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03/ABR/2007
Modelos de interpretação da cruz / paixão
A sabedoria escolar é o princípio do saber
Com o andar dos tempos deu-se uma mudança na percepção da cruz e
da paixão, ou melhor, vão-se dando diferentes acentuações conforme
o espírito do tempo e a idoneidade de entendimento. Nas ciências
em geral e na teologia em particular há vários modelos de
aplicação da teoria ou dos dados. Essencial é não os petrificar no
tempo nem no espaço. Antoine de Saint Exupéry dizia: “Progresso é
o desenvolvimento do primitivo para o simples através do
complicado”.
A cruz é o símbolo cristão por excelência, a chave do
cristianismo, ela é também o símbolo do Homem. Quem não tiver
contato com a espiritualidade cristã ficará com a impressão de que
na Igreja se dá a exaltação do sofrimento. Facilmente se tem
abusado da cruz. A verdade é que o crucifixo além de ser uma
provocação é um apelo a acabar com a violência.
A acentuação do aspecto individual e do sofrimento deu-se
especialmente a partir das invasões bárbaras e em parte devido aos
tormentos então sofridos. O Cristo dependurado na cruz é uma
apresentação brutal mas real, tal como os cristãos sentiam nos
tempos bárbaros e de adversidade. Jesus é o Homem e as suas
circunstâncias.
A idéia e a imagem sobre a cruz e sobre a paixão são atualmente
diferentes das dos primeiros cristãos. Todas as épocas e todo o
Homem trazem em si o germe da salvação divina sendo este percebido
de modo diverso. O problema está em ativá-lo e presenciá-lo. Na
retina do tempo há sempre uma janela para o mistério; este
transcende o tempo e o espaço. Shakespeare: “Há mais coisas entre
o céu e a terra do que a vossa sabedoria escolar deixa sonhar”.
O masoquismo não é cristão
Hoje para muitos cristãos a salvação dá-se através do sofrimento
do calvário. Para a comunidade primitiva a acentuação não estava
no sofrimento do crucificado mas sim na ressurreição, não só por
ter ainda ter presente o Deuteronómio (21,22) que declarava
maldito quem morresse no madeiro mas sobretudo pela experiência do
ressuscitado.
De fato o fundamento do Cristianismo não está na cruz mas na fé em
Jesus ressuscitado. Na espiritualidade porém é mais tida em conta
a sua paixão, o que complica a abordagem dos mistérios cristãos a
um certo espírito contemporâneo.
A morte na cruz teve como consequência a grande desilusão sofrida
pelos discípulos perante tal acontecimento. Só depois da
experiência da ressurreição e da experiência de que o ressuscitado
vive através do seu espírito nos outros, é que os discípulos
(primeiro as mulheres e depois os homens) compreenderam que toda a
vida de Jesus foi salvadora. A ressurreição levou-os a entender a
paixão.
Também Saulo se transformou em Paulo através da experiência com o
ressuscitado.
Outra diferença entre a compreensão da comunidade primitiva e o
perceber hodierno está no facto deste entender que Jesus morre
pelo indivíduo, por cada pessoa individualmente como que se o
indivíduo fosse responsável pela morte de Jesus. Por seu lado a
comunidade primitiva quando se refere à sua morte refere-a como
sendo “por nós”, comunidade, povo, mundo.”Pelos nossos pecados”,
por nós que participamos do mesmo destino. Ele assumiu a qualidade
humana e o mundo até ao extremo morrendo abandonado na cruz. Ele
não deixa ninguém de fora.
Jesus Cristo pare o mundo
Jesus dá à luz o mundo para Deus tal como sua mãe Maria o deu à
luz para o mundo.
Hoje acentua-se mais a cruz quando outrora se salientava Jesus
Cristo na sua vida toda integral, não privilegiando a
“Jesusologia” em relação à “Cristologia”.
A acentuação não está tanto no que devemos fazer por Deus mas no
que Deus fez por nós. Não é tão determinante a expiação. Esta tem
por base uma ideia dum Deus legalista cuja ofensa tinha de ser
vingada, ou reparada. O NT é módico no que respeita ao relato da
paixão. Aqui, nos últimos momentos de Jesus é sublinhada a sua
relação para com Deus seu pai e para com as pessoas. Ele morre
citando o salmo 22.
Como se vê há vários modos de abordagem do tema correspondendo
estes a diferentes sensibilidades, épocas e estados de
consciência. É importante a existência de diferentes modelos de
interpretação o que poderá corresponder a diferentes necessidades
de salvação e a diferentes estados de consciência. Não se trata de
jogar uns modelos contra ou outros mas do alargamento de
consciências. Importante é entrarmos na economia das imagens, no
que elas escondem.
É importante a perspectiva da chamada de atenção da teóloga
católica Anneliese Hecht ao dizer: “Jesus não anunciou a cruz
como caminho de salvação mas sofreu sim a morte no momento em que
a Boa Nova foi mal interpretada e recusada”.
