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16/ABR/2007
Os Algarvios e D.
João VI
Neste ano em que começamos a nos preparar para celebrar (muito
justamente) os 200 anos da chegada da Família Real nunca será
demais lembrar fatos importantes da História da Humanidade, um dos
quais é motivo de orgulho para os portugueses e que é comumente
conhecido por “Descobrimentos Marítimos” ou simplesmente
“Descobrimentos”.
Não fica mal lembrarmos que noutras épocas os portugueses deram
mostras de grande coragem e espírito de aventura sobre as águas do
mar. Não falamos já no misterioso e tão pouco conhecido David
Melgueiro, que no século XVII teria ido do Japão ao Porto pelo
Estreito de Bering e atravessado o Ártico, espantosa aventura que
só por si mereceria não um pequeno artigo de jornal, mas um estudo
profundo que ainda não teve. Fiquemo‑nos por agora, todavia, por
outro espantoso feito levado a cabo por um grupo de pescadores de
Olhão, no início do Século XIX, e que teve por cenário da apoteose
final o ... Rio de Janeiro.
O algarvios tinham expulsado os franceses de Junot, depois de um
início de revolta em Olhão que alastrara por toda a província, e
tinha constituído a Junta Suprema Provincial do Reino do Algarve,
que assumiu o governo em nome do Príncipe Regente, ausente no
Brasil, e até à expulsão total dos invasores napoleônicos. Foi
então decidido mandar o seu primeiro Correio Marítimo ao Rio de
Janeiro, para levar a boa nova da expulsão dos franceses à Corte,
e para o efeito foram escolhidos alguns marítimos olhanenses (15,
mais o Mestre e o Piloto). Estes embarcaram então num caíque – o
Bom Sucesso – propriedade, do capitão olhanense Miguel do Ó. Era
uma embarcação de apenas 15 a 20 metros de comprimento por 3 ou 4
de largura e algumas toneladas de arqueação. Tinha a proa
levantada e a popa baixa e rasa. Era aparelhado com dois bastardos
triangulares, o de vante içado num mastro comprido, que pendia
para a proa, e o da ré com um mastro mais curto, caído um pouco
para a popa. Dispunha duma coberta corrida de vante a ré, com três
escotilhas, uma das quais para serventia dos intrépidos
tripulantes.
Era uma pequena embarcação, do tipo que os olhanenses usavam desde
os tempos imemoriais para suas viagens no Mediterrâneo ou sortidas
ao Norte de África, mas que nunca ninguém se atrevera a supor que
serviria para atravessar o Atlântico Sul, em arrojada demanda do
Brasil. Mas foi com a simplicidade dos verdadeiros heróis que o
Mestre Manuel Martins Garrocho, levando como Piloto Manuel de
Oliveira Nobre, se fez ao mar na pequena casca de noz. Foi em 6 de
julho de 1808. “Caso único na História Naval de Todos os Povos”
escreveria a propósito Batista Lopes.
Como outrora os portugueses na época dos Descobrimento, os nossos
pescadores ouviram missa no gracioso templo de Nossa Senhora do
Rosário e, só depois, se despediram para a longa viagem.
Sob o comando hábil e sabedor do Mestre Garrocho e guiados pelo
Piloto Oliveira Nobre, fizeram aguada na Ilha da Madeira, de onde
demandaram o Brasil. Sem cartas, que ficaram em Lisboa, o barco
dirigia-se para uma estimativa muito incerta, “Sendo o seu maior
cuidado” – escreve Agostinho de Macedo – “observar a direção das
correntes do Oceano e dirigir o rumo do caíque conforme essas
correntes.”
Ao cabo de algum tempo de viagem, sobre a qual não se conhece
outros pormenores senão que os bravos olhanenses tiveram de se
haver com uma violentíssima tempestade, onde todos iam soçobrando.
Mas finalmente avistaram costas americanas, depois de lutarem com
o mar e de terem de fugir “dos franceses, dos corsários e dos
navios negreiros de todas as nacionalidades, que sulcavam o oceano
divertindo-se em atos de pirataria”. E tiveram a infelicidade de
aportarem, depois da procelosa travessia, em terras inimigas, na
Caiena Francesa, o que os obrigou a bordejarem perigosamente a
costa, até atingirem Pernambuco.
O que deve ter sido essa viagem em tão frágil embarcação e em tais
circunstâncias, “é impossível descrever, mesmo usando a imaginação
fértil da fantasia”. Por isso mesmo mereceram esses algarvios,
esses bravos olhanenses o poema heróico que lhes dedicou José
Agostinho de Macedo – O Novo Argonauta - e a apoteótica recepção
que lhes reservou o povo do Rio de Janeiro, onde finalmente
chegaram a 22 de setembro. De tal recepção e do alvoroço das
gentes pasmadas pela audácia dos navegantes, e alegres pelas boas
novas que traziam, guardou memória durante muitos anos a população
carioca e a gente do Nordeste. D. João VI, por sua vez,
recompensou regiamente os mensageiros da boa nova, que regressaram
à sua terra num bom navio – e para lá levaram a notícia de que
Olhão fora elevada a Vila, com o título de Vila de Olhão da
Restauração.
A História de Portugal, tão rica de feitos e tão modesta em
recordá-los, registrou desta feita nomes dos intrépidos pescadores
que atravessaram o Oceano, hoje tão esquecidos. Repeti-los-ei,
aqui, olhanense que sou, pois autênticos heróis tutelares da minha
Terra: Manuel de Oliveira Nobre (piloto), Manuel Martins Garrocho
(mestre), António da Cruz Charrão, António Pereira Gêmeo, Domingos
do Ó Burrego, João Domingues Lopes, José da Cruz, José Pires,
Joaquim Ribeiro, António dos Santos Palma, Domingos de Souza,
Francisco Lourenço, João do Moinho, José da Cruz Charrão, Joaquim
do Ó, Manuel de Oliveira e Pedro Nil.
Heróis modestos da Vila de Olhão da Restauração.
António
Loulé
Diretor do Elos Clube do Rio de Janeiro
Membro da Academia Luso-Brasileira de Letras
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