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Artigo » António Loulé

18/JUL/2007

Lusofonia

Recordando um Grande Brasileiro: Ovídio da Cunha

 

História de um grande artífice da Comunidade Lusófona

Na História dos nossos povos, o português e o brasileiro, sempre houve personalidades que se impuseram, sobrepondo-se à massa amorfa dos indiferentes ou dos pouco interessados na constituição de uma autêntica comunidade supranacional. E, no entanto, pode dizer-se que o Brasil nasceu como Nação independente - pacificamente, sublinhe-se - porque já naquele tempo era aguda a consciência da necessidade, para não dizer da urgência, de defender um patrimônio cultural comum e diverso das contingências políticas.


O Brasil, em vias da independência, foi buscar a Portugal, mais concretamente aos corpos docente e discente da, muitas vezes, centenária Universidade de Coimbra, os cérebros maiores e os impulsos mais generosos do seu movimento emancipatório, fato que hoje é simplesmente esquecido dos lados de, cá e de lá do Atlântico.
A Universidade de Coimbra, também Alma Mater do Brasil, poderia hoje simbolizar a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, não fosse! m os tempos propensos, nas nossas terras, a modismos culturais. Preferiu-se, sim (e talvez isso fosse indispensável, sabe-se lá) constituir uma Comunidade de base política, de Governo para Governo, de Chefe de Estado para Chefe de Estado... Assim a concebeu e pôs de pé o seu grande idealizador, cujos méritos, aliás, nunca poderão ser negados. Refiro-me a José Aparecido de Oliveira, um mineiro (e portanto herdeiro de uma respeitável tradição cultural), que no entanto preferiu assentar a Comunidade em bases burocráticas e estatais.


No entanto, outra opção estaria ao nosso alcance, quem sabe se mais frutuosa e com certeza muito mais sólida, que seria a de fundamentar a Comunidade (não só mais luso-brasileira, note-se bem) na imensa comunidade dos homens de pensamento, dos homens que criam as idéias que vão fazer andar (ou desandar) os povos inseridos na grande comunidade que hoje se quer global. Em vez de tratados e reuniões de Chefes de Estado, teríamos assim uma grande re! de de inteligências unidas pelos extraordinários meios de comunicação instantânea, estabelecendo conexão numa mesma língua e comungando de uma cultura com a maioria das bases filosóficas em comum.


Optou-se pelo outro caminho. E talvez com fortes razões. Porque é o caso de nos perguntarmos onde estão hoje as inteligências que pensem solidamente "em lusíadas". Uma das últimas, e certamente das mais poderosas, deixou-nos já há alguns anos, o Professor Ovídio da Cunha, sobre o qual escrevi em tempos: "a Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa (...) deve e deverá ao Prof. Ovídio da Cunha ‘Um lugar proeminente – na sua galeria de grandes vultos pré-monitores e construtores. Com os seus ensaios, lições, artigos, livros, conferências, preleção e aulas, o eminente Professor lançou os alicerces da grande Comunidade (...)e, ao mesmo tempo, lhe forneceu as paredes do conhecimento e o teto da filosofia. Sem o Prof. Ovídio da Cunha, a Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa seria outra coisa. Mais pobre, menos culta, menos civilizada".


Pois falta-! nos agora Ovídio da Cunha, e que falta nos faz! Ele foi uma daquelas inteligências, culturas e personalidades de vastíssima abrangência, autor de obras que cobriram por assim dizer todas as vertentes do humanismo, a sociologia e a antropologia, a psicologia, a história, a política, a estética, a lingüística, a etimologia, a lógica, a ética, a didática, o direito, a geografia e até a economia. Foi ele um dos raros espíritos enciclopédicos que ainda subsistiam no mundo lusíada, espírito eminentemente cultural num tempo em que se começa a difundir a confusão entre cultura e informação. Não faltam hoje eminentes pedagogos que propagam a idéia de que os "data", da Internet ou outros, fornecedores de fatos em toda a sua nudez, podem substituir o espírito crítico, a análise, a comparação, o relacionamento, o inteligere que é muito mais do que o simples conhecimento factual. Ovídio da Cunha era o protótipo do homem inteligente, que tinha a hoje rara singularidade de o ser ! dentro de um contexto eminentemente lusíada.


A falta que faz Ovídio da Cunha à Comunidade Lusíada não temos como pesá-la: homem solitário, ele foi presidente do Elos Clube do Rio de Janeiro, e do seu Conselho Superior. Foi conferencista e palestrante em inumeráveis eventos que envolvessem a lusitanismo, autor de livros e artigos em que superiormente analisou a nossa contribuição à estrutura e ao entendimento do uni¬verso em que vivemos. Alguns desses livros, o Elos Clube do Rio de Janeiro teve a honra de pro¬mover a sua publicação: "Ementa da Cultura Luso-Brasileira", "Fundamentos da Luso-Brasilidade", "Sagres - o segundo choque cultural do Ocidente" ( que tive a honra de prefaciar) e, ainda no prelo, por lançar, "O destino da Língua Portuguesa".


Com a morte de Ovídio da Cunha não saiu do nosso convívio apenas um homem excepcionalmente ilustrado e criativo, um amigo cordial, um coração bondoso: perdeu a Comunidade Lusíada uma das suas figuras de proa e a cultura dos povos de língua portuguesa um dos seus mais entusiásticos e capacitados ! construtores e defensores.
Fica-nos a sua obra. Que ela frutifique, é o que nos resta esperar.

António Loulé
Ex-Presidente do Elos Clube do Rio de Janeiro

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