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Artigo » Hélio Bernardo Lopes

24/ABR/2007

Portugal/Política

O Aeroporto da OTA

Só agora, depois das férias forçadas a que tive de submeter-me, com a finalidade de completar trabalhos urgentes de âmbito matemático, incomportáveis com o ritmo de uma análise político-social operada diariamente, me é possível escrever sobre um fantástico escândalo que hoje atinge a sociedade portuguesa. Refiro-me, concretamente, ao badaladíssimo caso do futuro Aeroporto da Ota.

Como o meu leitor deverá estar bem lembrado, foram vastas as discussões em torno da necessidade de construir um novo aeroporto para servir o País ao nível da capital. Desde logo, o velhíssimo e histórico Gabinete do Novo Aeroporto de Lisboa, o GNAL, criado ainda ao tempo do Governo de Marcelo Caetano.

Este gabinete técnico escolheu duas localidades preferenciais: a Ota e a região de Rio Frio. E logo ao tempo, sobretudo a partir de oposicionistas ao regime da Constituição de 1933, começou a correr o boato de que o local que viria a ser escolhido seria o segundo, porque certa família aí teria terrenos seus, assim dos mesmos se vendo livre e obtendo bons lucros.

Mais tarde, João Soares defendeu, com veemência, a ausência da necessidade de um novo aeroporto, dado que, em sua opinião, o actual poderia ainda sofrer fáceis ampliações, assim respondendo às necessidades até data muito avançada.

Em contrapartida, João Cravinho, como Guilhermino Rodrigues, defenderam a falta de consistência da argumentação técnica de João Soares, apontando o imperativo de se vir a construir o dito aeroporto na zona da Ota, uma vez que, no entretanto, sobreviera todo o acervo de condicionamentos ambientais, que invalidaram a localidade de Rio Frio.

Ora, desde o Governo de António Guterres até ao atual a escolha da Ota para localização do novo aeroporto foi considerada um dado adquirido. Todos os Governos, sem excepção, sempre se comprometeram a construir o novo aeroporto naquela localidade. Os estudos foram prosseguindo, a um ritmo maior ou menor, mas nunca se colocou um ínfimo obstáculo à localização já decidida.

É imperativo que se diga este fato muito evidente e que todos, mais ou menos, poderão perceber: os critérios de decisão em projetos deste tipo não constituem uma ciência exata, ou seja, não existe uma decisão que seja a ótima. Cada uma das soluções possíveis assenta sempre numa vastidão, maior ou menor, de pressupostos com forte grau de imprecisão.

E por ser esta a realidade é que, a menos que surja o tal milagre referido por Mário Lino, nada justifica hoje que se suspenda um processo de estudo e decisão que decorre há décadas, e que percorreu até regimes constitucionais diversos e Governos muito distintos.

Para quem percebe isto, o que hoje se passa com o ataque ao futuro aeroporto da Ota é, acima de tudo e para além de dúvidas aceitáveis, um processo de combate político ao atual Governo de maioria absoluta de José Sócrates. Quem a não tem, bom, tenta, ao menos, inventar qualquer coisa... Infelizmente, porém, a inventividade nunca foi o forte da generalidade dos nossos políticos!

Hélio Bernardo Lopes

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