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Artigo » Hélio Bernardo Lopes

18/SET/2007

Esporte

Mais uma das nossas singularidades

 

Os recentes acontecimentos de que foi personagem principal Luís Filipe Scolari vieram reavivar uma memória que parecia ter-se já esfumado, na seqüência dos diversos casos que envolveram jogadores portugueses ao serviço da nossa equipa principal de futebol.

Mas é claro que a causa de um tal comportamento muito singular ao nível de selecções nacionais continuou sempre a estar presente, descendo até a escalões mais baixos do nosso futebol, como se pôde ver recentemente com uma outra equipa nacional de futebol, então dirigida por José Couceiro.

Com graça, sem dúvida, foi então pedida a cabeça do próprio José Couceiro, o que acabou por vir a ter lugar. Em boa verdade, desde que se desse mãos largas à lógica das coisas, que outro rumo poderia ter aquela nossa selecção nacional de futebol de desportistas mais jovens?

O estranho, no meio do desnorte para que Portugal tem vindo paulatinamente a caminhar de há uns anos largos a esta parte, é que boa parte dos que de pronto pediram a cabeça de José Couceiro, pedem agora que se não deite fora a de Luís Filipe Scolari!! Mas vamos, então, à realidade que se pôde observar em directo e de que existe uma imensidão de imagens.

Em primeiro lugar, vem-se constatando esta realidade simples: a prestação da equipa nacional de futebol não pára de descer e de fornecer cada dia piores resultados.

Em segundo lugar, foi possível constatar que o jovem sérvio que foi agredido por Scolari nunca nada teve que ver com Ricardo Quaresma. Estava, até, a grande distância! E mesmo na tal falta sobre Petit, as imagens permitem perceber, em função do carrinho do jogador português, que o seu aleijão se ficou a dever, acima de tudo, ao próprio Petit.

Em terceiro lugar, o jogador sérvio que foi agredido por Scolari começou por ver-se demandado pelo brasileiro, que estendeu o seu braço esquerdo naquele movimento que costuma designar-se na gíria por mandar vir. E foi este gesto de mandar vir que foi contrariado pelo movimento do braço do sérvio. Só depois se dá, de um modo cabalmente despropositado, o soco de Luís Filipe Scolari no futebolista sérvio. Diz-se agora que foi uma tentativa de soco. O Inferno e o Céu, portanto.

Em quarto lugar, a apresentação de desculpas por Scolari. Bom, foi pena que tenha deitado mão desse argumento das ofensas à família, porque tal acto nunca deverá ter tido lugar, ou teria logo sido referido na noite do próprio jogo, no lugar de recorrer a esse outro facto inexistente, qual foi o de defender Ricardo Quaresma. Defender de nada nem de ninguém, claro está. É bom que nos não fiquemos, em matéria de raciocínio lógico e de traços psicológicos, por referências a Kate McCann.

Finalmente, uma tomada de posição que se impõe para o futuro da nossa selecção de futebol: é essencial compreender e aceitar que a era de Scolari está a chegar ao fim, e que se impõe um pensamento estratégico para o futuro do nosso futebol profissional e ao mais alto nível.

Desde que se soube que Scolari seria o líder da nossa selecção que lhe dei o meu mais cabal apoio, chegando mesmo a agradecer-lhe quanto ajudou a realizar por parte da nossa equipa nacional de futebol. Mas tudo tem que ter limites. Portugal, os seus governantes, os seus dirigentes desportivos, os próprios jogadores, não podem dar cobertura a todo o tipo de desmandos de quem quer que seja, passando por cima de realidades objectivas e incortornáveis.

Mas será que o rumo deste barco à deriva vai mudar? Estou certo que não, a ver pelo compreensível mas pouco sensato comunicado dos vinte e três futebolistas que o subscreveram. Quem assim procede, passa a ter, num qualquer amanhã, todo o direito a fazer o mesmo, desculpando-se depois.

As coisas são como são, e tudo aponta para que continuem a ser como sempre foram. A História dos povos tem uma inércia que não deve ser esquecida, e de que só dificilmente se pode fugir. Tudo está, pois, em saber quando voltará a surgir nova cena como esta de Scolari. Com ele ou com qualquer outro. Uma questão de tempo. Uma certeza.


Hélio Bernardo Lopes

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