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09/AGO/2007
Cotidiano
Jornalista afastado por pressões para não
apurar o maior crime ambiental do Brasil
Este texto visa dar minha versão sobre meu afastamento temporário
do jornal Diário do Grande ABC, para evitar, assim, possíveis
especulações e mal-entendimentos. Serve também para mostrar como é
cada vez mais difícil fazer jornalismo investigativo no Brasil,
principalmente quando os veículos de comunicação dependem tanto de
verbas publicitárias de governos para sobreviver.
Mas, principalmente, porque posso até vir a perder o emprego, mas
não perco uma boa história. E, como fala um grande amigo
jornalista, os bastidores dos fatos são sempre muito mais
interessantes do que as notícias que acabam sendo publicadas.
Por isso, apesar de me encontrar afastado temporariamente, por
motivos médicos, de meu trabalho como repórter especial no Diário
do Grande ABC, continuo reunindo documentos e estudando o caso
Barão de Mauá, maior crime ambiental e de saúde pública da
história do Brasil. Escândalo que envolve, como sempre neste país,
a explosiva combinação de empresas gananciosas, autoridades
omissas e políticos corruptos, além da histórica lentidão e
ineficiência da Justiça brasileira.
Eu trabalhava como editor executivo no Diário na época da explosão
no Condomínio Barão de Mauá, que, em abril de 2000, matou uma
pessoa e feriu outra gravemente. E cuja revelação pela imprensa
foi marcada por uma série de contradições e jogos de
empurra-empurra e escamoteação entre a Prefeitura de Mauá, o
governo do Estado (Cetesb), o governo federal (Ministério da
Saúde) e as empresas envolvidas.
O condomínio de 54 prédios - espécie de minicidade onde moram
1.760 famílias (cerca de cinco mil pessoas) - foi construído no
Parque São Vicente, em terreno de propriedade da Cofap, usado por
20 anos como lixão industrial, onde foi constatada a presença de
44 substâncias tóxicas, cancerígenas e com alto poder explosivo.
Antes de começar a trabalhar no caso novamente, em março deste
ano, li mais de seis mil páginas de processos judiciais e
pesquisas realizadas sobre esse crime por eminentes cientistas e
pesquisadores (toxicologistas, oncologistas, biomédicos,
engenheiros e especialistas em meio ambiente).
Apesar de fortes pressões de alguns envolvidos neste crime, como a
Cetesb - companhia estatal que participou da aprovação da
construção do condomínio, em 1994, apesar das várias multas
aplicadas, nos últimos vinte anos, por depósito de lixo tóxico no
local - e a multinacional Cofap-Magneti Marelli, consegui publicar
algumas matérias sobre o assunto no próprio Diário do Grande ABC,
alertando sobre os graves riscos de saúde que os moradores e seus
familiares correm naquele condomínio, além da vizinhança da enorme
gleba (150 mil metros quadrados) onde se construiu o Barão de
Mauá.
Tive de enfrentar também a contrariedade do promotor Roberto
Bodini, do Ministério Público de Mauá, que demonstrou, conforme
depoimentos de moradores do Barão de Mauá, atitudes estranhas e
contraditórias na condução do processo. Ora ele concordava que a
demolição dos prédios era a melhor solução ora aceitava as
manobras protelatórias dos réus, apesar da sentença da Justiça,
que acatou o pedido do Ministério Público e determinou a retirada
e indenização dos moradores.
Revelei também, recentemente, com exclusividade, um esquema de
contratos ilegais de financiamento de apartamentos desse mesmo
condomínio, feitos pela Caixa Econômica Federal (CEF), com
recursos do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) - ou
seja, com dinheiro dos trabalhadores brasileiros.
Esquema, aliás, que, segundo pude apurar até sair de licença
médica, se repetiu por inúmeros outros condomínios de apartamentos
construídos no Grande ABC e no interior do Estado de São Paulo,
lesando milhares de trabalhadores que usaram seus recursos do FGTS
de anos de trabalho e ainda hoje não possuem o Habite-se nem a
escritura desses imóveis.
