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25/MAI/2007
Maria – Maio – Fátima
Maria, tal como a natureza em Maio, tem as mais diversas
expressões. As diferentes devoções a Maria são também elas
manifestação da multiplicidade da realidade e das imagens da alma
humana.
Maria, tal como a alma humana, tem mil rostos. Expressa-se como
mãe, rainha, virgem, auxiliadora, a Senhora de Lurdes, de Fátima,
etc. Nela se manifesta também a nossa geografia espiritual, o
nosso ser de paisagem no tempo e no espaço. Em Maria se manifestam
a escrituras e a tradição, a espiritualidade e a teologia, o rito
e o folclore. Nela, tal como em Cristo, se encontra o ser humano
completo.
A teologia feminista procura ver nela sobretudo a dimensão humana
(1). Em Maria a mulher foi expropriada. Ao pôr-se na
disponibilidade do ato criativo, Maria e com ela a mulher é
libertada das correntes que a submetiam ao homem e à sociedade. Na
sua disposição ao espírito ela torna-se o protótipo da criação, da
arte – o dar à luz em si. Torna-se a imagem de todo o artista cujo
programa se realiza no Magnificat. Nele se revela o segredo do
processo de expropriação, o programa para todo o homem e mulher na
integração da polaridade, superando assim a exploração e o domínio
sobre o outro.
Na teologia feminista Maria, como todos os símbolos religiosos,
pode ser vista das mais variadas perspectivas. Maria é ao mesmo
tempo submissa e insubordinada. O movimento das mulheres procura
em Maria marcas em que se apoiar. O feminismo radical, numa
estratégia polarizante procura conquistar terreno vendo em Maria a
deusa das origens. Muitas vêem nos evangélicos, na sua acentuação
só em Cristo, a esconjuração dos restos da feminidade.
Independentemente dos abusos masculinos na interpretação do divino
deve recordar-se que o Cristianismo original não é de conotação
sexual nem se deixa reduzir a interpretações, a perspectivas e
maneiras de ver próprias do tempo. Estas dependem do
desenvolvimento da consciência humana e do espírito da
correspondente época, o que torna as interpretações relativas. Fé
mais que um credo é uma vivência, uma mística e só assim universal
na sua integralidade.
Muitas das imagens de Maria são pré-cristãs. Maria cristianiza as
deusas pagãs e assume as suas residências. Nela se reúnem todas as
metáforas femininas. Ela é a Deusa secreta do Cristianismo. As
suas aparições expressam o grande poder da realidade do
inconsciente. Também o peregrino no seu peregrinar se sente como
parte dum todo, o povo, a natureza a responder ao chamamento
interior. (Também por isso será debalde muito do esforço de padres
na tentativa de racionalizarem mais as promessas de crentes).
De momento assiste-se a um novo irracionalismo na procura de
muitas pessoas por dominar a própria vida. Este favorece tudo o
que está fora da tradição bíblica interessando-se por uma
interpretação feminista espiritualizado a maneira própria. O
negócio com os devocionais floresce. A capacidade de compreensão
simbólica tornou-se muitíssimo difícil. O mundo da racionalidade
trivial não deixa espaço para imagens ficando estas reservadas ao
mundo da religião e da arte. A alma porém revela-se e fala através
das imagens.
Maria é a mulher fértil que transmite a vida. No princípio está a
mãe original. A mulher traz a vida sem a intervenção do homem.
Maria virgem e mãe é a metáfora dum novo começo. As imagens de
Maria surgem da base. Ela torna-se o protótipo, a mãe da Igreja;
ela encontra-se no centro de cada mulher, de cada homem.
A humanidade de Jesus foi em parte absorvida pela cultura. O
problema é que uma humanidade radical torna supérflua a tradição,
a memória. Na memória porém dá-se o nascimento espiritual.
“Aquele que faz a minha vontade é meu pai, minha mãe e meu irmão”.
Jesus faz ir pelos ares os papéis a que as pessoas se encostam,
sejam eles familiares, sociais ou religiosos. Com Jesus e com
Maria irrompe o tempo do homem-mulher adulto. Para João a filiação
divina só acontece no espírito santo. Maria, a pessoa, engravida
por obra do espírito santo, por força do espírito. A dimensão do
espírito é reconhecida como essencial, como formadora da realidade
mas não definível nem localizável só no particular.
Para Mateus Jesus reúne em si as esperanças dos judeus na adopção
de Jesus por José, descendente da casa de David, e no totalmente
novo como filho do espírito. Ele é o esperado que através do
espírito apresenta o totalmente novo, não precisando doutra
legitimacao. Deus intervém assim, através do espírito histórica e
misticamente. A imagem judaica tradicional de Deus é superada.
Maria, na anunciação e concepção, embora ligada a David
indirectamente através de José, realiza nela a aliança histórica
de Deus ao povo de Israel alargando essa aliança a todo o
indivíduo através do gerar por acção do espírito. (Naturalmente
que na bíblia se trata de teologia e não de mera biologia como
gostariam aqueles que sonham com uma igreja muda.) O acto
legitimador não se reduz ao institucional histórico, ele passa a
ser o Espírito que sopra independentemente de condicionamentos.
No Magnificat, as vítimas tornam-se sujeito da acção. A salvação
vem de baixo. Hoje é mais que nunca necessária também uma exegese
com uma veia mística. No caminho místico dá-se a convergência da
transcendência com a imanência.
Não podemos reconhecer só a terra como deusa, como quer o
feminismo radical nem só o céu como horizonte descontextuado como
pretendem outros. Num processo aberto à mística conseguir-se-á
reconciliar o mundo das ideias com o da realidade, o mundo do
espírito com o da matéria. Seria falso desmiolar os mitos. Mito
age a partir do que está escondido no encontro da força vertical
com a força horizontal. Todo o componente da realidade está
integrado num todo global, num sistema dinâmico relacional na
interligação dos campos físico, fenomenológico e espiritual como
se vê na realidade trinitária.
No mês de Maio por todo o mundo católico se observa grande
atividade em torno de Maria. Muitas vezes as celebrações
litúrgicas são orientadas por leigos. Nestas liturgias marianas
privilegia-se a feminidade.
Um aspecto importante que se enquadraria dentro desta
espiritualidade seria a introdução de ritos de imposição das mãos
em todas as paróquias. Aí todos os participantes poderiam, na
resposta à diversidade dos dons do espírito santo, criar ritos em
que também o tratamento do corpo, a cura dos fiéis presentes se
tornassem práticas usuais mediante a imposição das mãos por parte
dos fiéis. Isto corresponderia a uma necessidade real e cuja
vulgarização poderia ter como orientação a bênção dos enfermos
realizada em Fátima nos dias treze bem como certas práticas dos
movimentos carismáticos. As liturgias marianas poderiam tornar-se
um exercício mais adequado às necessidades do lugar e do tempo.
(1) Sabe-se da investigação teológica que o modo de pessoas
compreenderem a bíblia depende muitíssimo da sua pré-atitude. “Na
cabeça do leitor surge um texto virtual, que se pode distinguir
muito do texto bíblico em questão”. Também o modo de compreender o
texto se processa diferentemente. Enquanto que leitores ligados à
igreja compreendem o texto num contexto global bíblico, leitores
sem experiência eclesial procuram o acesso ao texto através da
perspectiva histórica.
António da
Cunha Duarte Justo
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