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02/ABR/2007
Salazar e Cunhal no mesmo Panelão
Um voto contra a corrupção do Estado
A 25 de Março de 2007, num ato de desobriga entre abrilista e
setembrista a RTP1 elegeu "O Maior Português de Todos os Tempos"!
Os tempos estão para os que costumam andar de ouvido colado aos
baixios do povo atentos aos seus rumores anais.
No mesmo caldeirão Salazar e Cunhal. O odor que surge da cozinha
televisiva convida a tirar o testo da panela. A mistura promete e
favorece o espírito de campanha, desta vez alarmista... À hora de
repouso de crianças mais uma sondagem para distrair das mazelas da
civilização.
No concurso televisivo das personalidades pretensamente mais
importantes de Portugal verificou-se que nas restantes 10
personalidades votaram cerca de 200 mil portugueses. Destes, cerca
de 80 mil votaram em António Oliveira Salazar, que adquire o 1º
lugar com 41%, seguindo-se-lhe Álvaro Cunhal com 19.4% dos votos.
Portanto:
1º António Oliveira Salazar
2º Álvaro Cunhal
3º Aristides Sousa Mendes
4º Dom Afonso Henriques
5º Luís de Camões
6º Dom João II
7º Dom Henrique, o marinheiro
8º Fernando Pessoa
9º Marquês de Pombal
10º Vasco da Gama
Neste tema polarizador entre Salazar e Cunhal os outros 8
propostos tiveram apenas um papel de tripés. Portugal e a sua
história são reduzidos às suas dimensões reais no tratamento dos
problemas nacionais. A nossa sociedade é tão liberal que até a
verdade já é elegível, também a histórica...
A memória portuguesa tem um limite de 50 anos, com um ideário
restrito mas muito presente. Tem-se a sensação de que Portugal
quer continuar a persistir em não merecer mais do que polémica e
negociantes da banha da cobra.
Vai-se cristalizando a impressão de que do povo só interessa o
blasonar. Foi sempre assim mas na época da demagogia demoscópica e
mediática sempre se vão ouvindo os arrotes do povo embalado como
música para adormecer.
Para uns “Salazar é o símbolo de honestidade, de inteligência
administrativa e de dedicação à pátria”, que segurou o império
português contra o comunismo internacional. Para outros Álvaro
Cunhal, é o grande democrata pró-soviético de grande impacto na
sociedade portuguesa.
Cada regime tem os seus beneficiados e as suas vítimas. Ontem
pecava-se pelo nacionalismo, hoje pelo internacionalismo. Os
feiticeiros do 25 de Abril atolados no legado que Salazar terá
deixado e os sonhadores do século 21 atolados à herança que os
abrilistas deixarão? A história tem sonos longos!... Também é
verdade que o povo é quem mais ordena mas seguindo sempre os que
levantam o facho na mão.
Mas “assim se fazem as cousas…” Quem estiver ilibado que atire a
primeira pedra… A verdade é que eles são parte de nós, povo, que
lhes demos a oportunidade...
O povo elegeu dois símbolos que constituem dois pólos antagônicos.
Dum lado o conservadorismo patriota até nacionalista e do outro o
socialismo marxista internacionalista.
Será que o resultado terá sido “um murro no estômago do
esquerdismo cultural” vigente? Não, apenas mais uma oportunidade
para os que vivem de campanhas. De premeio sente-se um protesto
contra a situação e não contra a democracia. É a manifestação do
sentimento de impotência dum povo moribundo há já vários séculos.
De resto, este espetáculo foi mais uma oportunidade para os mesmos
atores da história que se sucedem e cuja diferença quase se esgota
nas máscaras que trazem.
Quem fala de “branqueamento do fascismo” não percebe o que é o
fascismo. Não se deve tratar de humanizar ou desumanizar as
figuras de Salazar e de Cunhal nem de difamar os atores da
história. Interessante seria discutir as suas idéias e voltar a
descobrir a idéia de povo e de concelho que remonta aos primórdios
da nossa história vinda já dos suevos. Os senhores do poder e dos
dogmas estarão certamente mais interessados em imagens construídas
e nos tabus. Pensar seria incómodo e isso não se aprende na
escola.
Seria oportunismo, com base no argumento de que o povo Português
desconhece a história, querer agora instrumentalizar mais ainda as
aulas de História e de Português em nome dum multiculturalismo
irrefletido é à sombra do qual medram os pregadores do
internacionalismo. Quem nega a própria história recorrendo à sua
difamação (reduzindo-a a cruzadas, colonialismo, racismo,
escravatura e caça às bruxas) sem estabelecer a cor local dos
acontecimentos com os seus atos heróicos e barbáricos branqueia
com isso as barbaridades de hoje.
Alguns mostraram-se preocupados com a «péssima imagem de Portugal»
no estrangeiro perante a escolha feita. (O estrangeiro
escandalizar-se-á pela escolha de Salazar ou de Cunhal?) O
problema não está na imagem que os estrangeiros possam ter de nós
mas na mentalidade que faz expressar esse receio. Com slogans de
liberdade e de cravos tem o povo caído na cantiga do outro. Apesar
de 30 anos a nossa democracia continua virgem
Em programas da televisão como estes quem ganha é a televisão e
quem perde é a nação. De resto a democracia vive da polarização,
facto que a revela decadente, tal como o foram os sistemas que ela
substituiu. Os cravos da democracia encontram-se murchos e o povo
encravado.
Na verdade mudam-se os tempos mas não as mentalidades.. Há muita
letra e muita música, só faltam os instrumentos.
António da
Cunha Duarte Justo
http://blog.comunidades.net/justo
Da Alemanha
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