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31/JUL/2007
Eça de Queiroz
Segredo de 162 Anos….
Onde nasceu Eça?
É poveiro!, dizem com orgulho os da
Póvoa. Não senhor: é vila-condense!, contestam os de Vila do
Conde; mas, os aveirenses asseveram: ambos estão equivocados:
nasceu em Aveiro!
Como pode ser isso?! Interroga o leitor, - e mais pasmado ficará
se lhe disser que nem Eça de Queiroz, sabia!
“Eu sou apenas um pobre homem da Póvoa do Varzim” - declara Eça em
carta a Pinheiro Chagas, datada de 14/12/1880; e confirma ao
matricular-se na Universidade de Coimbra; mas a certidão de
casamento e os documentos que apresentou para candidatar-se à
carreira diplomática, declaram ser natural de Vila do Conde.
Mas mais baralhado se fica ao ver a certidão de óbito, escrita em
francês, confirmar: “né à Aveiro”; afirmação que também fez na
carta que escreveu a Oliveira Martins, no ano de 1884: “Filho de
Aveiro, educado na Costa Nova, quase peixe da ria…”
Onde está a verdade?!
Tudo começou em Viana do Castelo. O Dr. José Maria d’Almeida
Teixeira de Queiroz, representante do procurador régio da Vila de
Ponte do Lima, manteve intima relação com a órfã Carolina Augusta
Pereira d’Eça, de 19 anos, que residia em Viana do Castelo com a
mãe, viúva do tenente coronel José António Pereira d’Eça. Desses
amores nasceu o romancista.
Para ocultarem a maternidade assentaram levar a menina para a
residência da irmã, D. Augusta Emília Amélia Pereira d’Eça, casada
com Francisco Augusto Pereira Soromenho, que morava na Praça do
Almada, na Póvoa do Varzim, onde, por certo, a 25 de Novembro de
1845, nasceu Eça.
No sexto dia, após o nascimento, a ama levou-o à Igreja Matriz de
Vila do Conde para ser baptizado pelo Padre Pedro António da Silva
Coelho. O assento, da cerimónia, foi escrito pelo Prior Domingos
da Soledade Sillos.
A estranha certidão declara que é filho de José Maria d’Almeida
Teixeira de Queiroz e de mãe incógnita. E acrescenta, que o pai
não esteve presente.
Tem o documento, carta anexa, endereçada à mãe e escrita pelo pai
da criança, que diz: Por recomendação do avô paterno a criação do
menino fica a seu cargo e promete, oportunamente, matrimoniar-se
com a mãe do bebé.
Terminada a cerimónia, Ana Joaquina Leal de Barros, ama do menino,
levou-o para sua casa e com ele vive, em Vila do Conde, durante
quatro anos.
Entretanto, a 3 de Setembro de 1849, o pai, advogado em Viana do
Castelo, casa, na Igreja do Convento Santo António, com D.
Carolina Augusta, mãe de Eça; sete meses passados (7 de Abril),
avó do futuro escritor, morre em Aveiro, na casa de Verdemilho.
Pouco depois a ama de Eça, faleceu e o menino é entregue ao
cuidado da avó paterna, a Sr.ª D. Teodora Joaquina d’Almeida.
Gondim da Fonseca em “A Tragédia de Eça de Queiroz”, revela que
José Maria foi visto, ainda bebé, em Verdemilho, e não é de
admirar, visto os avós paternos ai residirem.
Como falecesse em 1855 a avó, os pais de Eça, resolveram
matriculá-lo no Colégio da Lapa, no Porto, cujo director era o pai
de Ramalho Ortigão, ficando a residir na Rua de Cedofeita com D.
Carlota Pereira d’Eça, irmã da mãe.
Se o nascimento, por razões óbvias, havia sido escondido, não se
compreende o motivo porque não veio, agora, residir com os pais,
já que eram casados e do enlace haviam nascido três filhos, irmãos
de Eça.
O pai vivia no Porto, era Juiz do 2º Distrito dessa cidade. Nada
impedia de o considerar filho legitimo do casal ou pelo menos
deixá-lo passar os fins de semana em sua casa.
Verdade é que D. Carolina Augusta, estranhamente, não mostrava
interesse em legalizar a situação. Se aceitou casar foi devido à
insistência da mãe.
Mas, uma vez realizado o matrimónio e mãe de três filhos, o que a
impedia de o legalizar?!
Só após o filho a forçar, quando se ia casar com a filha da
Condessa de Resende, a 10 de Fevereiro de 1886, é que o fez a 25
de Dezembro de 1885
Eça escusava-se a entregar a certidão de baptismo a sua noiva.
Numa carta endereçada ao noivo, D. Emília, escreve: “A mamã
recomenda-lhe que traga a certidão de Baptismo e de solteiro, e
não só a mamã lho recomenda, mas também eu, e o Gago e o Cónego
Guimarães, porque sem isso não podemos casar.”
O enlace, que teve o consentimento da família da noiva, foi
realizado quase em segredo. Presentes o padrinho, Ramalho Ortigão,
a Condessa do Covo, a mãe e o irmão da noiva. E os pais do noivo?!
Não apareceram. Dizem que o pai estava doente. E por que os
proclamas só correram em seis freguesias portuenses?!
Os pais de Eça estavam casados, o filho era escritor famoso,
cônsul, portanto não desluzia o brasão da ilustre família da
noiva.
É de notar que quando o editor o informou que pretendia publicar a
biografia, Eça ficou perturbado e apressou-se a escrever a
Ramalho.
Em carta, datada de Newcastre, declara que receia que se venha a
investigar o nascimento e pede ao amigo para que faça essa
biografia e recomenda: “biografia sem elogio é o motto. Se se
tratasse de um artigo para uma revista, eu então francamente
proporia outro Motto: - Elogio sem biografia.”; e noutra passagem:
“ Dados para a minha biografia - não lhos sei dar. Eu não tenho
história, sou como a república do Vale de Andorra.”
Receava Eça que o editor solicitasse dados biográficos a Gervásio
Lobato, casado com sua prima, Maria das Dores Pereira d’Eça e
Albuquerque.
Em Vila do Conde consta que Eça nasceu no solar de Pizarro
Monteiro: No livro “A Sombra de Eça e de Camilo”, Manuela de
Azevedo refere-se a esse segredo, nunca confirmado, que a família
conhecia, mas não divulgava.
Para remate é bom frisar que o pai não esteve presente: no
baptismo, no casamento, nem no funeral!
Qual a razão?! Já que o pai correspondia-se com ele! O que
impediria a uma mãe, a um pai, casados legalmente, de reconhecerem
o primogénito?!; famoso romancista, embaixador em Paris e ligado
por laços matrimoniais à ilustríssima e nobre família dos Condes
de Resende?!
Será que um dia é revelado? Já que o mau feitio da mãe, não é
explicação para tal procedimento.
Humberto Pinho
da Silva
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