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15/MAI/2007
Sindicalismo
O Primeiro de Maio
Foi-me há pouco dada a oportunidade de passar uma semana em
Almeida, com todas as vantagens que resultam de se estar fora do
grande alvoroço em que se tornou toda a nossa vida política, mau
grado ter de pagar o preço de algumas limitações em matéria de
resposta a exigências sociais correntes.
Por razões de mera casualidade, regressei a Lisboa no Dia do
Trabalhador, usando o excelente Intercidades que serve a Linha da
Beira Alta. De molde que acabei por passar ao longo do lado
ocidental do Campo Grande no momento em que os participantes na
manifestação organizada pela Intersindical deixavam a Alameda da
Universidade de Lisboa, num dia que tinha sido um pouco chuvoso.
Ainda assim, a mancha humana era claramente visível, já mesmo ao
longo da Avenida do Brasil.
O facto, de parceria com conversas que mantivera com amigos meus
ainda nessa manhã, mas também na véspera e até de há muito a esta
parte, determinaram este meu texto, onde procuro focar o que pode
e o que deve ser a actividade sindical nos dias de hoje, mas onde
também refiro os limites que têm de ser defendidos seja em que
circunstância for, sob pena de se cair numa sociedade onde a
liberdade passará a ser uma actividade simplesmente pária.
A actividade sindical, como é evidente, é parte integrante do
direito de intervenção política. O que significa que as
consequências da sua acção só poderão apresentar alguma utilidade
se forem complementadas com uma utilização inteligente, por parte
dos eleitores, dos instrumentos de escolha política que conduzem à
formação dos órgãos de soberania, ou do poder, em geral.
De pouco poderá servir a actividade sindical se os cidadãos que
trabalham viverem o seu dia a dia à revelia dos movimentos
sindicais. E o mesmo se dá se os cidadãos que protestam contra a
acção política dos eleitos os não penalizarem, escolhendo reais
alternativas, ao invés de voltarem a escolher quem acusam, de há
muito, de sempre nada ter feito.
Esta tem sido a grande pecha dos portugueses a quem foi concedido
o direito de escolher politicamente depois de 25 de Abril de 1974.
Ao oscilarem, de um modo quase perpétuo, entre PS e PSD, até mesmo
ao nível autárquico, os portugueses ajudaram a nascer e a
consolidar-se o mecanismo de garantia política adquirida que está
na base do estado em que Portugal se encontra. Aqui nasceram, como
facilmente pode perceber-se, as bases do estado que a corrupção
atingiu entre nós, fortemente potenciadas com um modo muito típico
e antigo de estar na vida: safar-se sem dar nas vistas, de
preferência não dando a cara. Falar, se não houver risco, ou seja,
saber viver à portuguesa.
A actividade sindical constitui uma intervenção natural, porque
visa defender os direitos de quem trabalha por conta de que lhe
paga. É uma actividade essencial numa sociedade livre, porque a
liberdade, como hoje se pôde já perceber bem, não garante nunca
que a equidade surja como consequência natural. De resto, o Estado
dos nossos dias, por razões ligadas à cultura dos povos e por
outras que se prendem com certos acasos históricos, tem vindo a
promiscuir-se, e de um modo acentuado e preocupante, com os
detentores de interesses particulares. Até neste particular chega
a dar a sensação de que a distribuição da iluminura intelectual é
fortemente assimétrica negativa, ou seja, à direita: aqui
estariam, pois, as luminárias do País, sempre chamadas ao
desempenho dos grandes cargos públicos ou das elevadas
administrações do domínio privado.
Por estas razões, a actividade sindical terá sempre de manter uma
linha de actuação fortemente reivindicativa, até porque muitos dos
direitos substantivos essenciais à dignidade humana vêm sendo
forte e progressivamente postos em causa. Para mudar a actividade
sindical é essencial mudar primeiro a cultura de quem tem poder, o
que parece cada dia mais distante. Reivindicar com inteligência
terá de continuar a ser um combate constante.
Hélio
Bernardo Lopes
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