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03/SET/2007
Protesto
Nua! Toda Nua! No Seio da Igreja!...
Performance duma Artista Alemã na Documenta
Sim! Mesmo sem nada impuro ou artificial a cobri-la! Uma mulher,
na nave da igreja, tal como a mãe a dera ao mundo! Um escândalo
ali, no regaço da Igreja mãe, a filha duma outra mãe, nascida na
polônia gera uma idéia; uma idéia não, um vendaval de idéias que
fazem lembrar dores de parto ou gorjeios de alegria. Enfim, um
acontecer maternal na maternidade Igreja: um grito pelas origens
ou por uma comunidade mais mãe?!
Como de costume, os que precisam de mais agasalho, o agasalho da
cultura, criticam e os que precisam da natureza com os seus
improvisos louvam. Na discussão pública duma imprensa impúdica
cada um procura empacotar aquela obra de arte à sua maneira!
A Igreja evangélica de S. Martinho concorreu para a exposição
mundial de Arte denominada Documenta, com um contributo sob o tema
“O que nos traz (transporta), o que nos suporta (mantém)?” A
artista Patrycia German no âmbito duma performance deixou-se levar
nua por 4 homens em tronco nu, perante um público de 100
espectadores na Martinskirche em Kassel num programa paralelo à
Documenta na representação “80 vs 4”. Com esta performance a
artista diz querer tematizar a falta de defesa bem como o terror
da beleza na nossa sociedade na qual as pessoas são reduzidas a
uma medida ideal. Pelos vistos a artista não queria ofender nem
provocar ninguém. Ela mesma sentiu-se levada pelo público
sentindo-se ao mesmo tempo frágil e indefesa. Talvez os braços da
comunidade sejam demasiado musculosos para não tornar inseguro um
indivíduo cujo escudo é apenas a sua nudez!
Uma performance que na sua singeleza feminina deixa mais matéria
de reflexão e comentários do que a maior parte dos sermões
dominicais que embora doces e humanos parecem continuar
masculinos.
Para uma sociedade civil e uma comunidade religiosa acostumadas a
rituais de nudez rude e a actos de desvergonha, esta Performance
não foi obscena se bem que estranha. Desculpante é o fato da
artista não ter atuado dentro duma ação litúrgica e a paz das
paredes das igrejas parece tudo aguentar.
A Igreja foi durante séculos o lugar de nascimento da arte. Alguns
sentem expressam a necessidade e urgência de a arte em toda a sua
vitalidade voltar à casa paterna, ou melhor, materna. Outros
dormem e ainda outros impacientes procuram abrir as portas sacrais
ao espírito do tempo, promovendo assim um espírito legítimo mas
não oportuno porque contra o Espírito.
Talvez a ação de Patrycia German possa acordar muita gente nas
cúrias para reencontrarem a arte no seu meio e fomentarem artistas
imbuídos do espírito pentecostal que é liberdade. Isto pressupõe
coragem e referência. Muitas instituições e personalidades da vida
pública limitam-se a encostar-se ao nome passageiro de alguns
artistas bem cotizados no comércio público, levados apenas pelo
espírito da moda. Assim perdem a oportunidade de fomentar vocações
artísticas no próprio meio, dançando ao toque do espírito do tempo
servindo-o ingenuamente.
A direção da Martinskirche mostrou coragem manifestando talvez
desta maneira a necessidade da Igreja se abrir à arte e de se
movimentar mais no centro da vida. Uma igreja como lugar aberto ao
mundo e ao público.
Em discussão põe-se um problema de fronteiras e limites, de
sentido e missão. Precisa-se de uma igreja aberta ao profano mas
atenta à profanação. Ela não pode transformar-se no lugar da
entropia e da indiferença. O problema é que a linha de fronteira
entre profano e sagrado passa pela nave central da Igreja e
acontece no centro do Homem. O ser do homem é ser sagrado em
profanidade, uma unidade indissolúvel.
Para quem vê na Igreja um espaço de devoção a liturgia da artista
vem questionar a outra liturgia, a dominical, que se realiza na
igreja considerada própria, como lugar de meditação,
espiritualidade e de diálogo com Deus. Se se procura na igreja
consolação, apoio, sossego, encontro consigo mesmo e vivência de
fé na comunidade, certamente que aquela forma de liturgia pode
perturbar. Além disso, num tem em que um mundo secularista
fanático só procura olhar para a sanita da Igreja, num tempo em
que a Igreja apresenta algumas arranhaduras e demasiada rotina na
sua hierarquia, é compreensível uma certa autodefesa por parte de
muitos. De fato a comunidade paroquial, embora tenha necessidade
dum rosto próprio, não se pode transformar numa sociedade ao som
dos tambores da praça pública. A exitação e reação exageradas
comuns a acontecimentos como este só servem posições e estruturas
instaladas que consideram as pessoas como meios ou como súbditos.
Importante é a tematização do problema da abertura da Igreja e o
seu significado para a pessoa e para a sociedade num diálogo
equilibrado e calmo entre sagrado e profano.
Relevante é que todos tenhamos menos medo de sermos nós mesmos e
de sermos transportados nos braços duma comunidade, confiantes e
sem receio. Então, nem o medo da nudez nem o da roupagem nos
dominará.
Da discussão e da crítica surge mais luz. A esperança é o seu
suporte e o amor, o seu ser. De resto a vida é um escândalo! Só
não se admira quem já resignou, quem já vive no descanso dos
mortos!
Talvez a artista tenha saudade duma comunidade com a vitalidade
manifestada no gesto de Jesus perante os vendilhões do templo.
Para isso ela precisa compreensão e ajuda de todos.
António da
Cunha Duarte Justo
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