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15/MAI/2007
Portugal/Política
Opinião Pública
A TV portuguesa fez enquete sobre qual
o maior português de todos os tempos. Ganhou Salazar. O final da
vida pública de Salazar foi melancólico. Depois de um derrame, ele
deixou de ser primeiro ministro, mas não foi informado. Fechado em
casa, despachava com "seus" ministros como se ainda fosse primeiro
ministro. Faleceu em 1970.
Seu período de poder - começa como poderoso ministro das finanças
entre 1928 e 1932. E depois presidente do conselho de ministros
até 1968. Seu longo ciclo político pode ser dividido em duas
partes. Entre 1928 e 1944, quando se destaca como gênio das
finanças numa Europa da hiperinflação na Alemanha, da
desorganização da França... O fato de ter dirigido um governo
autoritário não lhe tira méritos, na medida que - com a única
exceção do Reino Unido - o mundo vivia um ciclo de governos
autoritários.
Salazar - de certa forma - é o fundador do equilíbrio do superávit
fiscal como política econômica. Estabilizou a economia, aproveitou
a instabilidade internacional para acumular enormes reservas em
ouro. Isolou Portugal dos conflitos, inclusive da guerra civil
espanhola (Sanjurjo o chefe dos falangistas não conseguiu
autorização para usar o aeroporto oficial e sair de Portugal e sua
saída em aeroporto clandestino lhe custou a vida e abriu caminho
para Franco) e tirou proveito desta posição (vide a utilização dos
Açores pelos Aliados no período final da guerra).
A segunda guerra abriu espaço para um mundo novo, com outra visão
do processo econômico, com integração entre os blocos, com papel
ativo do Estado na aceleração econômica, etc... Mas Salazar ficou
no mundo anterior. Sua gestão no pós-guerra manteve os mesmos
parâmetros de antes e afundou Portugal no atraso, culminando com
seu melancólico final de carreira.
O surpreendente desta pesquisa em TV é o fato que sua memória
positiva só deveria estar viva para uma geração posterior a que
viveu durante seu período de sucesso. Ou seja, aqueles que
nasceram até a segunda guerra.
Mesmo sendo o público da TV de perfil etário mais velho, ainda
assim o impacto de seu nome deveria estar concentrado entre os
maiores de 65 anos. No entanto a vitória que sua memória obteve
nos faz pensar em duas explicações: fracassos do presente recriam
a memória do passado, mesmo que por ilusão regressiva; ou reforçam
a idéia que a política tem raízes longas e profundas no tempo e
sobrevive muito mais que outras atividades por tradição oral.
De qualquer forma deve ser um sinal para as lideranças portuguesas
atuais - que oscilando entre o PS e o PSD - convivem há anos com
uma economia cronicamente recessiva ou de baixo crescimento como a
do Brasil. E serve também como alerta e aprendizado - por aqui -
para aqueles eufóricos ao lerem pesquisas de popularidade de
governos eventuais ou que acham que tudo é definitivamente novo e
que a história já se foi.
Análise de César Maia - Prefeito do Rio de
Janeiro(PFL/Democratas).
Dinaldo Bizarro
dos Santos
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