|
02/OUT/2007
Sociedade
Portuguesa
O Momento da Diáspora – 8
Algumas verdades recônditas da
“Revolução dos Cravos”
Promessa é dívida e, por isso,
em complemento à matéria que recebi via e-mail em 30-08-2007,
ainda de autoria do compatriota Rui Silva, emigrante em
Montreal, Canadá,
que aqui narrei no meu último artigo, “O MOMENTO DA DIÁSPORA – 7”,
também destarte tomo a iniciativa de o editar e publicar
transcrevendo-o com o meu comentário ao final, conforme
abaixo, revelando alguns
exemplos relacionados com o ónus da Revolta Comunista de "O 25 de
Abril".
Eis o que nos diz o autor:
– “Estou
fora de Portugal há já 30 anos, precisamente devido aos abusos
sofridos naquela oportunidade. Logo depois de "O 25 de Abril",
trabalhava eu como assessor nas pesquisas de petróleo para a
Sacor em Lisboa. Morava
em Braga e todos os fins de semana pegava o trem de Lisboa,
comprava um bilhete de 1ª classe, com lugar marcado, para poder
descansar aquelas 4 horas de viagem, pois que só chegava a casa
por volta da meia-noite.
Um dia, logo ao princípio das
"amplas liberdades", chego ao compartimento marcado e todos os
lugares estavam tomados por soldados rasos (mesmo que fossem
oficias), dois deles deitados, camisas abertas até às calças, com
as botas sujas em cima dos bancos, garrafas de cerveja. Abri a
porta e, mostrando o meu bilhete disse para o que estava no meu
lugar que se devia levantar pois eu pagara para reservar o
dito lugar.
Foi uma gargalhada geral seguida
de ameaças veladas, tais como: – "Suma daqui. Isso de 1ª classe
acabou", etc., etc.. ...
Fui procurar o revisor que me
respondeu:
– "E o que é que você quer que
eu faça? Se não há lugar na 1ª vá para a 2ª, ora essa agora ..."
Isto é apenas um exemplo. Um dia
um motorista de táxi pós para fora a minha mulher e os dois
filhos, porque estavam esperando por mim. Eu tinha ido à farmácia
e chovia demais. ... Disse ele a minha mulher que tinha mais o que
fazer e que não era meu empregado (?) ... No entanto o taxímetro
estava contando.
Enfim, houve tanta estupidez que
o país acabou por perder muita gente de que necessitava. Não falo
por mim, mas sei que muitos médicos, empresários e cientistas
fugiram com medo. Um médico amigo fugiu para os Estados
Unidos. O seu crime? Tinha um
Porsche. De manhã encontrou o carro sem vidros e praticamente
destruído. E no muro estava escrito: "Hoje é o carro, amanhã é o
otário que o dirigia". Este médico era o maior especialista de
doenças renais que conheci em Portugal, formado em Portugal, Inglaterra
e Estados Unidos. Sei
isto porque salvou a vida da minha filha. Talvez tenham morrido
alguns doentes que não o puderam ter como médico.
Disse-me ele:
– “Trabalho por vezes 14
horas por dia, chamam-me ao sábado e domingo, quer seja dia ou
noite. O meu único prazer era conduzir o meu Porsche. Acabaram com
ele e ainda por cima me ameaçam de morte. Acha que vou ficar?
Por estas e por outras é que
hoje não há “cabeças” em Portugal, salvo raras exceções. Eram
todos fascistas. Por isso é que temos os políticos que temos. Não
há melhor, ou por outra, há melhor mas estão lá fora ou já
morreram lá fora, como o digníssimo professor de Direito
Internacional, o Prof. Dr. Marcelo Caetano.
Muito mais há para escrever
sobre a revolta comunista de “O 25 de Abril”.
A HISTÓRIA se encarregará, mas, para a JUSTIÇA, para essa será
muito tarde. Muitos dos traidores já morreram. E lembrar-me eu que
antes de “O 25 de Abril”
eu era contra a situação. Hoje rio da minha ingenuidade ...
Essas são palavras do Autor.
Meu comentário:
Inicialmente, mais uma vez quero
parabenizar e agradecer ao nosso compatriota e emigrante Rui Silva
em face do seu merecimento pelo escrito acima e pela inspiração
que me proporcionou para tecer este comentário o qual, a meu ver,
o mesmo revela o sentimento da maioria dos verdadeiros Portugueses
inclusive os que as circunstâncias os tornaram emigrantes, que
sabe-se que muitos deles o são contra a sua própria vontade, estou
certo disso.
É inegável, pois é público e
notório, que, em tese, a ordem a moral e os bons costumes antes
existentes em Portugal
foram para o espaço após a Revolução dos Cravos.
Infelizmente esse é um dos “cálices de fel” que a
Democracia nos trouxe atrelado à
sua “carruagem de fogo”. É o preço que inevitavelmente tem de ser
pago quando ocorre uma mudança drástica no sistema político de um
país, haja visto a inexistência da possibilidade de ser
viabilizado um controle sem a coação pela força em face da baderna
gerada que, de imediato, uma revolução sempre provoca. E digo
“carruagem de fogo”, no sentido figurado, porque afinal ela entrou
em Portugal como se fosse
uma verdadeira vaga de fogo que varreu a Nação
de norte a sul e de oeste a leste e cujas conseqüências foram um
“lavar de alma” para muitos e uma verdadeira calamidade para
outros, embora, a meu ver e apesar dos pesares, tenha acabado por
resultar num saldo bastante positivo, vislumbrando-se, então, um
futuro bastante promissor para o Povo
já que havia necessidade de o País
sair do marasmo de uma letargia de cerca de 50 anos a que se
encontrava votado, em face da decadente ditadura salazarista.
Afinal isso era imperativo – e o Povo,
em seu subconsciente, assim o queria – entrar numa nova era, num
novo rumo, o rumo de um mundo novo que posterior e oportunamente
levou o País a aderir à
inevitável globalização que a União Européia
lhe oferecia. De outra forma, dificilmente Portugal
sobreviveria, até porque se viu limitado ao espaço físico tão
decantado como “Jardim da Europa à beira-mar plantado”,
em conseqüência da descolonização. Enfim o mundo mudou e não mudou
só politicamente mas também geograficamente conforme
acontecimentos ocorridos no decurso do século XX e, inclusive, nos
poucos anos do novo século em que estamos vivendo. São outros
tempos. É a senda do progresso cada vez mais acelerado que a
globalização impõem.
Ai daqueles que sendo de outros
tempos mantenham a mentalidade de outrora pois que, certamente,
ficarão deslocados no tempo e no espaço, estagnados e condenados
ao insucesso e à infelicidade por, pura e simplesmente, não se
haverem permitido reciclar as suas mentes e seus corações
empedernidos.
Destaque-se que a garantia da
soberania de um país será tão forte quanto a força da qualidade do
regime político adotado pelo mesmo, porém, desde que o governo
seja praticado de forma cidadã. Primeiro: – na defesa e
preservação dos interesses mais sagrados do Povo
pois que o Povo é a
verdadeira força do País.
Aliás, um País é o
reflexo da qualidade e do bem estar do seu Povo.
E, segundo: – mentalizado nos interesses globais e nas parcerias
que o levem ao progresso político-económico-social. Essa, a meu
ver, é a visão mais simples do que é um verdadeiro País.
Certamente que esse seria o
Portugal que todos os
verdadeiros Patriotas
almejam. E eu, apesar do Atlântico de permeio, garanto que sou um
deles e com muita honra!
Gaspar Nunes
Rio de Janeiro – RJ, Brasil
|