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Artigo » Hélio Bernardo Lopes

20/JUL/2007

UE/Tratado

Pelas Piores Razões

Há momentos na vida de cada político em que o melhor é nada dizer, porque desse modo evita a possibilidade de entrar em contradição profunda. É o que se tem vindo a passar, precisamente, com José Sócrates, em torno da sua já histórica promessa solene junto dos eleitores - mais uma...-, de realizar um referendo sobre o novo tratado que poderá vir agora a ter lugar.

Foi enorme a infelicidade do Primeiro-Ministro, ao argumentar como agora se tem vindo a ver, porque ninguém nunca dele esperou que referendasse um tratado que não existe, mas que cumpra a palavra dada aos portugueses, ou seja, de que realizará um referendo sobre o tratado que vai agora ser elaborado.

Como é evidente, a menos que exista já uma estratégia global não reconhecida, de se não realizarem referendos nos diversos países, a verdade é que nada o impede de dizer que cumprirá com a palavra que deu aos portugueses sobre este tema.

Como é evidente, quando José Sócrates assumiu esse compromisso também ainda não existia o referido tratado! O que se sabia é que o mesmo deveria vir a existir e que, nesse caso, a sua aprovação, ou reprovação, seria feita por referendo.

Mas sejamos mais claros: nenhum dos meus leitores imagina que os portugueses vão reprovar o tratado se forem chamados a referendá-lo. E isto porque todos sabemos bem que os portugueses votam clubisticamente, de preferência evitando chatices, ou o regime da Constituição de 1933 não teria por aqui vivido durante quarenta e oito anos.

Diferente é, porém, o que se passa nos outros países da União Européia, onde os eleitores escolhem com alguma atenção, como se viu em França e na Holanda, e como se ía dando, entre tantos outros casos, no Luxemburgo. E este é que é o grande problema que aqui está em jogo...

Como se sabe já bem, e eu logo escrevi no dia da derrota do tratado europeu, o mesmo viria a ser aprovado a qualquer preço. Com mais ou menos malabarismos, o derrotado tratado viria de novo a ser apresentado aos eleitores... Mas, e se os mesmos, apetrechados com o debate sobre tal embuste, o viessem, mais uma vez, a derrotar? Bom, seria uma chatice para os eurocratas, que vivem das chorudas condições criadas por si para si mesmos. Um porra...!

É esta a razão da posição de José Sócrates: pretende-se inviabilizar o diálogo e o esclarecimento sobre o velho tratado, agora apresentado como se tivesse rejuvesnescido, porque o mais certo seria que os restantes povos europeus o viessem a rejeitar de novo, lá onde se decide com a cabeça própria e não com a de quem governa.

Um dado é certo: este tratado que aí vem ficará na História, porque a pobreza crescente já hoje conseguida com o funcionamento desta União Europeia irá continuar a crescer. Um tratado e uma União Europeia nunca construídos, nem realmente ratificados, pelos povos da generalidade dos Estados europeus. Um tratado que é a melhor demonstração de como a dita democracia pode mesmo não passar de um embuste.


Hélio Bernardo Lopes

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