|
18/JUL/2007
Lusofonia
Recordando um Grande
Brasileiro: Ovídio da Cunha
História de
um grande artífice da Comunidade Lusófona
Na História dos nossos povos, o português e o brasileiro, sempre
houve personalidades que se impuseram, sobrepondo-se à massa
amorfa dos indiferentes ou dos pouco interessados na constituição
de uma autêntica comunidade supranacional. E, no entanto, pode
dizer-se que o Brasil nasceu como Nação independente -
pacificamente, sublinhe-se - porque já naquele tempo era aguda a
consciência da necessidade, para não dizer da urgência, de
defender um patrimônio cultural comum e diverso das contingências
políticas.
O Brasil, em vias da independência, foi buscar a Portugal, mais
concretamente aos corpos docente e discente da, muitas vezes,
centenária Universidade de Coimbra, os cérebros maiores e os
impulsos mais generosos do seu movimento emancipatório, fato que
hoje é simplesmente esquecido dos lados de, cá e de lá do
Atlântico.
A Universidade de Coimbra, também Alma Mater do Brasil, poderia
hoje simbolizar a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, não
fosse! m os tempos propensos, nas nossas terras, a modismos
culturais. Preferiu-se, sim (e talvez isso fosse indispensável,
sabe-se lá) constituir uma Comunidade de base política, de Governo
para Governo, de Chefe de Estado para Chefe de Estado... Assim a
concebeu e pôs de pé o seu grande idealizador, cujos méritos,
aliás, nunca poderão ser negados. Refiro-me a José Aparecido de
Oliveira, um mineiro (e portanto herdeiro de uma respeitável
tradição cultural), que no entanto preferiu assentar a Comunidade
em bases burocráticas e estatais.
No entanto, outra opção estaria ao nosso alcance, quem sabe se
mais frutuosa e com certeza muito mais sólida, que seria a de
fundamentar a Comunidade (não só mais luso-brasileira, note-se
bem) na imensa comunidade dos homens de pensamento, dos homens que
criam as idéias que vão fazer andar (ou desandar) os povos
inseridos na grande comunidade que hoje se quer global. Em vez de
tratados e reuniões de Chefes de Estado, teríamos assim uma grande
re! de de inteligências unidas pelos extraordinários meios de
comunicação instantânea, estabelecendo conexão numa mesma língua e
comungando de uma cultura com a maioria das bases filosóficas em
comum.
Optou-se pelo outro caminho. E talvez com fortes razões. Porque é
o caso de nos perguntarmos onde estão hoje as inteligências que
pensem solidamente "em lusíadas". Uma das últimas, e certamente
das mais poderosas, deixou-nos já há alguns anos, o Professor
Ovídio da Cunha, sobre o qual escrevi em tempos: "a Comunidade dos
Povos de Língua Portuguesa (...) deve e deverá ao Prof. Ovídio da
Cunha ‘Um lugar proeminente – na sua galeria de grandes vultos
pré-monitores e construtores. Com os seus ensaios, lições,
artigos, livros, conferências, preleção e aulas, o eminente
Professor lançou os alicerces da grande Comunidade (...)e, ao
mesmo tempo, lhe forneceu as paredes do conhecimento e o teto da
filosofia. Sem o Prof. Ovídio da Cunha, a Comunidade dos Povos de
Língua Portuguesa seria outra coisa. Mais pobre, menos culta,
menos civilizada".
Pois falta-! nos agora Ovídio da Cunha, e que falta nos faz! Ele
foi uma daquelas inteligências, culturas e personalidades de
vastíssima abrangência, autor de obras que cobriram por assim
dizer todas as vertentes do humanismo, a sociologia e a
antropologia, a psicologia, a história, a política, a estética, a
lingüística, a etimologia, a lógica, a ética, a didática, o
direito, a geografia e até a economia. Foi ele um dos raros
espíritos enciclopédicos que ainda subsistiam no mundo lusíada,
espírito eminentemente cultural num tempo em que se começa a
difundir a confusão entre cultura e informação. Não faltam hoje
eminentes pedagogos que propagam a idéia de que os "data", da
Internet ou outros, fornecedores de fatos em toda a sua nudez,
podem substituir o espírito crítico, a análise, a comparação, o
relacionamento, o inteligere que é muito mais do que o simples
conhecimento factual. Ovídio da Cunha era o protótipo do homem
inteligente, que tinha a hoje rara singularidade de o ser ! dentro
de um contexto eminentemente lusíada.
A falta que faz Ovídio da Cunha à Comunidade Lusíada não temos
como pesá-la: homem solitário, ele foi presidente do Elos Clube do
Rio de Janeiro, e do seu Conselho Superior. Foi conferencista e
palestrante em inumeráveis eventos que envolvessem a lusitanismo,
autor de livros e artigos em que superiormente analisou a nossa
contribuição à estrutura e ao entendimento do uni¬verso em que
vivemos. Alguns desses livros, o Elos Clube do Rio de Janeiro teve
a honra de pro¬mover a sua publicação: "Ementa da Cultura
Luso-Brasileira", "Fundamentos da Luso-Brasilidade", "Sagres - o
segundo choque cultural do Ocidente" ( que tive a honra de
prefaciar) e, ainda no prelo, por lançar, "O destino da Língua
Portuguesa".
Com a morte de Ovídio da Cunha não saiu do nosso convívio apenas
um homem excepcionalmente ilustrado e criativo, um amigo cordial,
um coração bondoso: perdeu a Comunidade Lusíada uma das suas
figuras de proa e a cultura dos povos de língua portuguesa um dos
seus mais entusiásticos e capacitados ! construtores e defensores.
Fica-nos a sua obra. Que ela frutifique, é o que nos resta
esperar.
António
Loulé
Ex-Presidente do Elos Clube do Rio de Janeiro
|