Muitos dos quais não receberam até hoje o contrato assinado pela
Caixa Econômica Federal, que retirou o dinheiro do FGTS de suas
contas, repassou às construtoras em condições irregulares e os
abandonou completamente. A Caixa chegou ao cúmulo de negativar
nomes desses moradores em instituições como o Serasa e o SPC,
apesar da fragrante ilegalidade dos negócios intermediados por
essa instituição financeira pública.
Tive acesso a vários volumes do processo administrativo aberto
pela Cetesb, envolvendo a Prefeitura de Mauá, a Cofap e as demais
empresas que participaram desse crime – SQG Empreendimentos,
Paulicoop e Construtora Soma. E a muitos outros documentos
comprometedores que me foram entregues por alguns dos próprios
réus na ação civil pública movida pelo Ministério Público Estadual
e por moradores do condomínio.
Apesar de a Justiça já ter determinado a retirada e indenização
das 1.760 famílias, além da demolição de todo o condomínio, muitas
informações que revelam a gravidade ambiental e de saúde pública
deste caso (que vem sendo abafado por um poderoso jogo de
interesses políticos e econômicos) não foram ainda divulgadas pela
imprensa em geral nem pelo Diário do Grande ABC.
Assim que for liberado de minha licença médica, pretendo publicar
uma série de reportagens sobre o assunto. Planejo até mesmo a
publicação de um livro sobre esse vergonhoso crime ambiental e de
saúde pública, contando os sórdidos bastidores políticos deste
caso. E revelar os dramas pessoais vividos por famílias – algumas
das quais conheci durante esse trabalho - que lutaram toda uma
vida para conquistar o sonho da casa própria, mas ficaram apenas
com doenças e traumas provocados em suas crianças e familiares por
esse pesadelo.
Ou seja, quero contar a história de mais um crime monstruoso
cometido contra os cidadãos deste país movido pela ganância de
algumas empresas em conluio com autoridades e políticos. Tudo isso
tendo como cenário a censura imposta aos veículos de comunicação
pela indústria de processos que se criou no Brasil contra jornais,
revistas e profissionais de imprensa e o poder dos anúncios de
prefeituras e dos governos estadual e federal.
Quero ressaltar que, apesar de estar afastado temporariamente de
minhas funções no Diário do Grande ABC, continuo recebendo
documentos e informações sobre o caso Barão de Mauá pelo meu
e-mail pessoal (celio.franco@uol.com.br). Fatos que pretendo
publicar em breve, se possível no próprio Diário, com todo o apoio
dos atuais sócios - Ronan Maria Pinto, Maury Dotto e Evenson Dotto
-, já que eles têm declarado insistentemente aos leitores e ao
mercado anunciante que desejam recuperar a credibilidade perdida
pelo jornal nos últimos anos.
Peço, apenas, um pouco de paciência porque meu médico indicou-me
resguardo e me proibiu de trabalhar neste caso durante os próximos
dois meses, levando em conta as enormes pressões e o estresse
gerado pelas ameaças de alguns dos réus e pelo agressivo
comportamento do próprio promotor responsável pela ação civil
pública do Barão de Mauá.
E falo isso porque confio muito que momentos como este em que
vivemos atualmente - de virada de página na História do país - não
deve ser desperdiçado, apesar dos resultados finais nem sempre
ficarem à altura das expectativas dos cidadãos que ainda têm um
pouco de vergonha na cara.
Mas confio muito também na capacidade do médico Pedro Katz, que me
assessorou e ajudou a superar outra grande crise no exercício
desta penosa atividade de jornalista, quando investiguei, como
editor executivo no Diário do Grande ABC, o caso Celso Daniel –
prefeito de Santo André assassinado em 2002, logo após assumir a
coordenação política da campanha do então candidato Luiz Inácio
Lula da Silva à Presidência da República e em meio a acusações de
escândalos administrativos envolvendo contratos da Prefeitura de
Santo André e empresários do setor de transportes e de lixo da
cidade.
Célio Franco é
jornalista há 30 anos, com passagens pela Editora Abril, Grupo
Meio & Mensagem e Diário do Comércio e Indústria. Foi editor
executivo do Diário do Grande ABC de 1990 a 2002, para onde voltou
no ano passado como repórter especial, a convite dos atuais
sócios, dentro de um propalado projeto de recuperação de
credibilidade do jornal.
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