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Artigo » Ademir Pestana

31/MAI/2006

 

Baixada Santista

A Marina e o Ambiente

A construção da marina na Ponta da Praia (e não no Valongo) consagrará o Goveno Papa e terá múltiplos efeitos positivos, além de estar no lugar certo – a entrada da cidade, sua porta da frente. Um deles será conter o mar que avança sobre a avenida e os prédios, mais e mais a cada ressaca. Esta marina chegará com atraso de décadas em relação a nosso potencial turístico: capaz de gerar turismo e tributos, renda e empregos, preservando o meio-ambiente com todas as técnicas existentes, trata-se de uma evolução que marcará a presente gestão municipal, atendendo a uma vocação óbvia da cidade e do país da maior costa marítima do mundo.

A Espanha, com uma costa bem menor que a brasileira, tem seu maior faturamento no turismo - e deste, 60% vem das marinas. Mas se a fizermos no Valongo, teremos que colocar duas placas aos que chegam pela barra da Ponta da Praia: “Marina nos fundos”. E outra: “Cuidado, mar cheio de óleo”, no porto. Mas ainda: “Cuidado, perigo de navios e rebocadores”. Não, não será legal. Porque ocultá-la no Valongo, na retaguarda da cidade, local em que se escondeu dos piratas o porto fundado na Ponta da Praia? O Valongo vazio é hoje uma periferia do centro turístico, sem hotéis, sem comércio, sem movimentação – que está a seis quilômetros. Não e uma marina que iá revitalizá-lo. Como misturar a marina com rebocadores e navios sem estabelecer o conflito com os barcos de recreio?

O porto foi instalado no Valongo, saindo da Ponta a Praia onde fora fundado em 1506 como o "Porto de São Vicente" pelo Bacharel da Cananéia, para ocultar-se, proteger-se dos piratas - na barra então chamada Guarapissumã. Foi em 1532, no mesmo local e na mesma data de 22 de janeiro que chegaria a expedição de Martim Afonso de Souza. É lá o local de chegada, com proteção contra os ataques de piratas. Hoje, sem piratas nem corsários. E não há porque ocultar a nossa marina, certo?

Em distinção às tipologias urbano-portuárias convencionais, o centro histórico de Santos é atípico, pois a população mudou-se para o sul da ilha. Por outro lado, a principal virtude de Santos, em relação às demais cidades que ofertam vagas em marinas, é sua proximidade e acessibilidade à São Paulo - segunda ou talvez terceira maior concentração demográfica do planeta e a maior concentração de renda do país, seu grande pólo emissor de turismo. E estes visitantes são nossa clentela. Como lhes ser incômodos?

Senão, vejamos: se tomarmos o exemplo de um veleiro que venha a sair do Valongo, em sua marcha de navegação reduzida (mesmo que navegando com seu motor auxiliar), consumiríamos em torno de duas horas até que tenhamos atingido mar aberto. Esse tempo de duas horas, adicionado às duas horas de viagem rodoviária do planalto para Santos, obrigatória ao nosso visitante preferencial, certamente estariam levando esse usuário a repensar noutras alternativas mais cômodas. Como, por exemplo, Bertioga, Guarujá, Ilhabela ou Ubatuba. Seria uma marina só para santistas, desinteressante para os turistas. É a que queremos?

Por outro lado, a inspiração proclamada em "Puerto Madero" traduz pouca lucidez de seus proponentes e defensores, até porque é outra a realidade. A largura do Rio da Prata, fronteiriço ao "Puerto Madero", é tal a ponto de não se enxergar a margem oposta, obviamente franqueando espaço e lazer à navegação recreativa. Existe a concentração humana próxima de Buenos Aires, lembrando-se que a população que residia no Valongo mudou-se há muito para a praia.

Projetada e planejada há três décadas, com modernas técnicas ambientais e reconhecido valor no meio científico-acadêmico, a proposta da marina da Ponta da Praia, apresentada a Santos no final dos anos 70, teve como seu proponente o arquiteto e professor José Carlos Lodovici. Que é mestre-doutor em estruturas ambientais, cuja tese de doutoramento é a Marina da Ponta da Praia, objeto de estudo aprofundado. A proposta da marina teve o apoio do então secretário de Turismo da Santos, Gilberto Adrien. Ele chegou a idealizar a formação de uma sociedade de economia mista – a Santos-Tur – visando implantar e administrar a “Marina Santos”. recebeu a adesão entusiástica do prefeito Carlos Caldeira e do saudoso Aníbal Martins Clemente, fundador e presidente da PRODESAN.

A marina da Ponta da Praia protegerá aquela costa que vem sendo seguidamente invadida pelo mar. Recentes administrações pelas quais a cidade passou, também equivocadamente, consentiram e promoveram a construção de obras precárias, ditas turísticas mas próprias de praias distantes dos centros urbanos, como píeres, bares e quiosques. Impõe-se assim o desafio de edificarmos algo de qualidade, que se revele à altura das atrativos naturais dos concorrentes em nível internacional. Será a redenção turística de Santos.

 

Ademir Pestana
Vereador do PSB em Santos

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