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Artigo » António da Cunha Duarte Justo

06/JUN/2007

 

Doação de Órgãos

Hoje, nos Países Baixos, num Show que pretende fomentar a doação de órgãos, uma mulher de 37 anos com cancro irá, com a participação do público, determinar qual de três candidatos receberá um dos seus rins.

Este Show além de ser sem gosto é contra a mais elementar consciência moral. A ética humana cede a uma cultura mercantilista em que tudo é reduzido a objecto. Por detrás desta propaganda estão interesses de firmas interessadas na comercialização de órgãos humanos. No terceiro mundo a compra de órgãos a doadores vivos floresce. Quando a oferta aumentar os entraves legais tornar-se-ão mais laxos.

Por outro lado, o show levará muita gente a ter medo de preencher um cartão de doador. Numa sociedade moralmente depravada chegar-se-á em caso de conflito a decidir entre vida e vida, sabendo-se que prevalecerá o valor econômico. Por isso mesmo não parece ser aconselhável que o legislador generalize a doação.

A idéia de se poder comprar órgãos humanos ou de os leiloar é fatal. Esta encenação propagandista tornará pessoas prudentes ainda mais inseguras e mais cautelosas no momento de assinar o consentimento de doação.

Segundo a opinião de médicos, na Alemanha, seria difícil encontrar-se um médico que estivesse disposto a fazer uma transplantação resultante de tal procedimento. Na Alemanha a doação de órgãos só se efetua depois da morte cerebral do doador ser constatada por dois médicos pressupondo-se ainda o consentimento escrito ou oral do morto. No caso de doadores vivos só é possível a doação entre familiares do primeiro ou do segundo grau.

Na Alemanha esperam 12.000 pessoas pela possibilidade de transplantação de um órgão. Em 2006 só foram possíveis 4.200 transplantações. A uma oferta dum rim corresponde uma lista de espera de seis pacientes. Da participação duma doação à realização da transplantação decorre em geral o máximo de 18 horas. Há pessoas que vivem 20 anos com a diálise o que significa um grande transtorno atendendo aos problemas colaterais de potássio e água. Dado haver apenas 12% de pessoas com cartão de doador os tempos de espera por uma doação é de seis anos. Morrem três pessoas por dia por falta de órgãos. Órgãos transplantáveis são além de rins, fígado, coração, pulmões, pâncreas e intestino delgado.

O fato de haver tanta gente a morrer por falta de doadores torna oportuna a elucidação dum público predispondo-o para a oferta. Muitos defendem uma decisão legal que considere, duma maneira geral, toda a gente como doadora, salvaguardando-se aqueles que declarem que não estão de acordo ou no caso dos familiares o recusarem.

O problema subjacente está na comercialização de órgãos e em certos casos na intervenção cirúrgica possivelmente precoce.

A necessidade de doadores de órgãos torna-se muito premente. O que não pode é acontecer dentro dum espírito banalizador como a televisão holandesa sugere. Este espetáculo só demonstra que as potências espirituais da Europa se encontram desativadas. Estas são as sombras da libertinagem iniciada pelos representantes do neo-marxismo dos anos sessenta aliado a um liberalismo desumano.

Além dos valores da autodeterminação e da liberdade há outros e em especial o da dignidade humana a ser respeitada. O corpo humano, mesmo quando cadáver não deve ser transformado em mercadoria.

António da Cunha Duarte Justo

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