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22/MAI/2007
Portugal a Caminho do Absurdistão?
Não se passa um dia sem que na imprensa portuguesa se relatem
absurdismos de entidades do regime democrático português. Fala-se
de abstrusidades na escola, na justiça, na administração em geral,
no moralismo governante, nas nomeações, no desemprego sempre
crescente, no anedótico do dia a dia, etc.
O caso que agora se passou na Direcção Regional de Educação do
Norte (DREN) parece ser apenas a ponta do iceberg fascista /estalinista
duma administração pública que persiste em continuar na do
“orgulhosamente sós”.
O professor de Inglês requisitado pela Direcção Regional de
Educação do Norte (DREN) foi agora suspenso por ter gracejado
sobre o processo da licenciatura do Primeiro-ministro na
Independente. A diretora do DREN justifica (1) o afastamento do
professor com o comentário do professor.
A decadência moral provocada por abrilistas levianos e
oportunistas é tão grave que estes já se atrevem, em nome do novo
regime, fazer em pleno dia o que os do antigo reservavam para a
escuridão da noite. O regime partidário parece cada vez perder
mais a vergonha. Cidadãos são incriminados pelo fato de terem
opinião. Uma administração que rouba a maioridade aos cidadãos em
que nome fundamenta a discriminação? Terá o Estado a necessidade
de governar com o medo e a insegurança. Isto é muitíssimo grave
pelo fato de acontecer num regime que se define pela sua
demarcação perante os regimes totalitários. A administração
pública lembra a terra maninha onde a irresponsabilidade ganha
continuidade e se perpetua. Quer-se aumentar o poder dos
governantes à custa da dignidade dos cidadãos apezinhada. Uma
administração, que já não é capaz de reconhecer na natureza dum
comentário anedótico o seu próprio espírito submisso, anseia
inconscientemente pela ditadura.
O professor bem tentou desculpar-se (2) mas a nossa administração
não conhece a graça, a gratidão, ela vive do ressentimento, no
domínio entre pensar e obedecer.
A governança parece esconder-se por detrás do tabu estatal atuando
preventivamente através duma administração pidesca e de bufos.
Neste como noutros setores cada vez se observa mais a intervenção
duma política restritiva do estado de direito em favor dum estado
vigilante e ciumento.
A senhora diretora, embora prosélita, aos olhos democratas,
prestou um mau serviço ao Primeiro-ministro e a Portugal.
Será de desejar que o zelo da diretora, ao suspender o antigo
deputado do PSD, não será de motivação partidária atendendo a que
grande parte da administração pública relativa ao ensino se
encontra, pelo que conheço, quase exclusivamente nas mãos de
filiados nos partidos de esquerda. Embora estes se encontrem em
maioria, isto não justifica atitudes nem direitos totalitários.
Numa sociedade em que tudo se torna anedótico, em que "o serviço"
autoritário da administração pública não suporta a opinião, o
Estado pode continuar a manter o presente processo no segredo dos
deuses. Para os mais atentos, com a sua atitude, a diretora torna
o primeiro-ministro cúmplice deste sistema. Já os romanos sabiam:
“aquele a quem se permite mais do que é justo, quer mais do que é
permitido”…
Num Estado em que servir-se do Estado e do Povo é mais rentável
que servi-los, tudo é possível. O mau serviço é apenas uma
acumulação de fragilidades. Temos responsáveis que brincam ao faz
de conta. Num país de curiosos da vida, os camaleões do poder
parecem proliferar de modo especial. Continuamos a viver da
apagada e vil tristeza dum fascismo que apenas acompanha a moda no
camuflado. Na sua essência continua estático, centralista,
autoritário. Esta macrocefalia pode verificar-se também na
centralização não só do poder como de tudo o que é representativo
na região de Lisboa.
Um País de Balda
A administração como colônia de férias da eficiência e de
beneméritos sindicais e partidários, a migração como escapatória
da capacidade criativa, tudo faz de Portugal uma sociedade anônima
de responsabilidades delegadas.
