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Artigo »Arthur Rollo

18/JUL/2007

Atualidade

O capitalismo selvagem e o novo acidente da TAM

Mais uma tragédia, mais de duzentas vidas jogadas no lixo e, agora, estão todos em busca de culpados. Sem dúvida alguma, também esse acidente é reflexo da política do “relaxa e goza”, semelhante àquela que já não deu certo no passado do “laisser faire laisse passez”.

O Estado que, segundo o art. 170 da Constituição Federal, deveria intervir da economia para reprimir o lucro exagerado, vem acompanhando inerte os acontecimentos.

Há tempos, bem antes do acidente da Gol, vivemos problemas sérios de controle aéreo e nada foi feito até que os inúmeros quase acidentes foram substituídos por um acidente real. Há tempos, muito antes desse novo acidente da TAM, vivemos problemas com a pista e com o aeroporto de Congonhas e, mais uma vez, nada foi feito.

A situação do aeroporto de Congonhas é fruto da inação das autoridades porque este, quando foi construído, mantinha distância segura em relação às residências. A omissão do Estado no exercício do seu dever de fiscalizar e de cumprir as leis de uso e ocupação de solo permitiu que o aeroporto de Congonhas ficasse encravado em uma área eminentemente residencial e comercial.

Se o acidente acontece de um lado, o avião cai no Jabaquara. Se o acidente acontece de outro, o avião cai em Moema. Esse risco assume ainda maior vulto em razão do gigantesco número de vôos, do tamanho diminuto das pistas e das suas imperfeições.

Vimos diversos relatos na imprensa sobre o fato das pistas serem escorregadias, de aviões derraparem, de incidentes e acidentes de menor vulto terem acontecido e, mais uma vez, nada foi feito.

Isso é o resultado de uma política de capitalismo selvagem, que sobrepõe o lucro à vida, os interesses econômicos aos interesses da população.

Há tempos os residentes no entorno de Congonhas são prejudicados com a poluição sonora e com a poluição atmosférica decorrentes das inúmeras decolagens, que a cada dia ocorrem em um espaço mais curto de tempo.

Os interesses econômicos das empresas aéreas e da própria Infraero, que recebe de cada passageiro a taxa de embarque, vêm se sobrepondo à segurança dos consumidores e daqueles que trabalham e residem nas imediações do aeroporto.

Seria muito mais lógico e razoável que pesados investimentos fossem feitos no aparelhamento do Campo de Marte, e na ampliação do aeroporto de Guarulhos, a fim de desconcentrar os vôos. Que fosse escolhida uma área para a construção de um novo aeroporto até.

Ao revés disso, preferiram as nossas autoridades investir no já saturado aeroporto de Congonhas e, pior, liberaram a pista principal para operação, mesmo em dias de chuva, sem equipamentos de segurança obrigatórios.

E de quem é a culpa?
A culpa é de todos, principalmente das autoridades e das empresas aéreas, mas também dos passageiros, que insistem, por questão de comodidade, em voar a partir e para Congonhas.

A tragédia foi anunciada e somente agora fala-se em fazer algo, que não é fechar o aeroporto de Congonhas. As nossas autoridades só fazem algo, literalmente, quando é para apagar incêndio.

Após certo tempo, a questão cai no esquecimento e as medidas deixam de ser implementadas, a exemplo do que aconteceu com o acidente da Gol. O que efetivamente foi feito de lá para cá?

Famílias e amigos ficam sem seus entes queridos, mas a vida tem que continuar. No nosso regime capitalista, até mesmo uma vida é passível de indenização. Resta agora apenas quantificar quanto valeram essas vidas, a exemplo do que já aconteceu em outros acidentes.

Esperamos que esse acidente sirva para evitar inúmeros outros e que providências efetivas sejam adotadas, a fim de que o respeito à vida, à saúde e a segurança, que são os valores constitucionais mais importantes, sejam priorizados ao lucro.


*Artigo em homenagem ao amigo Alexandre Catussatto, funcionário da Tam Express, desaparecido após o acidente.

 

Arthur Rollo
Advogado especialista em Direito do Consumidor

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