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05/OUT/2007
Reestruturação Consular
Consulados Portugueses: Cortando as Raízes
“Diz-me
Se fazem as leis por medida
Pra ficarem na gaveta
E nos fazerem de tolos”
Xutos & Pontapés, banda de rock portuguesa, em "Diz-me”
Em 1985, mudei
com os meus pais para Botucatu, no interior do estado de São
Paulo. Ao chegar na cidade, uma coisa imediatamente me chamou a
atenção: o prédio do Consulado Português. Todos os dias, no
caminho para a escola, admirava a imponência do edifício, as
bandeiras tremulando e os quadros no salão interior.
Acredito que foi nessa altura que aflorou a minha paixão por
Portugal e o meu orgulho em ser, apesar de distante, um
luso-descendente.
Mas, poucos anos depois, o Consulado fechou. O mato começou a
tomar conta do jardim, encheram os muros de outdoors, quebraram os
vidros e os brasões, começaram a aparecer rachaduras nas paredes e
eu tive a certeza de que, algum dia, iria encontrar o “meu prédio”
no chão.
Consegui fazer alguma coisa apenas em 1996, quando trabalhava no
jornal da cidade e publiquei uma matéria denunciando o abandono e
a importância da construção centenária. Como por “milagre”, meses
depois o Consulado estava reaberto e todo reformado. Até hoje,
quando volto à cidade, admiro o prédio com orgulho.
Em Portugal, descobri que, desde 1997, o governo luso planeja uma
saída para essa grande herança que é a sua rede mundial de
consulados (de carreira e honorários). A lei aprovada há dez anos
é fantástica. Previa a informatização dos postos e seu uso também
como pontos de ensino da língua, divulgação histórica, cultural,
turística e empresarial de Portugal. O problema é que, a exemplo
daqui, lá também existem leis que pegam e outras que não...
Para dar uma idéia da força que uma medida como essa poderia ter,
apenas no Brasil, o governo português chegou a ter mais de 50
consulados, presentes em 21 estados brasileiros. Ainda hoje, é a
maior rede de representação estrangeira do nosso país. Esses
postos poderiam estar em contato direto com cerca de 1 milhão de
portugueses e 35 milhões de luso-brasileiros. Imaginou o
potencial?
Mas, depois de dez anos sem conseguir decolar o plano, o governo
português escolheu o caminho mais fácil. Alegou “corte de
despesas” e criou uma nova forma de “reestruturação”, baseada no
encerramento dos postos e criação de “consulados virtuais”. No
Brasil, vão desaparecer as representações oficiais de Belém,
Recife, Porto Alegre, Curitiba e Santos. Deixados “a deriva” há
anos, os consulados honorários também estão sendo progressivamente
fechados.
Diante do inevitável, estou tentando, ao menos, passar a minha
indignação adiante e lamentar o que está acontecendo. Enquanto
muitos se esforçam para fortalecer as integrações lusófonas,
“canetadas lá e cá” colocam tudo a perder.
Daqui há poucos anos, laços centenários construídos por gerações
de cônsules desaparecerão. Grandes intercâmbios nunca serão
concretizados. As bandeiras de Portugal nunca mais serão vistas em
muitas cidades. Os descendentes terão que atravessar o Atlântico
para descobrir as suas raízes. E os portugueses do Brasil estarão
mais abandonados pela sua pátria do que nunca.
Espero ao menos, novamente, conseguir salvar o “meu prédio” em
Botucatu. Além de seguir torcendo para que, algum dia, políticos
com um pouco mais de visão cheguem ao poder nos dois lados do
Atlântico.
Douglas Cavallari de Santana
Jornalista
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