediente omnipresente no tecido social
português. Um ingrediente que se combate mal, ao mesmo tempo que
se não contesta nem condena moralmente. É um modo de estar na
vida.
Hélio
Bernardo Lopes
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