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06/SET/2007
Tratado UE
Desta vez é David Brown...
Decorreram quase dois meses desde que escrevi o meu último texto
jornalístico de opinião. Dois meses divididos entre trabalho de
âmbito matemático e tempo de férias em Almeida, na companhia de
familiares e de velhos amigos. E até de outros que nunca havia
conhecido.
Desta segunda parte do meu tempo de ausência, e da forte impressão
que durante a mesma recolhi sobre o estado em que hoje se encontra
Portugal, falarei numa oportunidade próxima. Hoje, ficar-me-ei
pelo repisar do meu último grito de revolta, pouco antes de me
ausentar, em torno do prometido referendo ao tratado europeu que
se aproxima.
Lembramo-nos todos da promessa solene de José Sócrates de que
daria aos portugueses a oportunidade de se pronunciarem em
referendo sobre o novo tratado europeu que vai ter lugar. Foi,
dada a natureza do tema, uma promessa central do programa
eleitoral que, com o seu partido, apresentou aos portugueses.
Lamentavelmente, de há muito se pôde perceber que um tal referendo
não virá a ter lugar, e quase certamente em todos os Estados da
União Europeia. E as razões para um tal procedimento prendem-se
com o medo de escutar a vontade dos povos europeus, muito em
particular aqueles mais atentos e interventivos na vida política
dos seus países, perante o desastre social que se aproxima célere.
O argumento apresentado - fraco argumento, diga-se...- foi o de
que se deveria primeiro preparar o tratado, só depois discutindo o
modo de o ratificar. Nem sequer seria possível, diziam os nossos
fracos políticos, referendar o que ainda não existe, como se isso
fosse pedido por alguém!!
Ora, há dias, depois de tantas outras tomadas de posição sobre
este tema por políticos europeus diversos, eis que Gordon Brown
veio a público defender a ideia de que não deverão operar-se
referendos... Ou seja: ainda sem o tratado aprovado, e
contrariamente ao inacreditável argumento dos nossos políticos, os
de lá de fora já se pronunciam sobre o modo de operar a
ratificação do famigerado tratado, que é não o referendar.
Como se pode ver, pois, o distanciamento entre os políticos das
ditas democracias destes dias e os cidadãos que supostamente
representam não pára de aumentar. A acção política que
desenvolvem, alcandorados que foram, por métodos puramente
formais, ao poder, nada tem que ver com o sentimento e as
necessidades dos cidadãos.
E é por ser esta a realidade que as democracias dos nossos dias
estão pelas horas da amargura. Já nem mesmo se põe em causa esta
realidade, tomando-a como algo de natural: antes o cinismo da
democracia que o medo derivado da sua ausência! É, afinal, o que,
para a grande maioria da nossa classe política, resta da vivência
democrática.
Hélio
Bernardo Lopes
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