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05/JUL/2007
Portugal/OTA
Um Tema que se tornou cômico
Não deverão ser muitos os portugueses que não tenham descoberto,
na omnipresente questão do novo aeroporto internacional de Lisboa,
o lado cômico que, em todo este entretanto de há pouco mais de
dois anos, o mesmo veio a adquirir.
De um modo claramente injusto, o atual Ministro das Obras
Públicas, Mário Lino Soares Correia, tem vindo a ser inculpado por
mil e um factos que, se vistas as coisas com atenção, nem lhe
podem ser atribuídos.
Conheci o atual ministro antes do 25 de Abril, quando eu
tirocinava no LNEC e, sob sua direção, com ele partilhava o mesmo
gabinete. E como sempre pude facilmente perceber, tratava-se de um
engenheiro com elevada formação científica e técnica e que fizera
um pouco antes um mestrado em Hidráulica na Universidade do Estado
do Colorado, em Fort Collins.
Mas este seu modo de intervir, sempre fogoso e enérgico, até o
modo como ainda hoje se move, já lhe eram muito próprios naquele
tempo, materializando-se, entre outros aspectos, numa torrente
criativa e de interesses que custava acompanhar, ou mesmo criava
perturbação.
Recordo três episódios que vivi com Mário Lino Correia. O
primeiro, teve lugar na rua do Salitre, em Lisboa, quando nos
encaminhávamos para o seu carro, com alguns volumes anuais dos
Annals of Mathematical Statistics, que requisitáramos, em nome do
LNEC, a fim de aqui os fotocopiarmos e assim completarmos a
colecção.
O segundo, a nossa presença nas provas de doutoramento de Luís
Valadares Tavares, que tiveram de ser realizadas na então Escola
Superior de Medicina Veterinária, mesmo ao lado da sede da Polícia
Judiciária, dado que o Instituto Superior Técnico se encontrava
encerrado pelas autoridades competentes. E também da análise
comparativa que alguns colegas de Mário Lino estabeleceram entre
ele e o doutorando, por acaso, favoráveis ao actual ministro.
Por fim, o nosso almoço em Pombal, no histórico restaurante que
sobrepassava a Linha do Norte da CP, imediatamente antes de irmos
observar uma cheia que, não atingindo ainda o Mondego, chegara já
aos seus afluentes. Um almoço com preço fixo e comer sem outro
limite que não fosse a capacidade de gula. Em todo o caso, um
almoço onde muito se falou de política e que recordo com saudade.
Mas a verdade é que o tema do novo aeroporto internacional de
Lisboa atingiu uma imagem de comicidade, porque tudo é ou deixa de
ser quase em simultâneo. O próprio ministro acabou por se ver na
situação de se mostrar aberto a todo o tipo de propostas que algum
grupo possa determinar-se a apresentar-lhe!
Haverá de compreender-se que se trata de um modo sui generis de
tratar um tema desta natureza, porque o que é normal é abrir o
mesmo ao debate público, apontando grandes linhas de orientação
estratégica, assim procurando enriquecer a ideia inicial com
outras válidas, mas sendo o Governo, ao final das contas todas, a
decidir o que fazer, como e onde.
Ora, o que se tem vindo a ver só tem comparação com o histórico
caso das figuras rupestres do Côa, as tais que não sabiam nadar. O
mesmo, pois, que se passa agora com os terrenos da Ota, de que
também se pode dizer que não sabem voar.
E é por tudo isto, e por quanto ainda se deverá vir a assistir,
que o tema se tornou já cômico. Basta falar com quem quer que seja
e colocar a questão: então que me diz a tudo isto, do aeroporto na
Ota? Ao que a resposta vem de pronto: eu já não percebo nada desta
história, ninguém se entende, diz-se e desdiz-se!
O estranho, para mim, é como foi possível ao Governo de José
Sócrates desbaratar um capital político favorável de quarenta
anos! Chegou com o chão coberto de mosaicos dourados, e já hoje os
mesmos se vêem sujos e completamente bronzeados. É obra! Obra
política, não obra pública, claro está. É obra da nossa dita
democracia...
*Artigo publicado em ECO DE VAGOS, O INFORMATIVO, JORNAL DO
ALGARVE, ECOS DA MAROFA, TERRAS DO VALE DO SOUSA, O POVO DO
CARTAXO, O VALENCIANO, ECOS DE BOTICAS, NOTÍCIAS DO PAIVA,
PORTUGAL POST, AUDIÊNCIA.
Hélio
Bernardo Lopes
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