SERVIÇOS >> ARTIGOS

 

Comente este artigo.

» Artigos do Autor

19/DEZ/2007

» Cabo Verde dá o Exemplo

12/OUT/2007

» Lusofonia, Energia e o Planeta

05/OUT/2007

» Consulados Portugueses: Cortando as Raízes

 
 

Artigo » Douglas Cavallari de Santana

05/OUT/2007

Reestruturação Consular

Consulados Portugueses: Cortando as Raízes

“Diz-me
Se fazem as leis por medida
Pra ficarem na gaveta
E nos fazerem de tolos”


Xutos & Pontapés, banda de rock portuguesa, em "Diz-me”

 

Em 1985, mudei com os meus pais para Botucatu, no interior do estado de São Paulo. Ao chegar na cidade, uma coisa imediatamente me chamou a atenção: o prédio do Consulado Português. Todos os dias, no caminho para a escola, admirava a imponência do edifício, as bandeiras tremulando e os quadros no salão interior.

Acredito que foi nessa altura que aflorou a minha paixão por Portugal e o meu orgulho em ser, apesar de distante, um luso-descendente.

Mas, poucos anos depois, o Consulado fechou. O mato começou a tomar conta do jardim, encheram os muros de outdoors, quebraram os vidros e os brasões, começaram a aparecer rachaduras nas paredes e eu tive a certeza de que, algum dia, iria encontrar o “meu prédio” no chão.

Consegui fazer alguma coisa apenas em 1996, quando trabalhava no jornal da cidade e publiquei uma matéria denunciando o abandono e a importância da construção centenária. Como por “milagre”, meses depois o Consulado estava reaberto e todo reformado. Até hoje, quando volto à cidade, admiro o prédio com orgulho.

Em Portugal, descobri que, desde 1997, o governo luso planeja uma saída para essa grande herança que é a sua rede mundial de consulados (de carreira e honorários). A lei aprovada há dez anos é fantástica. Previa a informatização dos postos e seu uso também como pontos de ensino da língua, divulgação histórica, cultural, turística e empresarial de Portugal. O problema é que, a exemplo daqui, lá também existem leis que pegam e outras que não...

Para dar uma idéia da força que uma medida como essa poderia ter, apenas no Brasil, o governo português chegou a ter mais de 50 consulados, presentes em 21 estados brasileiros. Ainda hoje, é a maior rede de representação estrangeira do nosso país. Esses postos poderiam estar em contato direto com cerca de 1 milhão de portugueses e 35 milhões de luso-brasileiros. Imaginou o potencial?

Mas, depois de dez anos sem conseguir decolar o plano, o governo português escolheu o caminho mais fácil. Alegou “corte de despesas” e criou uma nova forma de “reestruturação”, baseada no encerramento dos postos e criação de “consulados virtuais”. No Brasil, vão desaparecer as representações oficiais de Belém, Recife, Porto Alegre, Curitiba e Santos. Deixados “a deriva” há anos, os consulados honorários também estão sendo progressivamente fechados.

Diante do inevitável, estou tentando, ao menos, passar a minha indignação adiante e lamentar o que está acontecendo. Enquanto muitos se esforçam para fortalecer as integrações lusófonas, “canetadas lá e cá” colocam tudo a perder.

Daqui há poucos anos, laços centenários construídos por gerações de cônsules desaparecerão. Grandes intercâmbios nunca serão concretizados. As bandeiras de Portugal nunca mais serão vistas em muitas cidades. Os descendentes terão que atravessar o Atlântico para descobrir as suas raízes. E os portugueses do Brasil estarão mais abandonados pela sua pátria do que nunca.

Espero ao menos, novamente, conseguir salvar o “meu prédio” em Botucatu. Além de seguir torcendo para que, algum dia, políticos com um pouco mais de visão cheguem ao poder nos dois lados do Atlântico.

 

Douglas Cavallari de Santana
Jornalista

» Artigos

» Editoriais / Colunas

» Espaço Leitor

» Agenda


© 2006 Jornal Mundo Lusíada - O melhor veículo de comunicação da Comunidade Luso-Brasileira.
Todos os direitos reservados. Reprodução com citação da fonte.
© 2006 RVR Publicidade - www.rvrpublicidade.com.br