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Artigo » António da Cunha Duarte Justo

08/ABR/2007


A História está de regresso

Na dificuldade acendem-se as velas da nação

A partir dos anos sessenta houve, na Europa, a tentativa de se fazer política sem memória. O recurso à lembrança selectiva tinha um carácter funcional sendo esta apenas usada como chibata contra o passado ou como alienadora do agir em curso. Em Portugal nacionalizou-se o problema nos anos setenta com o consequente ataque de amnésia. Eram os tempos do entusiasmo marxista na afirmação pelo futuro à custa dum passado sem presente.

O natural entusiasmo pelas liberdades de Abril e o fresco cheiro a cravos, seguido do projeto União Européia explicam aparentemente o recalcamento da história. Não faltavam razões para isso. Os erros do passado, a beleza e a importância do novo, a nova classe que se queria impor e o novo regime a estabilizar não permitiam inseguranças que só poderiam perturbar. Ninguém estava interessado em perceber o fenómeno da descolonização no contexto internacional da guerra-fria entre a Rússia e o Ocidente bem como os interesses econômicos em jogo. Portugal foi e sentiu-se então o umbigo do mundo na esperança de ter algo duradouro para exportar. Portugal torna-se então a Fátima da esquerda européia.

A vontade era tanta que até se dizia: "a partir de agora Portugal não precisa de exportar os seus filhos e os emigrantes podem voltar...”. Entretanto a vontade foi-se… restando uma grande vontade de mamar. O acordar para a realidade da vida não e coisa fácil. Os libertadoes ocuparam os lugares dos de ontem, mas nao de maneira discreta como aqueles mas sim de modo arrogante. Os de então tinham má consciencia, os de hoje a arrogancia duma legitimação por vezes dúbia.

Entrementes a lembrança está de volta. Salazar põe o dedo no ar. Não é só um descontentamento que o quer deixar falar. Recorda-se já o império perdido, a cedência incondicional ao comunismo internacional. Para muitos foi uma traição à nação, sem a salvaguarda dos direitos e interesses da presença portuguesa de 600 anos, com as lutas sangrentas da colonização interna no conluio com a ingerência internacional sem ter em conta imensas vítimas autóctones e retornados, que espera lhe seja feita menção de registo.

À euforia inicial do 25 de Abril segue-se agora o rescaldo, por vezes ingrato, duma desconfiança crescente num sistema que enriqueceu os partidos e continuou a tradição dos seus cidadãos resolverem os seus problemas no exílio do estrangeiro (só em 2006 emigraram 100.000 portugueses).

O povo vê-se sem possibilidade de introspecção e desanima. Por outro lado, esta nação continua hipotecada no estrangeiro, na emigração e bem vivendo da ideologia! O problema e que esta nação não se liberta por falta de auto-crítica.

Com Salazar a História quer voltar. A questão é: que história? As histórias da História passada não deixam grande margem para alternativas, com a agravante que a máquina reprodutora do povo também parecer enfadada. Achaques adquiridos por contágio… Os estrangeirados modernos apostam na imigração numa tentativa de lavar o rosto da emigração!... Os tais internacionalistas exploradores da emigração e da imigração.

A recordação é o fluido natural que dá estabilidade à nação. Quais os esteios da recordação?

Um novo nacionalismo seria perigoso porque nascido mais da cabeça do que do coração. Um patriotismo sadio como sentimento de pertença é óbvio.

O problema histórico de Portugal é não haver quem confesse arrependimento – só há acusadores. De costas para a fé só se recorda a dúvida. A união das duas, porém, foi a força impulsionadora da civilização ocidental. De facto, a Europa civilizou os seus povos levantando bem alto a herança comum do espírito cristão e grego, através da união da fé e da dúvida. É de desconfiar de quem só tem certezas.

Nas dificuldades os portugueses não andam longe da Europa atendendo à constatação de Nietsche ao afirmar que “os europeus só se tornam patriotas nas suas horas fracas”!

António da Cunha Duarte Justo
http://blog.comunidades.net/justo

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