As palavras do seguimento da cruz são post – pascoais, apelando
para o empenho no seguimento do próprio caminho.
Na refeição da despedida em Lucas 14,36 Jesus prevê a sua morte. A
sua vida está à disposição do Pai (Mc14,36). Assim na noite da
entrega e da morte Cristo entrega-se por todos. O seu agir é
incondicional entregando-se até mesmo ao que o entrega. A Ceia
(eucaristia) é o testamento. Na partilha nos reconhecemos e
participamos da realidade trinitária, no ser de tudo em todos.
Jesus entrega-se no pão partido “por vós”. Mais que o pão é o pão
partido a base simbólica e sacramental. Teologicamente a fração do
pão é importantíssima e implica uma teologia com grandes
perspectivas de interpretação. “Isto é o meu corpo”. A palavra
usada é soma = corpo; soma, em grego, quer dizer a pessoa completa
e não apenas o corpo. A palavra “isto”, em grego do gênero neutro,
quer dizer o partir do pão e não o pão, porque em grego a palavra
pão é masculina exigindo consequentemente um outro artigo. A
teóloga supracitada conclui:”o partir do pão simboliza portanto
a sua vida, que será quebrada na morte”. Através do comer do
pão participa-se na sua entrega e morte.
Nas palavras, “Este é o meu cálice da nova aliança no meu sangue”,
é realizada a nova aliança na comunidade de vida. No sangue de
Jesus realiza-se a nova aliança. O sangue no AT era o símbolo de
Deus aspergido sobre o povo. A aliança é também a união do homem
com Deus na sua essência de ser para os outros. O corpo e o sangue
são sinais da entrega. Na refeição está presente a escatologia do
último dia. Na última Seia Jesus pré-interpreta o assassínio como
uma entrega livre da sua vida. Ele aceita de antemão a ação
daqueles que o matam. Na ceia antecipa e realiza a consumação da
sua vida como entrega livre antecipada integrando nela mesma os
próprios assassinos.
A igreja primitiva interpreta a morte como um escândalo – porque
todos fogem à cruz – compreendendo a sua morte como a consumação
da sua entrega.
Tal como os discípulos que só compreenderam a vida de Jesus depois
da sua experiência com o ressuscitado também nós só a poderemos
compreender a partir da experiência da ressurreição e não a partir
da cruz. Esta experiência não se reduz a um ato do conhecimento,
transcende-o. Por isso não é dada a todos. É um ato de amor
místico não só paternal mas também maternal… nele se integra o
ciclo trinitário, do pai-filho-espírito, do pai-matéria-amor, do
eu-tu-nós, três num só..
Deus torna-se solidário com as vítimas da violência, do poder
(Salmo 22, Is 52,13 e 53,12; Sab 2,10-20 e 5,1-12), com os
cordeiros inocentes. Ele vive longe das elites religiosas e
políticas mas próximo dos gastadores, dos adúlteros e dos
degenerados. Jesus participa do destino dos profetas que não foram
aceites (Lc 11,47-52 e 13,34). Certamente que também hoje não
receberia prêmios Nobel nem condecorações, embora também haja
lugar para estes. No seu último ato de entrega incondicional no
madeiro e com um grito – o grito de toda a natureza – Jesus dá à
luz a matéria para Deus. Com ele e nele a matéria toda se entrega
em Deus fazendo parte integrante da realidade e da relação
trinitária.
A carta aos Hebreus 9, 11-14 anuncia o fim da teologia da vítima.
A morte de Jesus não é a causa da nossa salvação no sentido duma
necessidade de reconciliação com Deus ofendido. A sua morte é uma
parte de toda a sua vida, no seu ser e estar para os outros. Em
Jesus revela-se o amor libertador de Deus.
Deus não precisa de expiação, ele amou sempre o mundo. Deus está
em Cristo e reconcilia o mundo consigo mesmo no paráclito. O mundo
está em Jesus como Cristo está em Deus e nós agimos em Deus o agir
de Deus em nós. Deste modo participamos na Realidade da Trindade.
A morte de Jesus é continuada na entrega e serviço ao outro. Deus
aceita o homem incondicionalmente, é misericordioso. Deus não
precisa de reparação, o ser humano é que precisa de reconciliação.
Ao termos surgido do amor do pai sentimo-nos como que a sua sombra
vivendo da saudade que é o espírito do todo, de Cristo em nós.
Assim os vários modelos podem revelar-se com matizes da mesma
sombra em relação à Luz. Nós encontramo-nos na continuidade da
morte e ressurreição antecipada pelo mestre de Israel e a ser
realizada por nós
Neste espírito torna-se importante integrar as várias tradições e
os vários modelos, no espírito trinitário integral.
António da
Cunha Duarte Justo
http://blog.comunidades.net/justo
Da Alemanha
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