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03/MAI/2007
Educação
Um Entre Tantos
Tive já a oportunidade de escrever que, por um acaso da vida,
presenciei a que deverá ter sido a primeira conversa sobre a
criação de universidades privadas em Portugal. Uma conversa que
teve lugar, na minha presença, entre um antigo ministro de Salazar
e um acadêmico amigo comum.
De um modo muito geral, se quiser ser verdadeiro, terei de dizer
que este ensino se transformou num cancro da nossa sociedade,
nunca conseguindo cumprir as funções que são próprias de uma
verdadeira e qualificada universidade, com projeção internacional.
Mas é claro que este cancro é, afinal, um entre tantos outros da
nossa vida social, e não se encontra igualmente desenvolvido por
todas as instituições universitárias deste tipo.
Este estado que agora voltou a dar sinais de si deverá ser, quase
certamente, a natural consequência daquela conversa que tive a
oportunidade de presenciar. A dado passo, depois de referir a
degradação do ensino superior público nos anos conturbados do PREC,
o antigo ministro da II República sintetizou: é que isto vai dar
uma pipa de massa!
Seguiu-se a criação da Universidade Livre, e com ela começou a
sucessão de perturbações e de conseqüentes cisões, logo seguidas
do renascimento de novas universidades, dirigidas por algumas das
personalidades desavindas na perturbação anterior.
De um modo muito geral, estas universidades não pecaram por formar
gente sem preparação aos níveis de barachel e licenciado. Deu-se
até o fato interessante de terem decorrido, durante uns anos, as
designadas Olimpíadas do Direito, sendo que nas duas ou três
primeiras edições coube a vitória à Universidade Internacional,
que parece ir agora ficar-se por simples instituto superior,
exterior a qualquer universidade, à semelhança do que sempre se
deu com o ISCTE.
A verdade é que uma universidade não é apenas um liceu grande,
limitada à transmissão de conhecimentos essenciais à execução de
determinada profissão. À universidade, mesmo entre nós, tem de
competir a investigação científica, o desenvolvimento da
tecnologia e o progresso do saber, integrados na evolução
curricular dos seus docentes, com a publicação de livros e de
artigos, estes em revistas internacionais de grande
reconhecimento, o que realmente não se dá com a generalidade das
nossas universidades privadas, nomedamente nos domínios da
engenharia, das ciências econômica e da gestão, dos domínios
médico, agronômico, veterinário, físico, químico, gelógico,
biológico, etc.. O pouco que vai havendo é no domínio do papel e
lápis, com as consequências políticas que hoje se podem ver por
todos e facilmente.
Imagine agora o leitor aonde irá parar o nosso ensino
universitário público, se um dos nossos direitistas mais
iluminados tiver um dia a visão determinada de também vir a
privatizar o ensino que tanto e tão bem se desenvolveu desde
Pombal...! Mas é um risco que Portugal bem poderá vir a correr,
arrostando depois com a destruição de uma mais-valia única. A
verdade, porém, é que, nos dias de hoje, tudo é possível!
Hélio
Bernardo Lopes
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