Um sistema que não toma a sério os seus destinatários e desconhece
o dever de assistência para com os seus subalternos vive da
dessolidarização. A subserviência, o cálculo, a hipocrisia e a
cortesia estimula também na administração portuguesa um
comportamento autista sem frontalidade.
O insucesso dos alunos não é apenas o insucesso parcial do sistema
escolar. As escolas tornaram-se campo de férias da inteligência e
Portugal cada vez se torna mais campo de férias das virtudes que o
tornaram grande no passado. Um país porém não pode estar sempre de
férias reduzindo o trabalhador a dependente, a escravo.
O espírito esclavagista permanece aninhado, embora de rosto
domingueiro, nas nossas repartições estatais; o insucesso e uma
certa ineficiência generalizada são o mal dum sistema num país de
balda. O fascismo está em todas as cores; com o 25 de Abril ele
apoderou-se descaradamente das administrações estatais.
Portugal não tem problemas orçamentais nem problemas de formação
acadêmica. Os problemas são de gestão e de capacidades, uma
questão de mentalidade. Duma maneira geral domina a mediania dos
“iluminados do hábito” e a idéia de que a verdade é partidária.
Num país de bonzinhos não chega ter políticos bonzinhos. Não basta
que Portugal continue a definhar dos remédios e mezinhas que
sempre toma. Já chega de ejaculação de idéias ocasionais, de tanta
verborreia abrilista. Eles comem tudo e não deixam nada. Eles
apoderaram-se e continuam a abusar do 25 de Abril, como pastilha
que tudo cura. Quando tal não temos povo, não temos Portugal;
também Portugal terá que emigrar.
Na ditadura não há espaço livre, ela apodera-se das administrações
para que os chefes se apoderem dos súbditos e estes do povo.
O rei vai nu.
(1) Segundo a diretora regional trata-se dum caso grave de
"insulto feito no interior da DREN, durante o horário de
trabalho". E continua: "Os funcionários públicos, que prestam
serviços públicos, têm de estar acima de muitas coisas. O Sr.
Primeiro-ministro é o primeiro-ministro de Portugal". "Uma coisa é
um comentário ou uma anedota outra coisa é um insulto" além de
"poder haver perturbação do funcionamento do serviço". "Não tomei
a decisão de ânimo leve, foi ponderada", "O inquérito será justo,
não aceitarei pressões de ninguém. Se o professor estiver inocente
e tiver que ser ressarcido, será." A senhora diretora, como boa
administrativa, ainda não parece ter percebido as andanças da
democracia e que o Primeiro-ministro não é um caudilho com uma
administração pidesca que lhe aplana o caminho. Além disso em
democracia, o Primeiro-ministro além de não ser ileso fez
promessas que não cumpriu, não podia cumprir. Qual será mais
grave: a mentira das promessas dum ministro e a confusão em torno
da sua licenciatura em que poderão não ter faltado os secretos
amigos da maçonaria ou um comentário “desrespeitoso” dum serviçal
que se encontra numa organização de ocupação partidária desigual?
Cuius rei eius religio.
(2) O professor justifica-se: "Transcreve-se um comentário jocoso
feito por mim, dentro de um gabinete a um "colega" e retirado do
anedotário nacional do caso Sócrates/Independente, pinta-se,
maldosamente de insulto, leva-se à diretora regional de Educação
do Norte, bloqueia-se devidamente o computador pessoal do serviço
e, em fogo vivo, e a seco, surge o resultado: "Suspendo-o
preventivamente, instauro-lhe processo disciplinar, participo ao
Ministério Público". O professor, com tantos anos de experiência
administrativa também pecou. Pecou por ingenuidade e por
aparentemente desconhecer o ser da administração e do oportunismo
que ela, duma maneira geral gera.
António da
Cunha Duarte Justo
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