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14/JUN/2007
Dia da Igreja
Um exemplo de sociedade plural viva
Na Alemanha realiza-se todos os anos o
“Dia da Igreja” onde os leigos se encontram sob orientação leiga.
São dias de diálogo e encontro, foro e festa para todos e para
cada um em particular. Nos vários fóruns e iniciativas participam
os mais altos representantes da política, da vida social,
religiosa e representantes das mais diversas posições e tendências
relevantes na Alemanha.
Os “Dia da Igreja” quer evangélicos quer católicos são verdadeiras
oficinas práticas onde se discute em diálogo aberto, se exercita a
comunidade e se prepara o futuro. Aqui assentam-se uns ao lado dos
outros: representantes religiosos, políticos, cientistas,
combatentes pela paz, donas de casa, pais, párocos, jovens,
idealistas e ativistas, todos numa atitude de aprender uns dos
outros e de transmitir a própria palavra num clima calmo, só duro
no questionar.
Este ano, o Dia da Igreja Evangélica decorreu em Colónia de 6 a 10
de Junho com 3.400 realizações (exposições, celebrações,
manifestações, workshops, etc...). Contou com inúmeros visitantes
além dos cento e dez mil participantes permanentes provenientes de
paróquias e outras organizações. Os 110.000 participantes
permanentes viveram hospedados em famílias particulares, como já é
tradição.
O governo da Alemanha participou em peso e a chanceler Merkel
afirmou apostar numa política dos pequenos passos que não se
refugie em sentimentos salvíficos com os quais se adiam muitas
vezes os problemas do mundo. Espiritualidade e responsabilidade
pelo mundo andam juntas.
Temas marcantes da religião e da política são abertamente
discutidos entre responsáveis diretos e simples participantes.
Estes vão do sexo na velhice à globalização. Resumindo entre
outros: “não deixeis o dinheiro governar”; direitos humanos
desprezados em Guantánamo, Chechénia, Dafur, etc; crítica ao fato
da Rússia, China e USA não reconhecerem o Tribunal Internacional
em Den Haag; islão entre delimitação e perfilamento; Deus não é
cristão, muçulmano nem budista; o mercado instala a desgraça, é
preciso acabar com a escravidão de salários desumanos; a
globalização deve ser para todos; combate à pobreza; criação dum
banco para os pobres; necessidade duma mudança na atitude
interior; a Igreja quer construir pontes; etc.
Depois de tanto tempo de abandono da praça pública à inércia e aos
neo-marxistas vai sendo tempo da cristandade (teístas e ateus) e
outras forças deixarem de se fechar na interioridade. É preciso
arregaçar as mangas e tornar-se mais activo na construção dum
mundo melhor. A sociedade precisa de todos na tolerância e no
respeito como pressuporia um modo de estar cristão no mundo.
O mundo não é pertença dos que o dominam. Ele foi usurpado à
humanidade construindo-se um mundo paralelo em que a mais valia de
uns se deve à desvalorização dos outros através dum sistema
desumano. Urge entrar em diálogo sério entre as pessoas ao nível
da humanidade de cada um e não a nível dos sistemas já
desnaturados. É preciso entrar em diálogo mesmo com os terroristas
e talibans como solicita Jesus ao dizer “amai os vossos inimigos”
e como defende o presidente do “Dia da Igreja”, antigo presidente
do Estado Sachsen-Anhalt, ao afirmar: “também os inimigos se devem
sentar à mesa das negociações”.
O cardeal Karl Lehmann referiu-se aos temas que separam o
catolicismo do protestantismo e vice-versa – participação comum
válida na liturgia dominical, reconhecimento mútuo do casamento e
eucaristia comum – que deveriam ser tratados com mais urgência.
O arcebispo e Prêmio Nobel da paz Desmond Tutu dirigiu, do Dia da
Igreja, uma missiva evangélica ao Grupo dos Oito com as
palavras:”Eu sou um africano. Sou um homem. Sou uma pessoa. Não
sou um objecto que precisa de esmolas. Eu sou orgulhoso. Não sou
um objeto que precisa de compaixão. Eu fui criado à imagem e
semelhança de Deus. Nós fomos criados para vivermos juntos. Só
podemos sobreviver juntos. Nós só podemos ser humanos juntos. Vós,
dirigentes, podeis perguntar-me o que é que eu preciso, o que
quero. Então pergunto-vos eu a vós: o que é que precisais vós de
mim?”
O Dia da Igreja possibilita o sentimento de comunidade e leva os
participantes a voltarem às comunidades locais com novos impulsos
e iniciativas a aplicar e experimentar no dia a dia.
Quando será possível realizar em Portugal ou noutros países o que
é possível numa Alemanha onde a ausência do anti-clericalismo
cultural tornam possível um diálogo produtivo sem que política,
economia e religião se envergonhem uns dos outros num espírito de
complementaridade e de serviço mútuo. Responsáveis dos vários
quadrantes terão que se dar as mãos numa visão integral de Povo.
Em 2008 realiza-se o 97.° Dia da Igreja católico em Osnabruck e em
2010 o Dia da Igreja ecumênica em Munique.
António da
Cunha Duarte Justo
“Nas pegadas da
Igreja”
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