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14/JUN/2007
10 de JUNHO de 1580
(Morro com a Pátria - Luís Vaz de Camões)
Atribui-se a um dos três maiores poetas épicos da Terra, e de
todos os tempos - o nosso Camões - a afirmação acima, que teria
proferido no seu catre pouco antes de morrer, assistido por seu
fidelíssimo criado, o qual, segundo a tradição, teria pedido
esmola para reforçar a minguada tença (pensão) atribuída pelo rei,
que dois anos antes tinha desaparecido nas escaldantes areias de
Al Kacer Quibir, onde tinha desavisadamente arrastado consigo
quase 20.000 combatentes, dos quais perto de 10.000 foram mortos e
outros tantos feitos prisioneiros. Foi esse talvez o maior
desastre militar das forças portuguesas em todos os tempos, e
causa próxima da perda da independência, dois anos depois; essa
foi a morte a que aludiu Camões. Criador do personagem do "Velho
do Restelo", sensato, experiente e prudente velhinho de brancas
barbas - que vendo partir as naus e caravelas em que embarcavam os
portugueses válidos, muitos para não mais voltar - Camões, também
ele, tinha a vivência e o saber de experiência feito, que lhe
permitiam enxergar os graves erros da governação, semelhantes às
actuais OTAS, e outras lorotas, que os sensatos recriminam, mas a
que os "ousados" fazem "ouvidos de mercador".
Tudo isto porque hoje não estudam história - exames são por
telefone - promovem-se sem glória - reproduzem-se por clone.
Luís Vaz de Camões, perto dos vinte anos - de Coímbra voltou a
Lisboa com muita instrução e informação; disso são prova os
profundos conhecimentos de história e geografia, dos clássicos e
da mitologia, dos homens e da psicologia, que nos revela em "Os
Lusíadas" e, ainda, na sua vastíssima obra lírica, bem como nos
três autos que nos deixou - para frequentar o Paço ou Corte, onde
brilhou, encantou, se apaixonou e se fez apaixonar. Mas, por ser
brilhante, atraiu contra si a inveja dos medíocres, a ira dos
incapazes, a raiva dos sem talento, o ciúme dos pobres de
espírito, pois são sempre poucos aqueles que têm a coragem de
manter a nobreza de carácter perante os seres superiores. Por isso
- na primeira oportunidade - foi desterrado para Santarém,
Constância, talvez Abrantes, e obrigado e uma "comissão de
serviço" em Ceuta, sua grande desgraça, seu castigo maior, pois
ali perdeu a vista direita em combate, causando-lhe feia
deformidade, depois motivo de chacota por parte dos inimigos antes
invejosos. Mal recebido em Lisboa, ironizado, ridicularizado,
Camões refugiou-se na boemia, na noite, na arruaça, na aventura,
até que certa tarde - na procissão da Mouraria - puxou da espada e
golpeou o cavalariço do rei, então crime duplo, por ser em
cerimônia religiosa. Logo foi preso no Tronco (prisão do pátio do
mesmo nome, do lado do Teatro D. Maria II, na Rua das Portas de
Santo Antão, na Baixa Lisboeta), onde permaneceu até o "perdão",
com a condição de embarcar para as Índias. Foi um degredo
simulado, tornando-o um expatriado forçado.
Entretanto, a pena que lhe foi imposta (desterro ou degredo),
acabou sendo a causa da sua fonte de inspiração, da sua grande
oportunidade, por lhe conceder experiência, tempo e lugar para a
CRIAÇÃO da sua GRANDE OBRA, que a tradição diz ter sido escrita na
Gruta de Macau, mas que uma rara obra que sobre ele possuo, mostra
ter sido também em Goa, pois exibe um também raro retrato do Vate
na prisão da cidade, sentado a uma tosca mesa, sobre a qual se
encontram uma tigela, tinteiro e duas penas e papel já escrito,
retrato que os especialistas afirmam ser talvez o único retrato de
Camões para que ele posou!. De qualquer modo, o nosso herói pelas
índias combateu, sofreu, navegou, a Macau aportou como Provedor
dos Defuntos e Ausentes, naufragou na foz do rio Mekong no seu
regresso a Goa, para anos mais tarde, se embarcar, de favor, para
a Ilha de Moçambique, onde no ano seguinte o encontrou seu amigo e
companheiro escritor Diogo do Couto "tão pobre que vivia de
esmolas", quando lhe arrumaram algmas roupas e o embarcaram para a
Pátria. Como foi difícil, dura, traiçoeira, mesmo humilhante, a
vida de um dos maiores portugueses de todos os tempos!!!. Da ilha
de Moçambique (talvez de algum vão de sua magestosa fortaleza,
onde dormia, mas onde teria conseguido fazer a revisão de "Os
Lusíadas") seguiu o nosso Poeta Maior para Lisboa, decerto a bordo
de uma daquelas naus de porões não divididos, sem WC, sem cama ou
colchão, comendo o que conseguia, mas carregando consigo a
preciosidade que eram "Os Lusíadas", que tanto lucro dariam mais
tarde aos editores e livreiros do Mundo!!!. E tudo continua como
dantes, no quartel de Abrantes!!!.
Uma vez em Lisboa, conseguiu finalmente editar "Os Lusíadas"
(1572), após o que - ainda miseravelmente, segundo a tradição -
viveu mais oito anos, pobre e desamparado, sem o mínimo conforto
devido a um velho e doente combatente, e sem saborear o gostinho
da glória merecida mas ainda não convenientemente reconhecida!.
Que diferença para os "eleitos" de nossos tempos, aos quais falta
gênio mas sobram mordomias; a quem falta dignidade, mas sobram
facilidades; a quem falta talento mas sobra rendimento; a quem
falta carácter mas sobram palanque e horas de televisão; aos quais
falta espiritualidade mas sobra desonestidade, enfim, que
monstruosa diferença, entre o tratamento dispensado pela Pátria
Madrasta aos boys de São Bento e aos expatriados, que é de ontem,
de hoje e decerto será de amanhã, pois quem emigra sofre com
dignidade, resiste com coragem, e não se baixa a migalhas, não
perde a postura, jamais se vende, por ter uma alma pura.
Camões, grande Camões, quanta grandeza
Patenteias em teus versos de eleição
Nos quais cantas, com teu nobre coração
Nossa fidalga gente portuguesa
Camões, triste Camões, quanta nobreza
Se esconde na tua obra de excepção
Quando narras com sublime exaltação
Os feitos da nossa Pátria portuguesa
Com ela e por ela tu sofreste
Muita dor, injustiça e humilação
Em tua vida pobre e amargurada
Para morreres do modo que viveste
Pois a Ela t´ imolaste em doação
Nas mãos alternando a pena e a espada
Homenagem aos verdadeiros patriotas;
José Verdasca
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