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Artigo » Hélio Bernardo Lopes

14/SET/2007

Desaparecimento

O caso Maddie

Luis Forra/Lusa

Foto e apelo de procura de criança britânica desaparecida de complexo turístico na praia da Luz, em Lagos. 04 Abril 2007.
 

Determinei-me, finalmente, a escrever um texto sobre o terrível caso do desaparecimento de Madeleine McCann, a já nossa Maddie, que tocou o coração dos portugueses e de quase toda a gente por esse Mundo fora.

Faço-o agora por razões que se podem perceber, mas também pelo modo como fui vendo o desenrolar deste caso e pela sua distribuição no tempo que entretanto passou sobre o desaparecimento da Maddie.

Tal como a grande maioria de todos os que tomaram conhecimento deste caso, também eu admiti a possibilidade desde início aventada, ou seja, a do rapto da menina.

Aí pelo meio do mês de Julho, contudo, surgiu no meu espírito um dado que me pareceu estranho, e que foi o que, em Almeida, logo após o almoço, quando tomava café com famílias amigas, designei por excesso de missas, ou de religiosidade.

Salientei logo de início aos casais amigos, todos já com possibilidade de serem meus pais, que o que lhes ia expor podia ser contundente, pedindo-lhes que ouvissem a explicação da minha hipótese com atenção e sem intervenções.

Não vou agora contar o que ali expliquei, porque este meu escrito é obviamente público e porque aquela conversa era estritamente particular. E voltei mais tarde a expor a outros amigos meus, sempre num clima estritamente particular, o que dissera àquele primeiro grupo.

Este grupo que primeiro ouviu o meu modelo explicativo, de algum modo aceitou a explicação ouvida, não retorquindo minimamente perante as ideias expostas. Mas o mesmo se não deu com o segundo grupo, embora não chegassem a discordar ou a contrapor quaisquer argumentos.

Há, contudo, um dado que é essencial não perder de vista: uma coisa são os modelos explicativos de certo fenómeno, numa perspectiva apriorística e simplesmente conceptual, outra os que derivam de provas de natureza material indiscutível. Como é evidente, eu situei-me, naquela conversa, no primeiro destes dois cenários.

Note-se que aquela minha reação sobre o excesso de missas, ou de religiosidade, simplesmente traduzia a necessidade de rebentar o fortíssimo espartilho em que aquele comportamento religioso se estava a tornar para o exercício mental de quantos acompanhavam as notícias do desaparecimento da Maddie, nomeadamente de mim próprio.

Mas é claro que faltam provas seguras, indiscutíveis, sobre a responsabilidade de quem quer que tenha sido da família McCann um possível responsável pela morte da menina. De resto e ao nível de quem vê este tema a partir de fora, falta tudo o que realmente não é conhecido. Pois se assim não fosse porquê deixar a família inglesa sair do País calmamente e até com a mais que necessária protecção contra julgamentos populares?

Ora, há já uns bons anos, tive a oportunidade de ler a obra de uma senhora francesa, LE PETIT OCTOBRE, onde a autora mostrava como na primeira metade de um julgamento revolucionário nos arredores de Moscovo se apontava o dedo a certo cidadão soviético, e como na segunda, logo após a sua defesa por um companheiro de Lenine, a mesma multidão se passou para o lado diametralmente oposto... Precisamente o que aqui se passou: depois de quase santos e tão apoiados, num ápice se viram apontados como autênticos seres diabólicos!

Não deixa de me espantar o constante argumento da velha promessa de só deixarem Portugal depois do reaparecimento de Maddie, porque tal garantia nunca eu a tomei a sério: como podiam aqueles pais garantir que só sairiam depois da filha reaparecer?! Tudo não terá passado da manifestação de um desejo, um pouco à semelhança dos casais católicos que prometem a Deus não se separar nunca. O problema é que essa promessa pode ser dificilmente realizável. Pode mesmo simplesmente não o ser!

Entendo que o casal McCann fez bem ao deixar Portugal e rumar ao seu país. Porque tem aí a família e porque, ainda que com alguma complicação acrescida, já hoje não será fácil abafar um caso desta dimensão, se acaso alguém o tentar fazer. De resto, em boa hora a Polícia Judiciária enviou aquelas amostras para a instituição inglesa, porque agora o conhecimento dos dados apurados é muito mais vasto. Mas será que tudo isso prova que foram os McCann os autores, porventura por negligência, da morte da Maddie? Bom, só o tempo poderá esclarecer-nos. Até lá, tenhamos presente que o que tantos ontem pensavam ser a verdade, num ápide deixou de sê-lo. E não poderão surgir novos ápices...?


Hélio Bernardo Lopes

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