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Artigo » Hélio Bernardo Lopes

27/ABR/2007

Sociedade/Violência

Sempre Presente e Sempre Esquecida

Foi sem espanto que recebi a mais recente notícia de um novo massacre numa universidade norte-americana: a Universidade Técnica da Virgínia, onde ocorreram, ao que parece, cerca de trinta e seis assassínios de alunos e outras pessoas da instituição, para lá de uma boa mão cheia de feridos, muitos deles de modo muito grave.

Acontece, como pude já contar aos meus leitores, que o meu falecido pai se tornou cidadão dos Estados Unidos por naturalização. Tendo eu hoje quase sessenta anos, se o meu pai ainda estivesse na nossa companhia, estaria a residir naquele país há cinquenta e oito anos.

Em Portugal, o meu pai obtivera o curso de oficial maquinista naval, na histórica Escola Náutica, muito mais tarde dotada das excelentes instalações da Costa do Estorial, mas que a queda forte da nossa marinha de comércio levou a um quase desaparecimento de referências na nossa comunicação social.

Razões políticas estiveram na base da ausência do meu pai naquele dia em que o navio zarpou do porto de Nova Iorque. Tinha eu, pois, dois anos e muito pouco. Só muitas décadas depois voltei a encontrá-lo e, num certo sentido, a conhecê-lo.

Em todo o caso, pude comparar a pessoa que encontrei com aquela cujas referências me foram feitas pela restante família e pelos mil e um amigos. E o resultado foi este: o homem elegante, culto, politicamente interessado e de esquerda, era ainda elegante, já muitíssimo rico, depois de algum tempo com dificuldades terríveis, mas sem um ínfimo da cultura que se lhe havia conhecido, politicamente desconhecedor e um indefectível republicano. E também racista.

Este foi, pois, o resultado de décadas no seio da sociedade norte-americana, onde viveu, já no tempo de grande abastança pessoal, na região de Miami: cerca de metade do tempo que viveu nos Estados Unidos.

Ora, de quanto pude ouvir ao meu pai, o que em mim sobrou foi a idéia, perfeitamente clara, de que aquela sociedade é uma sociedade violenta. E violenta desde a sua própria formação. Mas também violenta desde que findou a própria guerra civil, bem como por todo o século terminado há sete anos.

Essa matriz de violência nunca desapareceu da sociedade norte-americana, surgindo a cada esquina e de onde menos possa esperar-se. Quem preste um mínimo de atenção ao que nos chega pelos noticiários televisivos, ou mesmo pelo cinema, de há muito se terá apercebido de que a violência constitui uma marca omnipresente na sociedade dos Estados Unidos.

Por esta razão, o espírito individualista está fortemente presente no seio da sociedade norte-americana, o que faz com que se possam atingir estados de inexplicável desespero ou revolta em gente a mais diversa, com comportamentos subsequentes completamente inesperados e de resultados verdadeiramente catastróficos.

É este tipo de sociedade que tem vindo a ser importado dos Estados Unidos para a União Europeia e um pouco para todo o Mundo, tal como há dias Vítor Constância voltou a pedir: mais flexibilidade na legislação laboral, que o mesmo é dizer, menos protecção social e maior possibilidade de exploração de quem trabalha por parte de quem contrata.

É uma sociedade de extremos e onde ninguém pensa em ninguém ou acode a ninguém. Basta que recordemos a extrema desumanidade com que foi tratado o povo de Nova Orleães, na sequência do furacão Katrina, ou o que se deu recentemente com o desumano tratamento dos militares feridos no Afeganistão ou no Iraque, depois de darem entrada nos hospitais militares dos Estados Unidos: eram literalmente atorados às ratazanas, que andavam por tudo o que era lugar daquele hospital...

É, por muito que muitos possam ainda imaginar o contrário, uma feérica sociedade, onde a força e a violência são modos correntes de afirmação da personalidade. O resultado é o que agora voltou a poder ver-se. Qual será, pois, o futuro da União Europeia, que agora está a implantar no seu seio aquele modelo...? E o leitor já viu o que está a dar-se no seio da sociedade portuguesa? Ainda tem alguma memória? Sabe comparar o que vê com o que ouve? Portanto,...

Hélio Bernardo Lopes

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