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Artigo » Hélio Bernardo Lopes

10/MAI/2007

Corrupção
Os Inacreditáveis Engulhos Lusitanos

Se o meu caro leitor vir o que se passa no País com boa atenção e alguma perspicácia, perceberá facilmente que nunca as coisas poderão ir ao lugar, dado que medidas simples e naturais, todas elas com repercussões fortes e rápidas, simplesmente são recusadas pelo poder político. E sejam os que sempre estiveram no poder e nos conduziram ao estado em que nos encontramos, ou aqueles que nunca exerceram o poder governativo central.

Ora, dois dos grandes engulhos da nossa vida política, verdadeiros pilares do endémico estado de corrupção que hoje percorre a sociedade portuguesa, são a continuação do sigilo bancário e o ciclópico e infrutífero trabalho destinado a descobrir quem enriquece ilicitamente.

Não há país desenvolvido e próspero, sobretudo se nele estiver presente um verdadeiro Estado de Direito, onde o sigilo bancário não tenha visto, de um modo praticamente forte e fácil, o seu fim, facilitando o combate à grande criminalidade, alimentada, sobretudo, a partir do poder, entendido aqui de um modo muito amplo.

Do mesmo modo, mostra-se inacreditável, seja a quem for que detenha um mínimo de bom senso e de seriedade, que o único modo de combater, de facto, o enriquecimento ilícito é saber-se o que cada um possui e comparar com o que é declarado, daí saindo uma decisão.

E então há duas alternativas: ou a discrepância tem explicação legal, e tudo termina em bem, ou se assim não for, pois, terá que ser explicada a proveniência de tanto cabrito na posse de quem poucas ou nenhumas cabras tem. É a lógica das coisas, até por ser tal método pautado por grande facilidade e eficácia.

Embora já não chegue a causar espanto, a verdade é que ninguém da nossa classe política se bate, interna e internacionalmente, pela implantação destes dois mecanismos absolutamente essenciais para o combate à corrupção. A consequência, mais que lógica e natural, é a que se vê: tal como a Bélarte, a corrupção está por toda a parte. E mesmo o pouco que poderia conseguir-se neste combate à corrupção, com os limitadíssimos prazos que vão ser dados à investigação criminal, com o enfraquecimento acentuado da Polícia Judiciária, e com os obstáculos à utilização de instrumentos de investigação criminal, como se virá a dar com a escuta telefónica, os resultados futuros ficarão ainda mais aquém do que até aqui.

Tudo isto tem um preço, como está já a ver-se à saciedade: aumenta rapidamente a criminalidade violenta, ao mesmo tempo que vão piorando as condições sociais dos portugueses. Uma mistura escaldante, cujos trágicos resultados se irão continuar a ver em crescendo. Esteja atento, caro leitor! E já agora, uma pergunta: não seria, de facto, um suicídio alterar a situação portuguesa àqueles dois níveis? Ora, pois claro que seria! Se seria...!!

Hélio Bernardo Lopes

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