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08/ABR/2007
A História está de regresso
Na dificuldade acendem-se as velas da nação
A partir dos anos sessenta houve, na Europa, a tentativa de se
fazer política sem memória. O recurso à lembrança selectiva tinha
um carácter funcional sendo esta apenas usada como chibata contra
o passado ou como alienadora do agir em curso. Em Portugal
nacionalizou-se o problema nos anos setenta com o consequente
ataque de amnésia. Eram os tempos do entusiasmo marxista na
afirmação pelo futuro à custa dum passado sem presente.
O natural entusiasmo pelas liberdades de Abril e o fresco cheiro a
cravos, seguido do projeto União Européia explicam aparentemente o
recalcamento da história. Não faltavam razões para isso. Os erros
do passado, a beleza e a importância do novo, a nova classe que se
queria impor e o novo regime a estabilizar não permitiam
inseguranças que só poderiam perturbar. Ninguém estava interessado
em perceber o fenómeno da descolonização no contexto internacional
da guerra-fria entre a Rússia e o Ocidente bem como os interesses
econômicos em jogo. Portugal foi e sentiu-se então o umbigo do
mundo na esperança de ter algo duradouro para exportar. Portugal
torna-se então a Fátima da esquerda européia.
A vontade era tanta que até se dizia: "a partir de agora Portugal
não precisa de exportar os seus filhos e os emigrantes podem
voltar...”. Entretanto a vontade foi-se… restando uma grande
vontade de mamar. O acordar para a realidade da vida não e coisa
fácil. Os libertadoes ocuparam os lugares dos de ontem, mas nao de
maneira discreta como aqueles mas sim de modo arrogante. Os de
então tinham má consciencia, os de hoje a arrogancia duma
legitimação por vezes dúbia.
Entrementes a lembrança está de volta. Salazar põe o dedo no ar.
Não é só um descontentamento que o quer deixar falar. Recorda-se
já o império perdido, a cedência incondicional ao comunismo
internacional. Para muitos foi uma traição à nação, sem a
salvaguarda dos direitos e interesses da presença portuguesa de
600 anos, com as lutas sangrentas da colonização interna no
conluio com a ingerência internacional sem ter em conta imensas
vítimas autóctones e retornados, que espera lhe seja feita menção
de registo.
À euforia inicial do 25 de Abril segue-se agora o rescaldo, por
vezes ingrato, duma desconfiança crescente num sistema que
enriqueceu os partidos e continuou a tradição dos seus cidadãos
resolverem os seus problemas no exílio do estrangeiro (só em 2006
emigraram 100.000 portugueses).
O povo vê-se sem possibilidade de introspecção e desanima. Por
outro lado, esta nação continua hipotecada no estrangeiro, na
emigração e bem vivendo da ideologia! O problema e que esta nação
não se liberta por falta de auto-crítica.
Com Salazar a História quer voltar. A questão é: que história? As
histórias da História passada não deixam grande margem para
alternativas, com a agravante que a máquina reprodutora do povo
também parecer enfadada. Achaques adquiridos por contágio… Os
estrangeirados modernos apostam na imigração numa tentativa de
lavar o rosto da emigração!... Os tais internacionalistas
exploradores da emigração e da imigração.
A recordação é o fluido natural que dá estabilidade à nação. Quais
os esteios da recordação?
Um novo nacionalismo seria perigoso porque nascido mais da cabeça
do que do coração. Um patriotismo sadio como sentimento de
pertença é óbvio.
O problema histórico de Portugal é não haver quem confesse
arrependimento – só há acusadores. De costas para a fé só se
recorda a dúvida. A união das duas, porém, foi a força
impulsionadora da civilização ocidental. De facto, a Europa
civilizou os seus povos levantando bem alto a herança comum do
espírito cristão e grego, através da união da fé e da dúvida. É de
desconfiar de quem só tem certezas.
Nas dificuldades os portugueses não andam longe da Europa
atendendo à constatação de Nietsche ao afirmar que “os europeus só
se tornam patriotas nas suas horas fracas”!
António da
Cunha Duarte Justo
http://blog.comunidades.net/justo
Da Alemanha
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